“É verdade, ainda há pouco eu quis pedir trabalho a Razumíkhin, para ele me arranjar umas aulas ou qualquer outra coisa…”, ia matutando Raskólnikov, “mas em que ele pode me ajudar agora? Suponhamos que arranje as aulas, suponhamos até que divida comigo o último copeque, se é que ele tem algum copeque, de modo que dê até para comprar botas e ajeitar a roupa, para ir dar as aulas… hum… Bom, e depois? O que vou fazer com moedas de cinco copeques? É disso que eu preciso agora? Francamente, é ridículo eu ter ido procurar Razumíkhin…”
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Crime e Castigo · Parte um
Capítulo V
A pergunta sobre por que tinha ido agora procurar Razumíkhin o inquietava mais do que ele próprio imaginava; com aflição, buscava algum sentido sinistro para si naquele ato, ao que parecia, dos mais comuns.
“Será possível que eu quisesse consertar a coisa toda só com Razumíkhin e que tivesse encontrado em Razumíkhin a saída para tudo?”, perguntava-se ele, espantado.
Ele pensava e esfregava a testa e, coisa estranha, de algum modo sem querer, de repente e quase por si mesma, depois de uma reflexão muito longa, veio-lhe à cabeça uma ideia estranhíssima.
“Hum… à casa de Razumíkhin”, disse ele de repente, com toda a calma, como quem chega a uma decisão definitiva, “à casa de Razumíkhin eu vou, isso é certo… mas não agora… Vou procurá-lo… no dia seguinte, depois daquilo, quando aquilo já estiver acabado e tudo tomar um rumo novo…”
E de repente ele caiu em si.
“Depois daquilo”, gritou ele, levantando-se de um salto do banco, “mas por acaso aquilo vai acontecer? Será que vai mesmo acontecer?”
Largou o banco e saiu andando, quase correndo; quis dar meia-volta, para casa, mas de repente ir para casa lhe pareceu terrivelmente repugnante: era lá, no canto, naquele armário horrível, que tudo isso vinha amadurecendo havia mais de um mês; e ele seguiu para onde os pés o levassem.
O tremor nervoso transformou-se numa espécie de tremor febril; chegava a sentir calafrios; naquele calor, sentia frio. Como que com esforço, quase sem perceber, por alguma necessidade interior, começou a fixar o olhar em todos os objetos que encontrava, como se buscasse com afinco alguma distração, mas não conseguia muito, e a todo instante caía em meditação. E quando de novo, estremecendo, levantava a cabeça e olhava ao redor, esquecia no mesmo instante em que estivera pensando e até por onde passava. Desse modo atravessou toda a ilha Vassílievski, saiu no Pequeno Nevá, cruzou a ponte e virou na direção das Ilhas. O verde e o frescor agradaram de início a seus olhos cansados, acostumados à poeira da cidade, à cal e aos prédios enormes, que apertavam e oprimiam. Ali não havia abafamento, nem fedor, nem tavernas. Mas logo também essas sensações novas e agradáveis se tornaram doentias e irritantes. Às vezes parava diante de alguma casa de campo enfeitada de verde, olhava através da grade e via ao longe, nas sacadas e nos terraços, mulheres bem-vestidas e crianças correndo pelo jardim. Interessavam-lhe sobretudo as flores; era o que ele olhava por mais tempo. Também cruzava com carruagens luxuosas, com cavaleiros e amazonas; seguia-os com os olhos, curioso, e esquecia-os antes que sumissem de vista. Uma vez parou e contou o dinheiro: havia uns trinta copeques. “Vinte para o guarda, três para Nastássia pela carta… então ontem dei aos Marmeládov uns quarenta e sete ou cinquenta copeques”, pensou, fazendo a conta não se sabe para quê, mas logo esqueceu até por que tinha tirado o dinheiro do bolso. Lembrou-se disso ao passar por um estabelecimento de comida, uma espécie de casa de pasto, e sentiu que estava com fome. Entrou na casa de pasto, bebeu um cálice de vodca e comeu um pastel com um recheio qualquer. Terminou de comê-lo já de novo na estrada. Fazia muito tempo que não bebia vodca, e ela fez efeito num instante, embora tivesse bebido só um cálice. As pernas de repente ficaram pesadas, e ele começou a sentir uma forte vontade de dormir. Tomou o caminho de casa; mas, já tendo chegado à ilha Petróvski, parou completamente exausto, saiu da estrada, entrou entre os arbustos, caiu na relva e no mesmo instante adormeceu.1Grupo de ilhas no delta do Nevá (Kámenni, Eláguin e Krestóvski), com parques, jardins e casas de veraneio da gente rica da capital, longe do centro poeirento.
