Crime e CastigoParte seis · Capítulo V

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Crime e Castigo · Parte seis

Capítulo V

3 notas

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Raskólnikov foi atrás dele.

— Que é isso? — exclamou Svidrigáilov, virando-se. — Eu, ao que parece, já disse…

— Isso quer dizer que agora não vou mais largar do senhor.

— O quê-ê-ê?

Os dois pararam, e os dois ficaram cerca de um minuto se olhando, como que se medindo.

— De todas as suas histórias meio bêbadas — cortou Raskólnikov com rispidez —, concluí positivamente que o senhor não só não abandonou os seus planos mais baixos em relação à minha irmã, como até se ocupa deles mais do que nunca. Sei que hoje de manhã minha irmã recebeu uma carta. O senhor o tempo todo não conseguia parar quieto… O senhor, suponhamos, pode ter desencavado alguma esposa pelo caminho; mas isso não quer dizer nada. Desejo me certificar pessoalmente…

Raskólnikov dificilmente saberia dizer, ele mesmo, o que exatamente queria agora e de que exatamente desejava se certificar pessoalmente.

— Ora essa! E se eu chamar a polícia agora mesmo, quer?

— Então chama!

Os dois ficaram de novo cerca de um minuto um diante do outro. Por fim, o rosto de Svidrigáilov mudou. Tendo se certificado de que Raskólnikov não se assustara com a ameaça, ele assumiu de repente o ar mais alegre e amistoso.

— Mas que sujeito! Eu de propósito não puxei conversa com o senhor sobre o seu caso, embora, é claro, a curiosidade me atormente. É um caso fantástico. Eu já tinha deixado para outra vez, mas, palavra, o senhor é capaz de irritar até um morto… Bem, vamos, só que já vou avisando: agora passo só um minutinho em casa, para pegar dinheiro; depois tranco o apartamento, pego um coche de aluguel e vou passar a noite inteira nas Ilhas. Então para que o senhor vem atrás de mim?1As Ilhas do delta do Nevá, ao norte do centro de Petersburgo, com parques, casas de campo e lugares de diversão; Elágin é uma delas.

— Por enquanto vou para o prédio, e mesmo assim não à sua casa, mas à de Sófia Semiónovna, pedir desculpas por não ter ido ao enterro.

— Como queira, mas Sófia Semiónovna não está em casa. Ela levou todas as crianças à casa de uma senhora, uma senhora idosa e distinta, uma antiga conhecida minha, de longa data, e administradora de não sei que instituições para órfãos. Eu encantei essa senhora pagando-lhe por todos os três passarinhos de Katerina Ivánovna; além disso, doei ainda mais dinheiro para as instituições; por fim, contei a ela a história de Sófia Semiónovna, com todos os pormenores, sem esconder nada. O efeito foi indescritível. É por isso que Sófia Semiónovna foi chamada a se apresentar hoje mesmo, direto no hotel…, onde a minha fidalga, vinda da casa de campo, se acha instalada temporariamente.

— Não importa, mesmo assim vou passar lá.

— Como quiser, só que eu não lhe faço companhia; e para mim tanto faz! Pronto, já estamos chegando em casa. Diga-me: tenho certeza de que o senhor me olha com desconfiança porque eu mesmo fui tão delicado e até agora não o incomodei com perguntas… compreende? Isso lhe pareceu uma coisa fora do comum; aposto que foi isso! Pois então, seja delicado depois disso.

— E escute atrás das portas!

— Ah, é disso que o senhor fala! — riu Svidrigáilov. — Sim, eu me surpreenderia se, depois de tudo, o senhor deixasse isso passar sem comentário. Ha-ha! Embora eu tenha entendido alguma coisa do que o senhor naquela hora… lá… aprontou e o senhor mesmo contou a Sófia Semiónovna, mas, afinal, o que vem a ser isso? Talvez eu seja um homem completamente atrasado e já não consiga entender mais nada. Explique-me, pelo amor de Deus, meu caro! Ilumine-me com os princípios mais modernos.

— O senhor não pode ter ouvido nada, está mentindo em tudo!

— Mas não falo disso, não disso (embora, aliás, eu tenha ouvido uma coisa ou outra); não, falo de que o senhor vive aí suspirando e gemendo! O Schiller que há no senhor se perturba a cada minuto. E agora vem com essa de não escutar atrás das portas. Se é assim, vá e declare às autoridades: pois é, assim e assado, aconteceu-me um caso desses: saiu um errinho pequeno na teoria. Mas, se está convencido de que atrás das portas não se pode escutar, mas velhotas se pode descascar com o que vier à mão, para o próprio prazer, então vá embora o quanto antes para algum lugar, para a América! Fuja, meu jovem! Talvez ainda haja tempo. Estou falando sinceramente. É falta de dinheiro? Eu dou para a viagem.2Friedrich Schiller (1759–1805), poeta e dramaturgo alemão. Na Rússia da época, seu nome era sinônimo de idealismo romântico e de sentimentos elevados.

