Crime e CastigoParte quatro · Capítulo V

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Crime e Castigo · Parte quatro

Capítulo V

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Quando, na manhã seguinte, às onze em ponto, Raskólnikov entrou no prédio da… delegacia, na seção do juiz de instrução, e pediu que o anunciassem a Porfíri Petróvitch, chegou a se espantar com a demora em recebê-lo: passaram-se pelo menos dez minutos até que o chamassem. E, pelos seus cálculos, deveriam, ao que parecia, lançar-se sobre ele imediatamente. No entanto, ele estava ali, na sala de espera, e passavam por ele, iam e vinham, pessoas que, pelo visto, não tinham nada a ver com ele. Na sala seguinte, parecida com uma repartição, alguns escreventes estavam sentados escrevendo, e era evidente que nenhum deles fazia sequer ideia de quem ou do que era Raskólnikov. Com um olhar inquieto e desconfiado, ele espreitava ao redor, procurando: não haveria perto dele ao menos algum guarda de escolta, algum olhar misterioso encarregado de vigiá-lo, para que não fosse a parte alguma? Mas não havia nada disso: via apenas rostos de repartição, ocupados com miudezas, depois mais algumas outras pessoas, e ninguém precisava dele para nada: podia ir agora mesmo para onde bem entendesse. Firmava-se nele cada vez mais a ideia de que, se aquele homem enigmático da véspera, aquele fantasma surgido de debaixo da terra, de fato soubesse de tudo e tivesse visto tudo, será que deixariam que ele, Raskólnikov, ficasse agora ali parado, esperando tranquilamente? E será que o esperariam ali até as onze, até que ele mesmo achasse por bem aparecer? Resultava que ou aquele homem ainda não tinha denunciado nada, ou… ou simplesmente também não sabia de nada e com os próprios olhos não tinha visto nada (e como poderia ter visto?), e, portanto, tudo aquilo da véspera, que acontecera com ele, Raskólnikov, tinha sido outra vez um fantasma, exagerado por sua imaginação irritada e doente. Essa conjectura começara a se firmar nele já na véspera, durante os momentos de maior aflição e desespero. Repensando tudo isso agora e preparando-se para uma nova batalha, sentiu de repente que tremia, e chegou a ferver de indignação ao pensar que tremia de medo diante do odioso Porfíri Petróvitch. O mais terrível para ele era encontrar-se de novo com aquele homem: odiava-o sem medida, infinitamente, e tinha até medo de se denunciar de algum modo por esse ódio. E tão forte era sua indignação que fez cessar o tremor na mesma hora; preparou-se para entrar com um ar frio e insolente e prometeu a si mesmo calar o máximo possível, observar e escutar com atenção e, pelo menos desta vez, custasse o que custasse, vencer sua natureza doentiamente irritadiça. Nesse exato momento chamaram-no à sala de Porfíri Petróvitch.

Verificou-se que, naquele momento, Porfíri Petróvitch estava sozinho em seu gabinete. O gabinete era uma sala nem grande nem pequena; havia nela uma grande escrivaninha diante de um sofá forrado de oleado, um bureau, um armário no canto e algumas cadeiras, tudo mobília do governo, de madeira amarela envernizada. No canto, na parede dos fundos, ou, melhor dizendo, no tabique, havia uma porta trancada: lá adiante, atrás do tabique, deviam ficar, portanto, mais alguns cômodos. Assim que Raskólnikov entrou, Porfíri Petróvitch encostou imediatamente a porta pela qual ele tinha entrado, e os dois ficaram a sós. Recebeu sua visita, ao que parecia, com o ar mais alegre e afável, e só alguns minutos depois Raskólnikov, por certos sinais, notou nele uma espécie de embaraço, como se de repente o tivessem desconcertado ou o tivessem surpreendido em algo muito íntimo e secreto.

— Ah, meu prezadíssimo! Eis o senhor… nas nossas paragens… — começou Porfíri, estendendo-lhe as duas mãos. — Ora, sente-se, meu caro! Ou talvez o senhor não goste que o chamem de prezadíssimo e… de meu caro, assim, tout court? Não leve a mal a familiaridade, por favor… Aqui, senhor, no sofazinho.1Sem cerimônia (em francês).

Raskólnikov sentou-se, sem tirar os olhos dele.