Em estado doentio, os sonhos muitas vezes se distinguem por um relevo, um brilho e uma semelhança com a realidade fora do comum. Às vezes se compõe um quadro monstruoso, mas o ambiente e todo o desenrolar da cena são, ao mesmo tempo, tão verossímeis, e com detalhes tão sutis, inesperados, mas artisticamente de acordo com a plenitude do quadro, que esse mesmo sonhador não seria capaz de inventá-los acordado, ainda que fosse um artista como Púchkin ou Turguêniev. Sonhos assim, sonhos doentios, ficam sempre muito tempo na memória e causam forte impressão no organismo já abalado e excitado da pessoa.
Raskólnikov teve um sonho terrível. Sonhou com a sua infância, ainda na cidadezinha onde moravam. Ele tem uns sete anos e, num dia de festa, ao entardecer, passeia com o pai fora da cidade. O tempo está cinzento, o dia é abafado, o lugar é exatamente como ficou guardado na memória dele: na memória, aliás, estava muito mais apagado do que agora lhe aparecia no sonho. A cidadezinha se estende descoberta, como na palma da mão; em volta, nem um salgueiro; em algum ponto muito distante, bem na beira do céu, escurece um pequeno bosque. A poucos passos da última horta da cidade fica uma bodega, uma bodega grande, que sempre lhe causava a impressão mais desagradável, e até medo, quando passava diante dela passeando com o pai. Ali havia sempre tanta gente, gritavam tanto, gargalhavam, xingavam, cantavam de um jeito tão feio e rouco e brigavam com tanta frequência; em volta da bodega vagavam sempre umas caras tão bêbadas e assustadoras… Quando cruzava com elas, ele se apertava contra o pai e tremia todo. Junto à bodega passa a estrada, um caminho de terra, sempre poeirento, e a poeira nele é sempre tão preta. Ela segue serpenteando adiante e, uns trezentos passos depois, contorna pela direita o cemitério da cidade. No meio do cemitério há uma igreja de pedra com cúpula verde, aonde ele ia uma ou duas vezes por ano com o pai e a mãe à missa, quando se celebravam os ofícios fúnebres pela avó, morta havia muito tempo e que ele nunca tinha visto. Nessas ocasiões levavam sempre a kutiá num prato branco, envolto num guardanapo, e a kutiá era doce, de arroz com passas, enfiadas no arroz em forma de cruz. Ele gostava dessa igreja e dos seus ícones antigos, a maioria sem moldura de metal, e do velho padre de cabeça trêmula. Ao lado do túmulo da avó, que tinha uma lápide, ficava também o pequeno túmulo do irmão mais novo, morto aos seis meses, que ele também não tinha conhecido nem podia lembrar; mas tinham lhe dito que ele tivera um irmãozinho, e toda vez que visitava o cemitério ele se benzia sobre o tumulozinho com devoção e respeito, inclinava-se diante dele e o beijava. E eis o que ele sonha: vai com o pai pela estrada rumo ao cemitério e passam diante da bodega; ele segura a mão do pai e olha com medo para a bodega. Uma circunstância especial chama a sua atenção: desta vez parece haver ali uma festança, uma multidão de mulheres da cidade enfeitadas, de camponesas, os maridos delas e toda espécie de gentalha. Estão todos bêbados, todos cantam, e junto à entrada da bodega há uma carroça, mas uma carroça estranha. É uma daquelas carroças grandes, às quais se atrelam grandes cavalos de tiro e em que se transportam mercadorias e barris de vinho. Ele sempre gostou de olhar esses enormes cavalos de tiro, de crina longa e pernas grossas, que andam tranquilos, em passo compassado, puxando uma montanha inteira sem fazer esforço nenhum, como se com a carga fosse até mais fácil para eles do que sem ela. Mas agora, coisa estranha, numa carroça grande assim estava atrelada uma pequena égua de camponês, magra, baia, um daqueles pangarés que, ele tinha visto muitas vezes, se arrebentam às vezes sob uma carga alta de lenha ou de feno, sobretudo quando a carroça atola na lama ou num sulco da estrada, e então os mujiques sempre batem nelas com o chicote com tanta força, com tanta força, às vezes até bem no focinho e nos olhos, e ele sente tanta pena, tanta pena de ver aquilo, que quase chora, e a mamãe sempre o tirava de perto da janela. Mas eis que de repente tudo fica muito barulhento: da bodega saem, com gritos, com canções, com balalaicas, uns mujiques grandalhões, bêbados de cair, de camisas vermelhas e azuis, com o casacão jogado sobre os ombros. “Subam, subam todos!”, grita um deles, ainda jovem, de pescoço muito grosso e de cara carnuda, vermelha como uma cenoura. “Levo todo mundo, subam!” Mas no mesmo instante ouvem-se risadas e exclamações:2A kutiá é um prato ritual russo de grãos cozidos, aqui arroz, adoçado e com passas, levado à igreja nas cerimônias em memória dos mortos.