— Não estou pensando nisso de modo algum — tentou interromper Raskólnikov, com repugnância.

— Compreendo (mas não se canse: se quiser, nem precisa falar muito); compreendo que questões estão em jogo para o senhor: morais, não é? Questões do cidadão e do homem? Pois deixe-as de lado; para que elas lhe servem agora? He-he! Porque ainda é cidadão e homem? Mas, se é assim, nem devia ter se metido; não adianta pegar uma tarefa que não é a sua. Então se mate com um tiro; o quê, não tem vontade?

— O senhor, ao que parece, quer me irritar de propósito, só para que eu agora o largue…

— Mas que sujeito esquisito; ora, já chegamos, tenha a bondade, suba a escada. Veja, aqui é a entrada de Sófia Semiónovna, olhe, não há ninguém! Não acredita? Pergunte ao Kapernaúmov; ela deixa a chave com eles. Olhe, aí está ela em pessoa, madame de Kapernaúmov, hein? O quê? (ela é um pouco surda) saiu? Para onde? Pois então, ouviu agora? Ela não está e não vai estar até tarde da noite, talvez. Bem, agora vamos à minha casa. O senhor não queria vir também à minha? Pois bem, aqui estamos na minha casa. Madame Resslich não está. Essa mulher vive atarefada, mas é uma boa mulher, garanto-lhe… talvez ela lhe fosse útil, se o senhor fosse um pouco mais sensato. Pois bem, tenha a bondade de ver: tiro da escrivaninha este título de cinco por cento (veja quantos ainda me restam!), e este hoje vai para o cambista. Viu? Não tenho mais tempo a perder. A escrivaninha se tranca, o apartamento se tranca, e estamos de novo na escada. Bem, quer que aluguemos um coche? Eu vou para as Ilhas. Não gostaria de dar um passeio? Olhe, vou pegar esta caleche até a ilha Elágin, que tal? Recusa? Não aguentou? Vamos dar uma volta, não é nada. Parece que vem chuva aí, não é nada, a gente puxa a capota…

Svidrigáilov já estava sentado na caleche. Raskólnikov concluiu que as suas suspeitas, pelo menos naquele momento, eram injustas. Sem responder uma palavra, virou-se e foi andando de volta, na direção da praça Sennaia. Se tivesse se virado ao menos uma vez pelo caminho, teria tido tempo de ver Svidrigáilov, depois de rodar não mais de cem passos, pagar a caleche e ir parar ele mesmo na calçada. Mas ele já não podia ver nada e já tinha dobrado a esquina. Uma profunda repugnância o arrastava para longe de Svidrigáilov. “E eu pude, mesmo que por um instante, esperar alguma coisa desse vilão grosseiro, desse devasso voluptuoso e canalha!”, exclamou ele sem querer. É verdade que Raskólnikov pronunciou o seu juízo de modo apressado e leviano demais. Havia algo em toda a situação de Svidrigáilov que lhe dava, pelo menos, uma certa originalidade, se não mistério. Quanto à irmã, em tudo isso, Raskólnikov continuava, apesar de tudo, firmemente convencido de que Svidrigáilov não a deixaria em paz. Mas pensar e repensar em tudo aquilo estava ficando pesado e insuportável demais!

Como de costume, ao ficar sozinho, depois de uns vinte passos caiu numa profunda meditação. Ao subir na ponte, parou junto ao parapeito e pôs-se a olhar para a água. Enquanto isso, ali junto dele, estava parada Avdótia Románovna.

Ele cruzara com ela na entrada da ponte, mas passara sem reconhecê-la. Dúnietchka nunca o tinha encontrado assim na rua e ficou impressionada a ponto de se assustar. Parou e não sabia se o chamava ou não. De repente, notou Svidrigáilov, que vinha às pressas do lado da praça Sennaia.

Mas ele, ao que parecia, se aproximava de modo misterioso e cauteloso. Não subiu na ponte; ficou parado de lado, na calçada, esforçando-se com todas as forças para que Raskólnikov não o visse. Fazia tempo que tinha notado Dúnia e começou a lhe fazer sinais. Pareceu-lhe que com aqueles sinais ele lhe pedia que não chamasse o irmão e o deixasse em paz, e a chamava para junto de si.