“Nas nossas paragens”, as desculpas pela familiaridade, a palavrinha francesa “tout court” etc., etc., tudo isso eram sinais característicos. “Mas ele me estendeu as duas mãos e não me deu nenhuma, retirou-as a tempo”, passou-lhe pela cabeça, com desconfiança. Os dois se vigiavam, mas, mal os olhares se encontravam, ambos, com a rapidez de um raio, desviavam-nos um do outro.

— Eu lhe trouxe este papelzinho… sobre o relógio… aqui está, senhor. Está escrito direito ou é para copiar de novo?

— O quê? O papelzinho? Sim, sim… não se preocupe, está exatamente certo, senhor — disse Porfíri Petróvitch, como se tivesse pressa de ir a algum lugar, e só depois de dizer isso pegou o papel e o examinou. — Sim, está certinho, senhor. Não é preciso mais nada — confirmou ele, com a mesma pressa nas palavras, e pôs o papel sobre a mesa. Depois, um minuto mais tarde, já falando de outra coisa, pegou-o de novo da mesa e passou-o para o seu bureau.

— O senhor, parece, disse ontem que gostaria de me interrogar… formalmente… sobre as minhas relações com essa… mulher assassinada? — recomeçou Raskólnikov. “Ora, por que fui pôr esse parece?”, passou-lhe pela cabeça como um raio. “Ora, por que me preocupo tanto por ter posto esse parece?”, logo lhe passou outro pensamento, como um raio.

E sentiu de repente que sua desconfiança, só pelo contato com Porfíri, por apenas duas palavras, por apenas dois olhares, já crescera num instante até proporções monstruosas… e que isso era terrivelmente perigoso: os nervos se irritam, a agitação aumenta. “Desgraça! Desgraça!… Vou deixar escapar outra vez.”

— Sim, sim, sim! Não se preocupe! Há tempo, há tempo, senhor — murmurava Porfíri Petróvitch, andando de um lado para o outro perto da mesa, mas de um jeito meio sem propósito, como que se lançando ora para a janela, ora para o bureau, ora de novo para a mesa, ora evitando o olhar desconfiado de Raskólnikov, ora parando de repente no lugar e encarando-o diretamente. Parecia extraordinariamente estranha, nesses momentos, sua figurinha pequena, gorducha e redonda, como uma bolinha que rolasse para todos os lados e logo ricocheteasse em todas as paredes e cantos.

— Dá tempo, senhor, dá tempo, senhor!… E o senhor fuma? Tem cigarro? Aqui, senhor, um cigarrinho, senhor… — continuou ele, oferecendo um cigarro à visita. — Sabe, eu o recebo aqui, mas o meu apartamento fica logo ali, atrás do tabique… apartamento do governo, senhor, mas no momento estou morando num particular, por um tempo. Precisaram fazer umas reformazinhas aqui. Agora está quase pronto… um apartamento do governo, sabe, é uma coisa ótima, hein? O que o senhor acha?

— Sim, uma coisa ótima — respondeu Raskólnikov, olhando para ele quase com zombaria.

— Uma coisa ótima, uma coisa ótima… — repetia Porfíri Petróvitch, como se de repente tivesse se posto a pensar em algo completamente diferente. — Sim! Uma coisa ótima! — quase gritou por fim, erguendo de repente os olhos para Raskólnikov e parando a dois passos dele. Essa repetição tolinha e reiterada de que um apartamento do governo era uma coisa ótima contrastava demais, pela sua banalidade, com o olhar sério, pensativo e enigmático que ele agora cravava na visita.

Mas isso fez ferver ainda mais a raiva de Raskólnikov, e ele já não conseguiu de modo algum conter um desafio zombeteiro e bastante imprudente.

— E sabe de uma coisa? — perguntou ele de repente, olhando-o quase com insolência e como que sentindo prazer com a própria insolência. — Existe, parece, uma regra jurídica assim, um procedimento jurídico desses, para todos os investigadores possíveis: começar primeiro de longe, com ninharias, ou até com algo sério, mas inteiramente alheio ao assunto, para, por assim dizer, encorajar ou, melhor dizendo, distrair o interrogado, adormecer sua cautela e depois, de repente, da maneira mais inesperada, atordoá-lo com um golpe no alto da cabeça, com alguma pergunta das mais fatais e perigosas; não é assim? Isso, parece, é mencionado religiosamente até hoje em todos os regulamentos e instruções, não?