— Um pangaré desses vai puxar isso!
— Ô Mikolka, você está em seu juízo? Atrelar uma eguinha dessas numa carroça dessas!
— E essa baia aí já tem seus vinte anos, com certeza, pessoal!
— Subam, levo todo mundo! — grita de novo Mikolka, saltando primeiro para a carroça; pega as rédeas e fica de pé na frente, ereto. — O castanho saiu há pouco com o Matviei — grita ele da carroça —, e essa eguinha aqui, pessoal, só me parte o coração: dava até vontade de matar, come o pão de graça. Estou dizendo, subam! Vou fazer ela galopar! Ela vai a galope! — E pega o chicote, preparando-se com gosto para açoitar a baia.
— Sobe logo, ué! — gargalham na multidão. — Ouviu? Vai a galope!
— Essa aí não galopa faz uns dez anos, no mínimo.
— Vai galopar, sim!
— Sem dó, pessoal, cada um pega um chicote, vamos preparar!
— Isso mesmo! Açoita ela!
Todos sobem na carroça de Mikolka entre gargalhadas e gracejos. Subiram umas seis pessoas, e ainda cabe mais. Levam junto uma mulher, gorda e corada. Está vestida de chita vermelha, com um toucado bordado de miçangas, sapatos de couro nos pés; quebra nozinhas e dá risadinhas. Em volta, na multidão, também riem, e de fato, como não rir: uma eguinha mirrada daquelas vai puxar um peso desses a galope! Dois rapazes na carroça logo pegam cada um o seu chicote, para ajudar Mikolka. Ouve-se: “Eia!”, o pangaré puxa com toda a força, mas, longe de galopar, mal consegue dar conta de andar a passo, só dá passinhos miúdos, geme e se encolhe sob os golpes dos três chicotes, que chovem sobre ela como granizo. As risadas na carroça e na multidão redobram, mas Mikolka se zanga e, furioso, açoita a eguinha com golpes cada vez mais rápidos, como se de fato acreditasse que ela vai sair a galope.
— Me deixa subir também, pessoal! — grita da multidão um rapaz que tinha tomado gosto pela coisa.
— Sobe! Subam todos! — grita Mikolka. — Ela leva todo mundo. Mato ela no chicote! — E bate, bate, e de tanta fúria já nem sabe com que mais bater.
— Papai, papai — grita ele ao pai —, papai, o que eles estão fazendo? Papai, estão batendo no pobre cavalinho!
— Vamos, vamos! — diz o pai. — São bêbados, estão fazendo arte, uns idiotas: vamos, não olhe! — e quer levá-lo dali, mas ele se solta das mãos do pai e, fora de si, corre para o cavalinho. Mas o pobre cavalinho já está mal. Ofega, para, puxa de novo, quase cai.
— Açoita até morrer! — grita Mikolka. — Já que chegou a esse ponto. Mato no chicote!
— Você não tem cruz no peito, não, seu demônio? — grita um velho da multidão.
— Onde já se viu um cavalinho desses puxar uma carga dessas — acrescenta outro.
— Vai matar o bicho! — grita um terceiro.
— Não se mete! É coisa minha! Faço o que eu quiser. Subam mais! Subam todos! Quero que ela vá a galope, custe o que custar!…
De repente uma gargalhada estoura de uma vez e cobre tudo: a eguinha não aguentou os golpes cada vez mais rápidos e, sem forças, começou a escoicear. Nem o velho resistiu e deu um sorriso. E de fato: uma eguinha mirrada daquelas, e ainda dá coice!