Foi o que Dúnia fez. Contornou devagarinho o irmão e se aproximou de Svidrigáilov.

— Vamos depressa — sussurrou-lhe Svidrigáilov. — Não desejo que Rodion Románitch saiba do nosso encontro. Previno-a de que estive sentado com ele aqui perto, num botequim, onde ele mesmo me procurou, e a muito custo me livrei dele. Ele sabe, não sei como, da minha carta para a senhora e suspeita de alguma coisa. Com certeza não foi a senhora que lhe contou, foi? E, se não foi a senhora, então quem foi?

— Pronto, já dobramos a esquina — interrompeu Dúnia —, agora meu irmão não nos vê. Declaro-lhe que não vou adiante com o senhor. Diga-me tudo aqui; tudo isso pode ser dito também na rua.

— Em primeiro lugar, isso não pode ser dito na rua de jeito nenhum; em segundo lugar, a senhora precisa ouvir também Sófia Semiónovna; em terceiro, vou lhe mostrar uns documentos… Pois bem, por fim, se a senhora não concordar em entrar na minha casa, eu renuncio a qualquer explicação e vou-me embora imediatamente. Ao mesmo tempo, peço-lhe que não esqueça que um segredo muito curioso do seu adorado irmãozinho está inteiramente nas minhas mãos.

Dúnia parou, indecisa, e olhava para Svidrigáilov com um olhar penetrante.

— Do que a senhora tem medo? — observou ele, calmamente. — A cidade não é o campo. E mesmo no campo a senhora me fez mais mal do que eu à senhora, e aqui…

— Sófia Semiónovna está avisada?

— Não, não lhe disse uma palavra e nem tenho muita certeza de que ela esteja em casa agora. Aliás, provavelmente está. Hoje ela enterrou a sua parenta: não é dia de sair fazendo visitas. Por enquanto, não quero falar disso com ninguém e até me arrependo em parte de ter contado à senhora. Aqui a menor imprudência já equivale a uma denúncia. Eu moro bem aqui, neste prédio, já estamos chegando. Este é o porteiro do nosso prédio; o porteiro me conhece muito bem; olhe, ele está cumprimentando; ele vê que vou com uma dama e, claro, já teve tempo de reparar no seu rosto, e isso lhe será útil, se a senhora tem muito medo e desconfia de mim. Desculpe-me por falar de modo tão grosseiro. Eu alugo de inquilinos. Sófia Semiónovna mora parede com parede comigo, também alugando de inquilinos. O andar inteiro é ocupado por inquilinos. Do que a senhora tem medo, como uma criança? Ou eu sou mesmo tão terrível assim?

O rosto de Svidrigáilov se contorceu num sorriso condescendente; mas ele já não estava para sorrisos. O coração lhe batia forte, e a respiração se apertava no peito. Falava mais alto de propósito, para esconder a agitação que crescia nele; mas Dúnia não chegou a notar essa agitação especial; irritara-a demais a observação de que ela tinha medo dele como uma criança e de que ele lhe parecia tão terrível.

— Embora eu saiba que o senhor é um homem… sem honra, não tenho o menor medo do senhor. Vá na frente — disse ela, aparentemente calma, mas o seu rosto estava muito pálido.

Svidrigáilov parou junto ao apartamento de Sônia.

— Permita-me verificar se ela está. Não está. Que azar! Mas sei que ela pode chegar muito em breve. Se saiu, não pode ter sido senão à casa de uma senhora, por causa dos seus órfãos. A mãe deles morreu. Eu também me meti nisso e tomei providências. Se Sófia Semiónovna não voltar em dez minutos, eu a mando em pessoa à sua casa, se quiser, hoje mesmo; pois bem, aqui está o meu alojamento. Estes são os meus dois cômodos. Atrás da porta mora a minha senhoria, a senhora Resslich. Agora olhe para cá, vou lhe mostrar os meus principais documentos: do meu quarto de dormir, esta porta dá para dois cômodos completamente vazios, que estão para alugar. Aqui estão eles… isto a senhora precisa olhar com um pouco mais de atenção…

Svidrigáilov ocupava dois cômodos mobiliados, bastante espaçosos. Dúnietchka olhava em volta com desconfiança, mas não notou nada de especial nem na mobília nem na disposição dos cômodos, embora se pudesse notar uma coisa ou outra, por exemplo, que o apartamento de Svidrigáilov ficava, de algum modo, entre dois apartamentos quase desabitados. A entrada para ele não era direto do corredor, mas passando por dois cômodos da senhoria, quase vazios. E do quarto de dormir, destrancando uma porta que estava fechada à chave, Svidrigáilov mostrou a Dúnietchka um apartamento também vazio, para alugar. Dúnietchka parou na soleira, sem entender para que a convidavam a olhar, mas Svidrigáilov apressou-se a explicar:

— Olhe aqui, para este segundo cômodo grande. Repare nesta porta, está trancada à chave. Junto à porta há uma cadeira, uma única cadeira nos dois cômodos. Fui eu que a trouxe do meu apartamento, para escutar com mais conforto. Bem ali, logo atrás da porta, fica a mesa de Sófia Semiónovna; ali ela estava sentada conversando com Rodion Románitch. E eu aqui escutava, sentado na cadeira, duas noites seguidas, das duas vezes por umas duas horas, e, claro, posso ter descoberto alguma coisa, o que a senhora acha?

— O senhor escutou atrás da porta?

— Sim, escutei; agora vamos para o meu lado; aqui nem há onde sentar.

Ele levou Avdótia Románovna de volta ao seu primeiro cômodo, que lhe servia de sala, e convidou-a a sentar-se numa cadeira. Ele mesmo sentou-se na outra ponta da mesa, a pelo menos um sájen dela, mas provavelmente nos seus olhos já brilhava aquela mesma chama que um dia tanto assustara Dúnietchka. Ela estremeceu e mais uma vez olhou em volta, desconfiada. O gesto foi involuntário; ela, pelo visto, não queria mostrar desconfiança. Mas a posição isolada do apartamento de Svidrigáilov acabou por impressioná-la. Ela queria perguntar se pelo menos a senhoria dele estava em casa, mas não perguntou… por orgulho. Além disso, havia no seu coração outro sofrimento, incomparavelmente maior que o medo por si mesma. Ela se atormentava de modo insuportável.

— Aqui está a sua carta — começou ela, pondo-a sobre a mesa. — Por acaso é possível o que o senhor escreve? O senhor insinua um crime supostamente cometido por meu irmão. Insinua com clareza demais, não ouse agora se esquivar. Saiba, então, que antes do senhor eu já tinha ouvido falar dessa história tola e não acredito numa só palavra dela. É uma suspeita torpe e ridícula. Conheço a história, e sei como e por que ela foi inventada. O senhor não pode ter prova nenhuma. Prometeu provar: então fale! Mas saiba desde já que não acredito no senhor! Não acredito!…

Dúnietchka disse isso de um fôlego, às pressas, e por um instante o sangue lhe subiu ao rosto.

— Se a senhora não acreditasse, seria possível que se arriscasse a vir sozinha à minha casa? Então para que a senhora veio? Só por curiosidade?

— Não me atormente, fale, fale!

— Nem é preciso dizer que a senhora é uma moça corajosa. Juro por Deus, eu pensei que a senhora fosse pedir ao senhor Razumíkhin que a acompanhasse até aqui. Mas ele não estava nem com a senhora nem à sua volta, eu bem que olhei: é uma ousadia; quis, então, poupar Rodion Románitch. Aliás, na senhora tudo é divino… Quanto ao seu irmão, o que posso lhe dizer? A senhora mesma acabou de vê-lo. Que tal?

— Não é só nisso que o senhor se baseia, é?

— Não, não nisso, mas nas próprias palavras dele. Duas noites seguidas ele veio aqui ver Sófia Semiónovna. Eu lhe mostrei onde eles se sentavam. Ele fez a ela a sua confissão completa. Ele é um assassino. Matou a velha viúva de funcionário, a usurária, com quem ele mesmo empenhava coisas; matou também a irmã dela, uma vendedora chamada Lizavieta, que entrou por acaso durante o assassinato da irmã. Matou as duas com um machado que trouxe consigo. Matou-as para roubar, e roubou; levou dinheiro e umas coisas… Ele mesmo contou tudo isso, palavra por palavra, a Sófia Semiónovna, que é a única que sabe o segredo, mas não tomou parte no assassinato nem por palavra nem por ação; pelo contrário, ficou horrorizada, assim como a senhora agora. Fique tranquila, ela não vai entregá-lo.

— Não pode ser! — balbuciava Dúnietchka, com os lábios pálidos, sem vida; ela sufocava. — Não pode ser, não há nenhum, nem o menor motivo, nenhuma razão… É mentira! Mentira!

— Ele roubou, eis todo o motivo. Levou dinheiro e objetos. É verdade que, segundo a própria confissão dele, não se aproveitou nem do dinheiro nem dos objetos, mas os levou para algum lugar, debaixo de uma pedra, onde estão até agora. Mas isso foi porque ele não ousou se aproveitar.

— Mas é verossímil que ele pudesse furtar, roubar? Que pudesse ao menos pensar nisso? — exclamou Dúnia, e pulou da cadeira. — O senhor o conhece, já o viu, não? Por acaso ele pode ser um ladrão?