— Sim, sim… mas então o senhor acha que eu, com o apartamento do governo, quis o senhor… daquele jeito… hein? — E, dizendo isso, Porfíri Petróvitch apertou os olhos e piscou; algo alegre e astuto passou-lhe pelo rosto, as rugazinhas da testa se alisaram, os olhinhos se estreitaram, os traços do rosto se esticaram, e ele de repente desatou num riso nervoso e prolongado, agitando-se e balançando o corpo todo e olhando diretamente nos olhos de Raskólnikov. Este também ia rir, forçando-se um pouco; mas quando Porfíri, vendo que ele também ria, rebentou numa gargalhada tal que quase ficou roxo, a repulsa de Raskólnikov de repente ultrapassou toda a cautela: parou de rir, franziu a testa e ficou olhando para Porfíri longamente e com ódio, sem tirar os olhos dele, durante todo aquele riso comprido e como que propositalmente interminável. A imprudência, aliás, era evidente dos dois lados: resultava que Porfíri Petróvitch parecia rir na cara da sua visita, que recebia esse riso com ódio, e se embaraçava muito pouco com essa circunstância. Isto último foi muito significativo para Raskólnikov: compreendeu que, certamente, Porfíri Petróvitch também não estava nada embaraçado pouco antes e que, pelo contrário, ele mesmo, Raskólnikov, talvez tivesse caído numa armadilha; que ali havia claramente alguma coisa que ele não sabia, algum objetivo; que talvez tudo já estivesse preparado e agora, neste minuto, fosse se revelar e desabar sobre ele…

Foi imediatamente direto ao assunto: levantou-se e pegou o boné.

— Porfíri Petróvitch — começou ele, com decisão, mas com uma irritação bastante forte —, o senhor manifestou ontem o desejo de que eu viesse para uns tais interrogatórios. (Ele carregou especialmente na palavra: interrogatórios.) Eu vim, e, se o senhor precisa de alguma coisa, pergunte; caso contrário, permita que eu me retire. Não tenho tempo, tenho um compromisso… Preciso ir ao enterro daquele mesmo funcionário atropelado pelos cavalos, de quem o senhor… também sabe… — acrescentou, zangando-se na mesma hora com esse acréscimo e, por isso, irritando-se ainda mais na mesma hora. — Estou farto de tudo isso, senhor, está ouvindo?, e há muito tempo… em parte foi por isso que adoeci… numa palavra — quase gritou ele, sentindo que a frase sobre a doença vinha ainda mais fora de propósito —, numa palavra: tenha a bondade de me interrogar ou de me deixar ir, agora mesmo… e, se for para interrogar, então só na devida forma, senhor! De outro modo não permitirei; e por isso, por enquanto, adeus, já que agora nós dois não temos nada a fazer juntos.

— Meu Deus! Mas o que é isso! Mas perguntar-lhe o quê? — cacarejou de repente Porfíri Petróvitch, mudando imediatamente de tom e de ar e parando de rir num instante. — Mas não se preocupe, por favor — agitava-se ele, ora lançando-se de novo para todos os lados, ora tratando de repente de fazer Raskólnikov se sentar —, há tempo, há tempo, senhor, e tudo isso não passa de ninharias, senhor! Eu, pelo contrário, estou tão contente que o senhor finalmente tenha vindo nos ver… Eu o recebo como visita. E por essa risada maldita, meu caro Rodion Románovitch, desculpe-me. Rodion Románovitch? É esse, parece, o seu patronímico?… Sou um homem nervoso, senhor, o senhor me fez rir muito com a agudeza da sua observação; às vezes, palavra, fico sacudindo feito borracha, e assim por meia hora… Sou de riso fácil, senhor. Com a minha compleição, tenho até medo de uma paralisia. Mas sente-se, o que é isso?… Por favor, meu caro, senão vou pensar que o senhor se zangou…

Raskólnikov calava, escutava e observava, ainda de testa franzida, com raiva. Sentou-se, aliás, mas sem largar o boné.