Dois rapazes da multidão pegam mais um chicote cada um e correm até a égua para açoitá-la pelos flancos. Cada um corre do seu lado.
— No focinho, bate nos olhos, nos olhos! — grita Mikolka.
— Uma canção, pessoal! — grita alguém da carroça, e todos na carroça entoam junto. Ressoa uma canção de farra, chacoalha um pandeiro, nos refrãos há assobios. A mulher quebra nozinhas e dá risadinhas.
…Ele corre ao lado do cavalinho, corre na frente dele, vê como o açoitam nos olhos, bem nos olhos! Ele chora. Seu coração se revolve, as lágrimas escorrem. Um dos que açoitam o atinge no rosto; ele não sente, torce as mãos, grita, corre até um velho grisalho, de barba grisalha, que balança a cabeça e reprova tudo aquilo. Uma mulher o pega pela mão e quer levá-lo dali; mas ele se solta e corre de novo para o cavalinho. O animal já está nas últimas forças, mas mais uma vez começa a escoicear.
— Que o diabo te carregue! — grita Mikolka, furioso. Larga o chicote, abaixa-se e puxa do fundo da carroça um varal comprido e grosso, segura-o pela ponta com as duas mãos e, com esforço, ergue-o no ar sobre a baia.
— Vai arrebentar a égua! — gritam em volta.
— Vai matar!
— É coisa minha! — grita Mikolka e desce o varal com toda a força. Ouve-se um golpe pesado.
— Açoita, açoita! Pararam por quê? — gritam vozes da multidão.
E Mikolka levanta o varal outra vez, e outro golpe, com toda a força, cai sobre o lombo do infeliz pangaré. A égua arria toda sobre as ancas, mas se ergue num salto e puxa, puxa com as últimas forças que lhe restam, para um lado e para o outro, tentando arrastar a carroça; mas de todos os lados a recebem seis chicotes, e o varal de novo se ergue e cai pela terceira vez, depois pela quarta, compassado, com toda a força. Mikolka está enfurecido por não conseguir matar com um só golpe.
— É dura de matar! — gritam em volta.
— Agora ela cai, com certeza, pessoal, e aí é o fim dela! — grita da multidão um entendido.
— Com o machado, ué! Acaba com ela de uma vez — grita um terceiro.
— Ah, diacho! Abram espaço! — berra Mikolka, desatinado; larga o varal, abaixa-se de novo na carroça e puxa uma barra de ferro. — Cuidado! — grita ele, e com toda a força atinge em cheio a sua pobre égua. O golpe desabou; a eguinha cambaleou, arriou, quis puxar, mas a barra de novo, com toda a força, cai sobre o lombo dela, e ela tomba no chão como se lhe tivessem cortado as quatro pernas de uma vez.
— Acaba com ela! — grita Mikolka e salta da carroça, como fora de si. Vários rapazes, também vermelhos e bêbados, agarram o que encontram pela frente, chicotes, paus, o varal, e correm para a eguinha agonizante. Mikolka se põe ao lado e começa a bater com a barra no lombo, a esmo. O pangaré estica o focinho, suspira pesadamente e morre.
— Liquidou! — gritam na multidão.
— Quem mandou não ir a galope!
— É coisa minha! — grita Mikolka, com a barra nas mãos e os olhos injetados de sangue. Fica ali parado como se lamentasse já não haver mais em quem bater.
— É, pelo jeito você não tem mesmo cruz no peito! — gritam da multidão, agora muitas vozes.
Mas o pobre menino já está fora de si. Aos gritos, abre caminho pela multidão até a baia, abraça o focinho morto e ensanguentado e o beija, beija os olhos, os lábios… Depois, de repente, se levanta de um salto e, num frenesi, se atira com os seus punhozinhos contra Mikolka. Nesse instante o pai, que já corria atrás dele havia muito tempo, finalmente o agarra e o carrega para fora da multidão.
— Vamos! Vamos! — diz-lhe ele. — Vamos para casa!
— Papai! Por que eles… o pobre cavalinho… mataram! — soluça ele, mas lhe falta o fôlego, e as palavras saem em gritos do seu peito oprimido.
— São bêbados, estão fazendo arte, não é da nossa conta, vamos! — diz o pai. Ele abraça o pai, mas o peito aperta, aperta. Quer tomar fôlego, gritar, e acorda.