Ela parecia mesmo suplicar a Svidrigáilov; tinha esquecido todo o seu medo.

— Nisso, Avdótia Románovna, há milhares e milhões de combinações e classificações. Um ladrão rouba, mas em compensação sabe consigo mesmo que é um canalha; já eu ouvi falar de um homem nobre que assaltou o correio; vá saber, talvez ele pensasse de verdade que tinha feito uma coisa decente! É claro que eu mesmo não teria acreditado, assim como a senhora, se me contassem de fora. Mas nos meus próprios ouvidos eu acreditei. Ele também explicou a Sófia Semiónovna todos os motivos; mas ela, de início, não acreditou nos próprios ouvidos, até que por fim acreditou nos olhos, nos seus próprios olhos. Pois ele mesmo, em pessoa, contou a ela.

— Mas que… motivos!

— É uma longa história, Avdótia Románovna. Aqui há, como lhe dizer, uma espécie de teoria, a mesma coisa pela qual eu acho, por exemplo, que um crime isolado é admissível, se o objetivo principal for bom. Um único mal e cem boas ações! Também é, claro, ofensivo para um jovem de méritos e de um amor-próprio desmedido saber que bastariam, por exemplo, apenas uns três mil, e toda a carreira, todo o futuro rumo ao seu objetivo de vida tomaria outra forma, e no entanto esses três mil não existem. Acrescente a isso a irritação causada pela fome, pelo apartamento apertado, pelos trapos, pela consciência nítida da beleza da sua posição social e, ao mesmo tempo, da posição da irmã e da mãe. Mais do que tudo, a vaidade, o orgulho e a vaidade, se bem que, aliás, Deus sabe, talvez até com boas inclinações… Pois eu não o culpo, não pense isso, por favor; nem é da minha conta. Havia também ali uma teoriazinha própria, uma teoria mais ou menos, segundo a qual as pessoas se dividem, veja só, em material e em pessoas especiais, isto é, em pessoas para as quais, por sua posição elevada, a lei não foi escrita, mas que, pelo contrário, criam elas mesmas as leis para as outras pessoas, para o material, para o lixo. Nada demais, uma teoriazinha qualquer; une théorie comme une autre. Napoleão o fascinou terrivelmente, isto é, propriamente, o que o fascinou foi que muitíssimos homens geniais não faziam caso de um mal isolado e passavam por cima dele sem pensar. Parece que ele imaginou que também ele era um homem genial, isto é, esteve convencido disso por algum tempo. Ele sofreu muito e sofre ainda agora com a ideia de que soube compor a teoria, mas passar por cima, sem pensar, não é capaz, portanto não é um homem genial. Bem, e isso para um jovem com amor-próprio é humilhante, ainda mais no nosso século…3Uma teoria como outra qualquer (em francês).

— E o remorso? O senhor nega nele, então, qualquer sentimento moral? Mas por acaso ele é assim?

— Ah, Avdótia Románovna, agora tudo se turvou, isto é, aliás, nunca esteve numa ordem lá muito especial. Os russos em geral são homens largos, Avdótia Románovna, largos como a sua terra, e extremamente inclinados ao fantástico, ao desordenado; mas é uma desgraça ser largo sem uma genialidade especial. E lembra-se de quanto conversamos nesse mesmo gênero e sobre esse mesmo tema, nós dois a sós, sentados à noite no terraço do jardim, toda vez depois do jantar? A senhora até me censurava justamente por essa largueza. Quem sabe, talvez conversássemos no mesmo momento em que ele estava deitado aqui, ruminando o seu plano. Na nossa sociedade instruída não há, afinal, tradições especialmente sagradas, Avdótia Románovna: a não ser que alguém, de algum modo, componha uma para si a partir dos livros… ou tire alguma coisa das crônicas antigas. Mas esses são mais os eruditos e, sabe, no seu gênero, todos uns pascácios, de modo que isso nem fica bem para um homem do mundo. Aliás, as minhas opiniões em geral a senhora conhece; eu não acuso absolutamente ninguém. Eu mesmo sou um homem de mãos brancas, e me atenho a isso. Mas já falamos disso mais de uma vez. Tive até a felicidade de interessá-la com as minhas opiniões… A senhora está muito pálida, Avdótia Románovna!

— Conheço essa teoria dele. Li o artigo dele numa revista, sobre as pessoas a quem tudo é permitido… Quem me trouxe foi Razumíkhin…

— O senhor Razumíkhin? Um artigo do seu irmão? Numa revista? Existe um artigo assim? Eu não sabia. Isso deve ser curioso! Mas aonde a senhora vai, Avdótia Románovna?