— Vou lhe dizer uma coisa a meu respeito, meu caro Rodion Románovitch, por assim dizer para explicar o meu caráter — continuou Porfíri Petróvitch, azafamando-se pela sala e, como antes, como que evitando encontrar os olhos da sua visita. — Eu, sabe, sou solteiro, um homem assim pouco mundano e desconhecido, e, além disso, um homem acabado, um homem enrijecido, senhor, já passei do ponto e… e… e o senhor já reparou, Rodion Románovitch, que entre nós, quer dizer, aqui na Rússia, senhor, e sobretudo nos nossos círculos petersburguenses, quando dois homens inteligentes, que ainda não se conhecem muito bem, mas que, por assim dizer, se respeitam mutuamente, como nós dois agora, senhor, se encontram, passam meia hora inteira sem conseguir de jeito nenhum achar um assunto para conversar: ficam enrijecidos um diante do outro, sentados, constrangidos um com o outro. Todo mundo tem assunto para conversar: as damas, por exemplo… as pessoas da sociedade, por exemplo, da alta-roda, sempre têm assunto para conversa, c'est de rigueur, mas as pessoas de tipo médio, como nós, são todas acanhadas e caladas… as que pensam, quero dizer. De onde vem isso, meu caro, senhor? Será que não temos interesses sociais, senhor, ou é que somos honestos demais e não queremos enganar uns aos outros? Não sei, senhor. Hein? O que o senhor acha? Mas ponha de lado o bonezinho, senhor, parece que vai sair agora mesmo, palavra, dá até constrangimento olhar… Eu, pelo contrário, estou tão contente, senhor…2Assim manda o costume (em francês).

Raskólnikov pôs o boné de lado, continuando calado e escutando, sério e de testa franzida, a tagarelice vazia e confusa de Porfíri. “Mas o que é isso, será que ele quer mesmo distrair a minha atenção com essa sua tagarelice tola?”

— Café não lhe ofereço, senhor, não é o lugar; mas por que não passar uns cinco minutinhos com um amigo, para distrair? — despejava Porfíri sem parar. — E sabe, senhor, todas essas obrigações do serviço… mas não se ofenda, meu caro, por eu ficar andando assim, senhor, para lá e para cá; desculpe, meu caro, tenho muito medo de ofendê-lo, mas o exercício me é simplesmente indispensável, senhor. Passo o tempo todo sentado e fico tão contente de andar uns cinco minutos… hemorroidas, senhor… vivo pensando em me tratar com ginástica; dizem que lá conselheiros de Estado, conselheiros de Estado efetivos e até conselheiros secretos pulam corda de bom grado, senhor; veja só como anda a ciência no nosso século, senhor… pois é, senhor… Mas quanto a essas obrigações daqui, interrogatórios e toda essa formalística… o senhor mesmo, meu caro, acaba de se dignar mencionar os interrogatórios, senhor… pois, sabe, de fato, meu caro Rodion Románovitch, esses interrogatórios às vezes desnorteiam mais o próprio interrogador do que o interrogado… Foi o que o senhor, meu caro, com toda a justeza e espírito, se dignou observar agora há pouco. (Raskólnikov não tinha observado nada parecido.) A gente se enrola, senhor! Palavra, a gente se enrola! E é sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, feito tambor! Aí vem a reforma, e pelo menos no nome vão nos rebatizar, he-he-he! E quanto aos nossos procedimentos jurídicos, como o senhor se dignou dizer com tanto espírito, estou completa e inteiramente de acordo com o senhor, senhor. Ora, diga-me: quem, de todos os réus, mesmo do mujique mais grosseiro, não sabe que primeiro vão adormecê-lo com perguntas alheias ao caso (segundo a sua feliz expressão) e depois, de repente, atordoá-lo bem no alto da cabeça, com o lado cego do machado, senhor, he-he-he! bem no alto da cabeça, segundo a sua feliz comparação, he-he! Então o senhor pensou mesmo que eu, com o apartamento, quisesse o senhor… he-he! Que homem irônico o senhor é. Pois bem, não vou mais! Ah, sim, a propósito, uma palavrinha puxa outra, um pensamento chama outro: o senhor também se dignou mencionar há pouco a forma, sabe, a respeito do interrogatoriozinho, senhor… Mas que forma, que nada! A forma, sabe, em muitos casos, é bobagem, senhor. Às vezes, só de conversar como amigos, sai até mais proveitoso. A forma nunca foge, quanto a isso permita-me tranquilizá-lo, senhor; e, afinal, o que é a forma, no fundo, eu lhe pergunto? Não se pode tolher o investigador com a forma a cada passo. O trabalho do investigador é, por assim dizer, uma arte livre, a seu modo, senhor, ou coisa parecida… he-he-he!…

