A Divina ComédiaInferno · Canto I

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A Divina Comédia

A Divina Comédia · Inferno

Canto I

5 min de narração

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Na metade da estrada em nossa vidaeu me encontrei por uma selva escura,porque a via direita era perdida.
Ai, descrever qual era é coisa dura,esta selva selvagem, rude e forte,que, ao recordá-la, o medo se renova!
É tão amarga que pouco mais é a morte;mas, pra tratar do bem que lá encontrei,direi das outras coisas que avistei.
Eu não sei bem dizer como lá entrei,de tanto sono eu estava tomadoque a verdadeira via abandonei.
Mas, tendo ao pé de um monte enfim chegado,lá onde aquele vale terminavaque de medo o meu peito tinha apertado,
ergui os olhos: vi que o dorso estavavestido já dos raios do planetaque em toda via reto nos guiava.
Então o medo um pouco se aquietou,que no lago do peito me duraraa noite que passei com tanta pena.
E como quem, com fôlego ofegante,saindo do alto-mar e já na margem,volta-se à água perigosa e encara,
assim a minha alma, que ainda fugia,voltou-se para trás a olhar o passoque não deixou jamais pessoa viva.
Depois de dar ao corpo algum descanso,pus-me a subir pela encosta deserta,de modo que o pé firme era o mais baixo.
E eis que, quase no início da subida,uma onça muito leve e muito ágil,que de pelo malhado era coberta;
e de diante do rosto não saía,antes tanto impedia o meu caminhoque eu, várias vezes, quase voltaria.
Era a hora do início matutino,e o sol subia junto das estrelasque o seguiam já quando o amor divino
moveu primeiro aquelas coisas belas;e de esperar o bem me eram razão,quanto à fera de pele colorida,
a hora da manhã e a doce estação;mas não tanto que não me desse medoa visão que me veio de um leão.
Parecia que vinha contra mim,de cabeça alta e com raivosa fome,tal que até o ar parecia tremer.
E uma loba, que de todas as fomesem sua magreza parecia cheia,e já fez muita gente viver triste,
esta me trouxe peso tão profundopelo pavor que vinha do seu vulto,que eu perdi a esperança da subida.
E como aquele que contente ajunta,e chega o tempo que o leva a perder,que em seus pensamentos chora e se aflige,
tal me deixou a fera sem ter paz,que, vindo ao meu encontro, pouco a poucome empurrava para onde o sol se cala.
Enquanto eu despencava para o fundo,ante meus olhos veio aparecerquem de longo calar parecia rouco.
Quando o vi lá no grande descampado,“Tem piedade de mim”, eu lhe gritei,“quem quer que sejas, sombra ou homem vivo!”
Respondeu: “Homem não; homem já fui,e os meus pais eram lombardos de origem,eram mantuanos de pátria os dois.
Nasci sob Júlio, embora fosse tarde,e vivi em Roma sob o bom Augusto,no tempo dos deuses falsos e enganosos.
Fui poeta, e cantei aquele justofilho de Anquises que veio de Troia,depois que a soberba Ílion foi queimada.
Mas tu, por que retornas a tal dor?Por que não sobes o aprazível monte,princípio e causa de toda alegria?”
“És tu, então, Virgílio, aquela fonteque espalhas do falar tão largo rio?”,lhe respondi, corando a minha fronte.
“Ó dos outros poetas honra e lume,valha-me o longo estudo e o grande amorque me fez procurar o teu volume.
Tu és meu mestre, tu és o meu autor;tu és o único de quem eu tomeio belo estilo que me deu louvor.
Vê a fera pela qual eu me voltei:salva-me dela, tu, famoso sábio,que ela me faz tremer as veias e pulsos.”
“A ti convém seguir outra viagem”,respondeu, vendo que eu estava em pranto,“se queres fugir deste ermo selvagem:
pois esta fera, pela qual tu gritas,não deixa ninguém passar por sua estrada,mas tanto o impede que por fim o mata;
e é de índole tão malvada e perversa,que nunca farta o seu voraz desejo,e após comer tem mais fome do que antes.
Muitos são os animais com que se casa,e ainda serão mais, até que o Lebréuhá de vir e a fará morrer com dor.
Não comerá nem terra nem dinheiro,mas sabedoria, amor e virtude,e entre feltro e feltro terá nascença.
Há de salvar aquela humilde Itáliapela qual morreu a virgem Camila,Euríalo, Turno e Niso, de feridas.
Ele a perseguirá por toda vila,até lançá-la de novo no inferno,lá donde a inveja um dia a desatou.
Por isso eu penso e vejo, por teu bem,que tu me sigas, e eu serei teu guia,e te levo daqui por reino eterno,
onde ouvirás gritos desesperados,verás as velhas almas sofredoras,que cada uma a segunda morte clama;
e verás aqueles que estão contentesno fogo, pois que esperam alcançar,quando quer que seja, a gente bendita.
Se até elas depois quiseres subir,uma alma para isso mais digna que eucom ela eu te deixarei ao partir;
pois o Imperador que reina lá no alto,porque fui um rebelde à sua lei,não quer que eu entre na cidade dele.
Em toda parte impera, mas lá rege;lá é sua cidade e o seu alto trono:feliz daquele que ele lá elege!”
E eu lhe disse: “Poeta, eu te suplico,por esse Deus que tu não conheceste,que eu fuja deste mal e do pior,
que tu me leves lá onde disseste,para que eu veja a porta de São Pedroe aqueles que descreves tão aflitos.”
Ele então se moveu, e eu fui atrás.