— Quero ver Sófia Semiónovna — disse Dúnietchka com voz fraca. — Por onde se vai até ela? Talvez ela já tenha chegado; eu quero vê-la sem falta, agora mesmo. Que ela…

Avdótia Románovna não conseguiu terminar; a respiração lhe faltou, literalmente.

— Sófia Semiónovna não volta antes da noite. É o que suponho. Ela devia chegar muito em breve; se não, então só muito tarde…

— Ah, então você mente! Estou vendo… você mentiu… você mentiu o tempo todo!… Não acredito em você! Não acredito! Não acredito! — gritava Dúnietchka num verdadeiro frenesi, perdendo completamente a cabeça.

Quase desmaiada, ela caiu na cadeira que Svidrigáilov se apressou a pôr debaixo dela.

— Avdótia Románovna, o que a senhora tem, volte a si! Aqui está a água. Beba um gole…

Ele borrifou água nela. Dúnietchka estremeceu e voltou a si.

— Fez um efeito forte! — murmurava Svidrigáilov consigo mesmo, franzindo a testa. — Avdótia Románovna, acalme-se! Saiba que ele tem amigos. Nós vamos salvá-lo, tirá-lo dessa. Quer que eu o leve para o estrangeiro? Tenho dinheiro; em três dias consigo a passagem. E quanto a ele ter matado, ele ainda vai fazer muitas boas ações, de modo que tudo isso será reparado; acalme-se. Ainda pode ser um grande homem. Mas o que a senhora tem? Como está se sentindo?

— Homem mau! E ainda zomba. Deixe-me ir…

— Aonde a senhora vai? Mas aonde?

— Até ele. Onde ele está? O senhor sabe? Por que esta porta está trancada? Nós entramos por esta porta, e agora ela está trancada à chave. Quando o senhor teve tempo de trancá-la à chave?

— Não dava para gritar para todos os cômodos o que conversávamos aqui. Não estou zombando de modo algum; só cansei de falar nessa língua. Ora, aonde a senhora vai, nesse estado? Ou quer traí-lo? A senhora vai levá-lo à loucura, e ele mesmo vai se entregar. Saiba que já o vigiam, já estão na pista dele. A senhora só vai denunciá-lo. Espere: eu o vi e falei com ele agora mesmo; ainda é possível salvá-lo. Espere, sente-se, vamos pensar juntos. Foi para isso que a chamei, para conversar sobre isso a sós e pensar bem. Mas sente-se!

— De que maneira o senhor pode salvá-lo? Por acaso é possível salvá-lo?

Dúnia sentou-se. Svidrigáilov sentou-se ao lado dela.

— Tudo isso depende da senhora, da senhora, só da senhora — começou ele, com os olhos faiscando, quase num sussurro, atrapalhando-se e até sem conseguir pronunciar algumas palavras, de tanta agitação.

Dúnia, assustada, afastou-se mais dele. Ele também tremia todo.

— A senhora… uma palavra sua, e ele está salvo! Eu… eu vou salvá-lo. Tenho dinheiro e amigos. Mando-o embora imediatamente, e eu mesmo tiro um passaporte, dois passaportes. Um dele, outro meu. Tenho amigos; tenho gente de negócios… Quer? Tiro também um passaporte para a senhora… para a sua mãe… para que a senhora quer Razumíkhin? Eu também a amo… Eu a amo infinitamente. Deixe-me beijar a barra do seu vestido, deixe! deixe! Não consigo ouvir o farfalhar dele. Diga-me: faz aquilo, e eu faço! Eu faço tudo. Faço o impossível. Naquilo em que a senhora crê, eu também vou crer. Eu faço tudo, tudo! Não me olhe, não me olhe assim! Sabe que a senhora está me matando…

Ele começava até a delirar. De repente algo lhe acontecera, como se algo lhe tivesse subido de repente à cabeça. Dúnia levantou-se de um salto e correu para a porta.

— Abram! abram! — gritava ela através da porta, chamando alguém e sacudindo a porta com as mãos. — Abram! Será que não há ninguém?

Svidrigáilov levantou-se e voltou a si. Um sorriso maldoso e zombeteiro foi se espremendo devagar nos seus lábios, que ainda tremiam.

— Lá não há ninguém em casa — disse ele baixo e pausadamente —, a senhoria saiu, e é trabalho inútil gritar assim: a senhora só se agita à toa.

— Onde está a chave? Abre essa porta agora, agora, homem vil!

— Perdi a chave e não consigo encontrá-la.