Porfíri Petróvitch tomou fôlego por um minutinho. Despejava sem se cansar, ora frases sem sentido e vazias, ora soltava de repente umas palavrinhas enigmáticas e logo voltava a cair no disparate. Pela sala já quase corria, movendo cada vez mais depressa as perninhas gordas, sempre olhando para o chão, com a mão direita enfiada atrás das costas e agitando sem parar a esquerda, fazendo vários gestos, cada um espantosamente desencontrado das suas palavras. Raskólnikov notou de repente que, correndo pela sala, ele parecia ter parado umas duas vezes junto à porta, por um instante, como se escutasse… “Será que ele está esperando alguma coisa?”

— E nisso o senhor tem, de fato, toda a razão, senhor — retomou Porfíri, olhando alegremente, com extraordinária candura, para Raskólnikov (o que o fez estremecer e se preparar num instante) —, de fato tem razão, senhor, em ter zombado com tanto espírito das formas jurídicas, he-he! Esses nossos procedimentos (alguns, é claro) de profundidade psicológica são extremamente ridículos, senhor, e talvez até inúteis, senhor, quando se fica muito tolhido pela forma, senhor. Sim, senhor… de novo falo da forma: digamos que eu reconheça, ou, melhor dizendo, suspeite que este, aquele ou aquele outro seja, por assim dizer, o criminoso, senhor, em algum casozinho que me foi confiado… O senhor está se preparando para jurista, não é, Rodion Románovitch?