Acordou todo suado, com o cabelo molhado de suor, ofegante, e soergueu-se, horrorizado.
“Graças a Deus, foi só um sonho!”, disse ele, sentando-se debaixo de uma árvore e respirando fundo. “Mas o que é isso? Será que estou começando a ter febre: que sonho medonho!”
Tinha o corpo todo como que moído; na alma, tudo turvo e escuro. Apoiou os cotovelos nos joelhos e segurou a cabeça com as duas mãos.
“Meu Deus!”, exclamou ele. “Será possível, será possível que eu vá mesmo pegar um machado, bater na cabeça dela, rachar o crânio… escorregar no sangue pegajoso e quente, arrombar a fechadura, roubar e tremer; me esconder, todo coberto de sangue… com o machado… Senhor, será possível?”
Tremia como uma folha ao dizer isso.
“Mas o que é isso comigo!”, continuou ele, erguendo-se de novo, como que em profundo assombro. “Eu sabia que não ia aguentar isso, então por que me torturei até agora? Ainda ontem, ontem, quando fui fazer aquele… ensaio, ontem mesmo entendi perfeitamente que não ia suportar… O que é que eu tenho agora, então? Por que é que até agora eu ainda duvidava? Ontem mesmo, descendo a escada, eu mesmo disse que aquilo era baixo, nojento, vil, vil… só de pensar, acordado, já me deu náusea e me encheu de horror…
Não, eu não vou suportar, não vou suportar! Mesmo que, mesmo que não haja dúvida nenhuma em todos esses cálculos, mesmo que tudo o que foi decidido neste mês seja claro como o dia, justo como a aritmética. Senhor! Mesmo assim eu não vou ter coragem! Eu não vou suportar, não vou suportar!… Por que, por que então até agora…”
Pôs-se de pé, olhou em volta com espanto, como se até se admirasse de ter vindo parar ali, e seguiu para a ponte T—. Estava pálido, os olhos ardiam, a exaustão tomava todos os seus membros, mas de repente pareceu respirar com mais facilidade. Sentiu que já tinha se livrado daquele fardo terrível que o oprimira por tanto tempo, e de repente a alma ficou leve e em paz. “Senhor!”, rogava ele. “Mostra-me o meu caminho, e eu renuncio a esse maldito… sonho meu!”
Ao atravessar a ponte, olhava em silêncio e tranquilo para o Nevá, para o poente radiante de um sol radiante e vermelho. Apesar da fraqueza, nem sequer sentia cansaço. Era como se um abscesso no seu coração, que vinha inflamando o mês inteiro, de repente tivesse estourado. Liberdade, liberdade! Agora estava livre daquele encanto, da feitiçaria, do fascínio, da obsessão!
Mais tarde, quando relembrava aquele tempo e tudo o que lhe acontecera naqueles dias, minuto a minuto, ponto por ponto, traço por traço, sempre o impressionava, quase a ponto de superstição, uma circunstância que, no fundo, nem era muito extraordinária, mas que depois sempre lhe pareceu uma espécie de predeterminação do seu destino.
Justamente esta: ele não conseguia de jeito nenhum entender nem explicar para si mesmo por que, cansado, esgotado, quando o mais vantajoso seria voltar para casa pelo caminho mais curto e direto, voltou passando pela praça Sennaia, onde não tinha nenhuma necessidade de ir. O desvio era pequeno, mas evidente e totalmente inútil. Claro, dezenas de vezes lhe acontecera voltar para casa sem lembrar por quais ruas tinha passado. Mas por que, perguntava-se ele sempre, por que um encontro tão importante, tão decisivo para ele e, ao mesmo tempo, tão extremamente casual, na Sennaia (onde ele nem tinha por que passar), veio acontecer justamente agora, nessa hora, nesse minuto da sua vida, justamente nesse estado de espírito e justamente nessas circunstâncias, as únicas em que esse encontro podia produzir o efeito mais decisivo e mais definitivo sobre todo o seu destino? Como se estivesse ali de propósito, esperando por ele!