— Ah! Então isto é violência! — exclamou Dúnia, ficou pálida como a morte e lançou-se para o canto, onde se protegeu depressa atrás de uma mesinha que lhe veio à mão. Não gritava; mas cravou o olhar no seu algoz e vigiava atentamente cada movimento dele. Svidrigáilov também não saía do lugar e estava de pé diante dela, na outra ponta do cômodo. Até se dominou, pelo menos por fora. Mas o seu rosto continuava pálido como antes. O sorriso zombeteiro não o abandonava.

— A senhora acaba de dizer “violência”, Avdótia Románovna. Se é violência, pode julgar por si mesma que eu tomei as minhas medidas. Sófia Semiónovna não está em casa; até os Kapernaúmov é muito longe, cinco cômodos trancados. Por fim, sou pelo menos duas vezes mais forte que a senhora e, além disso, não tenho nada a temer, porque a senhora nem depois poderá se queixar: afinal, a senhora não vai querer de fato entregar o seu irmão, vai? E ninguém vai acreditar na senhora: ora, por que motivo uma moça iria sozinha ao apartamento de um homem que vive só? De modo que, mesmo que sacrifique o irmão, nem assim provará nada: a violência é muito difícil de provar, Avdótia Románovna.

— Canalha! — sussurrou Dúnia, indignada.

— Como quiser, mas repare: eu falava apenas como hipótese. Na minha convicção pessoal, a senhora tem toda a razão: a violência é uma infâmia. Eu só disse isso para mostrar que na sua consciência não vai ficar absolutamente nada, mesmo se… mesmo se a senhora quisesse salvar o seu irmão de livre vontade, assim como lhe proponho. A senhora simplesmente, então, teria se submetido às circunstâncias, bem, à força, enfim, se não se pode passar sem essa palavra. Pense nisso; o destino do seu irmão e da sua mãe está nas suas mãos. E eu serei seu escravo… a vida inteira… vou esperar aqui…

Svidrigáilov sentou-se no sofá, a uns oito passos de Dúnia. Para ela já não havia a menor dúvida da sua resolução inabalável. Além disso, ela o conhecia…

De repente ela tirou do bolso um revólver, engatilhou-o e baixou a mão com o revólver sobre a mesinha. Svidrigáilov levantou-se de um salto.

— Ahá! Então é assim! — exclamou ele, surpreso, mas com um sorriso maldoso. — Bem, isso muda completamente o rumo das coisas! A senhora mesma me facilita extraordinariamente a tarefa, Avdótia Románovna! Mas onde foi que arranjou um revólver? Não terá sido o senhor Razumíkhin? Ora! Mas o revólver é meu! Um velho conhecido! E como eu o procurei naquela época!… As nossas aulas de tiro no campo, que tive a honra de lhe dar, não foram em vão, afinal.

— Não é seu o revólver, é de Marfa Petrovna, que você matou, seu vilão! Você não tinha nada de seu na casa dela. Peguei-o quando comecei a suspeitar do que você era capaz. Ouse dar um passo que seja, e juro que eu mato você!

Dúnia estava em frenesi. Segurava o revólver pronto para atirar.

— Bem, e o irmão? Pergunto por curiosidade — perguntou Svidrigáilov, ainda de pé no mesmo lugar.

— Pode denunciar, se quiser! Nem um passo! Não saia daí! Eu atiro! Você envenenou a sua mulher, eu sei, você mesmo é um assassino!…

— E a senhora está firmemente convencida de que eu envenenei Marfa Petrovna?

— Você! Você mesmo me insinuou; você me falou de veneno… eu sei, você foi buscá-lo… você já tinha tudo pronto… Foi você, com certeza… canalha!

— Mesmo que isso fosse verdade, teria sido por sua causa… de todo modo, você é que teria sido a causa.

— Você mente! Eu sempre odiei você, sempre…

— Ora, ora, Avdótia Románovna! Pelo visto esqueceu como, no calor da propaganda, já se inclinava e se derretia… Eu vi pelos olhinhos; lembra-se, aquela noite, ao luar, e o rouxinol ainda cantava?

— Você mente! (a fúria faiscou nos olhos de Dúnia) mente, caluniador!

— Minto? Bem, talvez eu minta. Menti. Às mulheres não se deve lembrar essas coisinhas. (Ele sorriu.) Sei que você vai atirar, bichinho bonito. Pois atire!