— Sim, estava me preparando…

— Pois então, aqui está, por assim dizer, um exemplozinho para o futuro; quer dizer, não pense que eu me atreveria a lhe dar lições: veja só que artigos o senhor publica sobre crimes! Não, senhor, mas assim, a título de fato, eu me atrevo a apresentar um exemplozinho. Pois bem, suponhamos que eu considere este, aquele ou aquele outro como criminoso: ora, por que, pergunto eu, vou incomodá-lo antes da hora, ainda que tenha provas contra ele, senhor? Um, por exemplo, sou até obrigado a prender o quanto antes, mas outro, veja, tem outro caráter, palavra, senhor; então por que não deixá-lo passear pela cidade, he-he, senhor! Não, estou vendo que o senhor não entende bem, então vou lhe descrever mais claramente, senhor: se eu o puser na cadeia, por exemplo, cedo demais, posso estar lhe dando, por assim dizer, um apoio moral, he-he! O senhor está rindo? (Raskólnikov nem pensava em rir: estava sentado com os lábios apertados, sem tirar o olhar inflamado dos olhos de Porfíri Petróvitch.) E no entanto é assim mesmo, senhor, sobretudo com certos sujeitos, porque as pessoas são muito variadas, senhor, e acima de tudo está a prática, senhor. O senhor agora se digna dizer: provas; mas, suponhamos, são provas, senhor, só que as provas, meu caro, na maior parte das vezes têm duas pontas, senhor, e eu sou investigador, portanto um homem fraco, confesso: gostaria de apresentar a investigação, por assim dizer, com clareza matemática, gostaria de conseguir uma provazinha que se parecesse com dois e dois são quatro! Que se parecesse com uma demonstração direta e indiscutível! Mas, se eu o meter na cadeia fora de hora, ainda que tenha certeza de que foi ele, posso estar eu mesmo tirando de mim os meios para desmascará-lo depois, e por quê? Porque eu lhe darei, por assim dizer, uma situação definida, por assim dizer, eu o definirei e tranquilizarei psicologicamente, e aí ele vai se fechar na sua concha, longe de mim: vai entender, enfim, que é um preso. Dizem que em Sebastopol, logo depois do Alma, a gente inteligente tinha um medo danado de que o inimigo atacasse a qualquer momento com toda a força e tomasse Sebastopol de uma vez; mas, quando viram que o inimigo preferia um cerco regular e estava abrindo a primeira trincheira, nossa, dizem, como ficou contente e tranquila a gente inteligente, senhor: quer dizer que a coisa ia se arrastar pelo menos uns dois meses, porque quando é que iam tomar a cidade com um cerco regular! Está rindo de novo, não acredita de novo? Bem, é claro que o senhor também tem razão. Tem razão, senhor, tem razão, senhor! Tudo isso são casos particulares, concordo com o senhor; o caso apresentado é, de fato, particular, senhor! Mas veja o que se deve observar aqui, excelentíssimo Rodion Románovitch: o caso geral, senhor, aquele mesmo para o qual foram talhadas todas as formas e regras jurídicas, a partir do qual elas foram calculadas e escritas nos livros, simplesmente não existe, senhor, pela simples razão de que todo caso, todo, digamos, um crime, assim que acontece na realidade, logo se transforma num caso inteiramente particular, senhor; e às vezes de que tipo: que não se parece com nada do que houve antes, senhor. Às vezes acontecem casos muito cômicos desse gênero, senhor. Pois se eu deixar certo senhor completamente sozinho: não o prendo, não o incomodo, mas que ele saiba a cada hora e a cada minuto, ou ao menos desconfie, que eu sei tudo, tintim por tintim, e que dia e noite estou de olho nele, vigiando-o sem descanso, e que ele esteja conscientemente sob a minha eterna suspeita e medo, então, juro por Deus, ele vai ficar tonto, palavra, senhor, vai vir sozinho e talvez ainda faça alguma coisa que já vai parecer dois e dois são quatro, que vai ter, por assim dizer, um aspecto matemático; e isso é agradável, senhor. Isso pode acontecer até com um mujique bronco, e com gente como nós, homens inteligentes modernos, ainda por cima desenvolvidos numa certa direção, então nem se fala! Porque, meu querido, é coisa muito importante entender em que direção o homem se desenvolveu. E os nervos, senhor, os nervos, senhor, esses o senhor esqueceu completamente, senhor! Hoje em dia é tudo doente, ruim e irritado!… E bile, quanta bile há neles todos! Pois isso, eu lhe digo, dependendo do caso, é uma espécie de mina, senhor! E que preocupação tenho eu de que ele ande pela cidade sem amarras! Que ande, que passeie por enquanto, que passeie; eu, mesmo assim, sei que ele é a minha vitimazinha e que não vai fugir de mim para lugar nenhum! E para onde ele fugiria, he-he? Para o estrangeiro, talvez? Para o estrangeiro foge um polonês, mas não ele, ainda mais que eu o vigio e já tomei medidas. Vai fugir para o interior da pátria, talvez? Mas lá vivem mujiques, verdadeiros, rústicos, russos; um homem desenvolvido à moderna prefere a prisão a viver com estrangeiros como os nossos mujiquezinhos, he-he! Mas tudo isso é bobagem e aparência. Que história é essa de fugir! Isso é formalidade; o principal não é isso; não é só por não ter para onde fugir que ele não vai fugir de mim: ele não vai fugir de mim psicologicamente, he-he! Que expressãozinha, hein? Ele não vai fugir de mim por uma lei da natureza, ainda que tenha para onde fugir. Já viu uma borboleta diante de uma vela? Pois então, ele vai ficar sempre, sempre rodando em volta de mim, como em volta da vela; a liberdade vai perder a graça, ele vai começar a pensar demais, a se enredar, vai se enredar todo, como numa rede, vai se afligir até a morte!… E mais: ele mesmo vai me preparar alguma coisinha matemática, do tipo dois e dois, contanto que eu lhe dê um intervalo mais comprido… E vai ficar sempre, sempre dando voltas em torno de mim, estreitando cada vez mais o raio, e… zás! Vai voar direto para a minha boca, e eu o engulo, senhor, e isso é muito agradável, senhor, he-he-he! O senhor não acredita?3O rio Alma, na Crimeia, onde os russos foram derrotados por ingleses e franceses em 1854; em seguida veio o longo cerco da fortaleza de Sebastopol, na Guerra da Crimeia.

Raskólnikov não respondeu; estava sentado, pálido e imóvel, examinando o rosto de Porfíri com a mesma tensão de antes.