Eram quase nove horas quando ele passava pela Sennaia. Todos os vendedores, nas mesas, nas bancas, nas lojas e lojinhas, fechavam seus negócios, ou retiravam e guardavam a mercadoria, e iam para casa, assim como os seus fregueses. Perto das casas de pasto nos andares térreos, nos pátios sujos e fedorentos dos prédios da praça Sennaia e, sobretudo, junto às tavernas, aglomerava-se muita gente de toda espécie, gente de pequenos ofícios e maltrapilhos. Raskólnikov gostava especialmente desses lugares, assim como de todas as travessas vizinhas, quando saía à rua sem rumo. Ali os seus farrapos não atraíam o olhar arrogante de ninguém, e podia-se andar do jeito que fosse sem escandalizar ninguém. Bem na entrada da travessa K—, na esquina, um pequeno-burguês e uma mulher, a esposa dele, vendiam mercadorias em duas mesas: linhas, fitas, lenços de chita e coisas assim. Também eles estavam se preparando para ir para casa, mas tinham se demorado conversando com uma conhecida que se aproximara. Essa conhecida era Lizavieta Ivánovna ou, simplesmente, como todos a chamavam, Lizavieta, a irmã mais nova daquela mesma velha, Aliona Ivánovna, viúva de um registrador de colegiado e usurária, em cuja casa Raskólnikov estivera na véspera para empenhar o relógio e fazer o seu ensaio… Fazia tempo que ele sabia tudo sobre essa Lizavieta, e até ela o conhecia um pouco. Era uma moça alta, desajeitada, tímida e humilde, quase uma idiota, de trinta e cinco anos, que vivia em completa escravidão sob a irmã, trabalhava para ela dia e noite, tremia diante dela e até apanhava dela. Estava parada, pensativa, com uma trouxa, diante do pequeno-burguês e da mulher, e os escutava com atenção. Eles lhe explicavam alguma coisa com um ardor especial. Quando Raskólnikov de repente a viu, uma sensação estranha, parecida com o mais profundo assombro, tomou conta dele, embora não houvesse nada de assombroso naquele encontro.
— A senhora mesma devia resolver isso pessoalmente, Lizavieta Ivánovna — dizia alto o pequeno-burguês. — Venha amanhã, entre seis e sete, senhora. E eles também vão estar lá.
— Amanhã? — disse Lizavieta, arrastando a voz, pensativa, como se não se decidisse.
— Mas que medo a Aliona Ivánovna lhe meteu, hein! — desatou a falar a mulher do comerciante, uma mulherzinha desembaraçada. — Olhando para a senhora, parece mesmo uma criancinha. E ela nem é sua irmã de sangue, é só meia-irmã, e veja quanto poder tomou.
— Desta vez não diga nada à Aliona Ivánovna, senhora — interrompeu o marido —, esse é o meu conselho, senhora, e venha à nossa casa sem pedir licença. O negócio é vantajoso, sim, senhora. Depois a senhora sua irmã pode ver por si mesma.
— Será que eu vou?
— Entre seis e sete, amanhã; e da parte deles também vem alguém, senhora; a senhora mesma resolve, pessoalmente, senhora.
— E a gente põe o samovarzinho para ferver — acrescentou a mulher.
— Está bem, eu vou — disse Lizavieta, ainda pensativa, e começou devagar a sair do lugar.
Raskólnikov já tinha passado e não ouviu mais nada. Passara devagar, sem se fazer notar, tentando não perder uma única palavra. O assombro inicial foi aos poucos dando lugar ao horror, como se um frio lhe percorresse a espinha. Ele soube, soube de repente, de súbito e sem esperar de modo algum, que amanhã, às sete em ponto da noite, Lizavieta, a irmã da velha e a única que morava com ela, não estaria em casa e que, portanto, a velha, às sete em ponto da noite, ficaria em casa sozinha.
Faltavam só alguns passos até o seu apartamento. Entrou em casa como um condenado à morte. Não raciocinava sobre nada, e era completamente incapaz de raciocinar; mas com todo o seu ser sentiu de repente que já não tinha nem liberdade de juízo nem vontade, e que tudo, de repente, estava decidido em definitivo.
Claro, mesmo que tivesse de esperar anos inteiros por uma ocasião favorável, nem então, tendo um plano em mente, se poderia contar com certeza com um passo mais evidente para o sucesso desse plano do que aquele que de repente se apresentava agora. Em todo caso, seria difícil saber na véspera, e com certeza, com maior precisão e com menor risco, sem nenhuma pergunta ou investigação perigosa, que amanhã, a tal hora, tal velha, contra quem se prepara um atentado, estaria em casa sozinha, completamente sozinha.