Dúnia ergueu o revólver e, de uma palidez mortal, com o lábio inferior embranquecido e trêmulo, com os grandes olhos negros faiscando como fogo, olhava para ele, decidida, medindo-o e esperando o primeiro movimento da parte dele. Ele nunca a tinha visto tão bela. O fogo que faiscou nos olhos dela no instante em que erguia o revólver como que o queimou, e o seu coração se apertou de dor. Ele deu um passo, e o tiro soou. A bala resvalou pelos seus cabelos e bateu na parede, atrás dele. Ele parou e riu baixinho:

— A vespa picou! Mira direto na cabeça… Que é isso? Sangue! — Ele tirou o lenço para enxugar o sangue que escorria num fio fininho pela sua têmpora direita; provavelmente a bala tinha raspado de leve a pele do crânio. Dúnia baixou o revólver e olhava para Svidrigáilov não exatamente com medo, mas numa espécie de perplexidade selvagem. Era como se ela mesma já não entendesse o que tinha feito e o que estava acontecendo!

— Pois bem, errou! Atire de novo, estou esperando — disse baixinho Svidrigáilov, ainda sorrindo, mas de um jeito sombrio. — Desse jeito eu vou ter tempo de agarrá-la antes que a senhora engatilhe!

Dúnietchka estremeceu, engatilhou depressa e ergueu de novo o revólver.

— Deixe-me! — disse ela em desespero. — Juro, vou atirar de novo… Eu… vou matar!…

— Pois bem… a três passos não há como não matar. Mas, se não matar… então… — Os olhos dele faiscaram, e ele deu mais dois passos.

Dúnietchka disparou: negou fogo!

— Carregou sem cuidado. Não faz mal! A senhora ainda tem uma espoleta aí. Ajeite, eu espero.

Ele estava de pé diante dela, a dois passos, esperava e olhava para ela com uma determinação selvagem, com um olhar pesado, inflamado de paixão. Dúnia entendeu que ele preferiria morrer a deixá-la ir. “E… e agora, claro, ela vai matá-lo, a dois passos!…”

De repente ela atirou o revólver para longe.

— Jogou fora! — disse Svidrigáilov, surpreso, e respirou fundo. Algo como que se desprendeu de uma vez do seu coração, e talvez não apenas o peso do medo da morte; aliás, dificilmente ele o sentia naquele instante. Era a libertação de outro sentimento, mais doloroso e sombrio, que ele mesmo não saberia definir em toda a sua força.

Ele se aproximou de Dúnia e, com o braço, envolveu-lhe de leve a cintura. Ela não resistiu, mas, tremendo toda como uma folha, olhava para ele com olhos suplicantes. Ele quis dizer alguma coisa, mas apenas os seus lábios se contorciam, e não conseguia pronunciar nada.

— Me deixa ir! — disse Dúnia, suplicando. Svidrigáilov estremeceu: esse você já tinha sido dito de um jeito diferente do de antes.

— Então você não me ama? — perguntou ele baixinho.

Dúnia fez que não com a cabeça.

— E… não pode?… Nunca? — sussurrou ele, desesperado.

— Nunca! — sussurrou Dúnia.

Passou-se um instante de uma luta terrível e muda na alma de Svidrigáilov. Ele olhava para ela com um olhar indizível. De repente retirou o braço, virou-se, afastou-se depressa para a janela e ficou parado diante da janela.

Passou-se mais um instante.

— Aqui está a chave! (Ele a tirou do bolso esquerdo do sobretudo e a pôs sobre a mesa, atrás de si, sem olhar e sem se voltar para Dúnia.) Pegue; vá embora depressa!…

Ele olhava obstinadamente pela janela.

Dúnia aproximou-se da mesa para pegar a chave.

— Depressa! Depressa! — repetiu Svidrigáilov, ainda sem se mexer e sem se voltar. Mas nesse “depressa”, pelo visto, soou uma nota terrível.

Dúnia a entendeu, agarrou a chave, correu para a porta, destrancou-a depressa e escapou do cômodo. Um minuto depois, como louca, fora de si, saiu correndo para a margem do canal e correu na direção da ponte…

Svidrigáilov ficou ainda uns três minutos junto à janela; por fim, virou-se devagar, olhou em volta e passou de leve a palma da mão pela testa. Um sorriso estranho contorceu o seu rosto, um sorriso lastimável, triste, fraco, um sorriso de desespero. O sangue, que já secava, sujou-lhe a palma; ele olhou para o sangue com raiva; depois molhou uma toalha e lavou a têmpora. O revólver, jogado por Dúnia e que tinha ido parar junto à porta, de repente lhe caiu sob os olhos. Ele o apanhou e o examinou. Era um revólver pequeno, de bolso, de três tiros, de modelo antigo; nele restavam ainda duas cargas e uma espoleta. Dava para atirar uma vez. Ele pensou um pouco, enfiou o revólver no bolso, pegou o chapéu e saiu.