“Bela lição!”, pensava ele, gelando. “Isto já nem é mais gato e rato, como ontem. E não é à toa que ele me exibe a sua força e… me sopra as respostas: é inteligente demais para isso! Aqui o objetivo é outro, mas qual? Ei, bobagem, meu irmão, você está me assustando e usando de astúcia! Você não tem provas, e o homem de ontem não existe! Você simplesmente quer me desnortear, quer me irritar antes da hora e, nesse estado, me esmagar, só que está mentindo, vai quebrar a cara, vai quebrar a cara! Mas por que, por que me soprar tanto assim?… Está contando com os meus nervos doentes, é?… Não, meu irmão, você mente, vai quebrar a cara, ainda que tenha preparado alguma coisa… Pois bem, vamos ver o que foi que você preparou aí.”

E ele se conteve com todas as forças, preparando-se para uma catástrofe terrível e desconhecida. Por momentos tinha vontade de se lançar sobre Porfíri e estrangulá-lo ali mesmo. Já ao entrar ali temia essa raiva. Sentia que os lábios estavam ressecados, que o coração batia forte, que uma espuma tinha secado nos lábios. Mas mesmo assim decidiu calar e não dizer uma palavra antes da hora. Compreendeu que essa era a melhor tática na sua situação, porque não só ele não deixaria escapar nada, como, pelo contrário, irritaria com o silêncio o próprio inimigo, e talvez fosse este quem acabaria deixando escapar algo para ele. Pelo menos, era o que esperava.

— Não, estou vendo que o senhor não acredita, senhor, acha que eu estou lhe pregando umas brincadeirinhas inocentes — retomou Porfíri, cada vez mais alegre, dando risadinhas de prazer sem parar e começando de novo a rodar pela sala. — Bem, é claro que o senhor tem razão, senhor; até a minha figura Deus fez de tal jeito que só desperta ideias cômicas nos outros; um bufão, senhor; mas vou lhe dizer uma coisa, e repito de novo, senhor: o senhor, meu caro Rodion Románovitch, desculpe este velho, ainda é um homem jovem, senhor, por assim dizer, na primeira juventude, e por isso dá mais valor que a tudo à inteligência humana, a exemplo de toda a juventude. A agudeza brincalhona do espírito e os argumentos abstratos da razão seduzem o senhor, senhor. E é tal e qual o antigo Hofkriegsrat austríaco, por exemplo, até onde eu posso julgar dos acontecimentos militares: no papel eles derrotaram Napoleão e até o fizeram prisioneiro, e lá, no seu gabinete, calcularam e arranjaram tudo com o maior engenho, e, quando se vê, o general Mack se rende com todo o seu exército, he-he-he! Estou vendo, estou vendo, meu caro Rodion Románovitch, que o senhor está rindo de mim, por eu, um homem civil, viver catando exemplozinhos da história militar. Mas o que fazer, é uma fraqueza, adoro as coisas militares, e como gosto de ler todos esses boletins de guerra… decididamente errei de carreira. Eu devia ter servido no exército, senhor, palavra, senhor. Napoleão talvez eu não tivesse virado, mas major eu seria, senhor, he-he-he! Pois bem, senhor, agora vou lhe dizer, meu querido, toda a verdade em detalhe, a respeito, quer dizer, daquele caso particular: a realidade e a natureza, meu senhor, são coisas importantes, e como às vezes derrubam o cálculo mais perspicaz! Ei, escute este velho, falo sério, Rodion Románovitch (ao dizer isso, Porfíri Petróvitch, que mal tinha trinta e cinco anos, de fato pareceu envelhecer de repente: até a voz mudou, e ele todo como que se encurvou) — além disso, sou um homem franco, senhor… Sou ou não sou um homem franco? O que acha? Parece que sou inteiramente: coisas assim eu lhe comunico de graça, e ainda por cima não exijo recompensa, he-he! Pois bem, senhor, continuo, senhor: o engenho, a meu ver, é uma coisa magnífica, senhor; é, por assim dizer, o ornamento da natureza e o consolo da vida, e que truques, parece, ele é capaz de armar, a tal ponto que às vezes, parece, como é que um pobre investigadorzinho vai adivinhar, ainda mais se ele próprio se deixa levar pela fantasia, como sempre acontece, porque também é gente, senhor! Mas a natureza socorre o pobre investigadorzinho, senhor, aí é que está o problema! E nisso não pensa a juventude arrebatada pelo engenho, “que passa por cima de todos os obstáculos” (como o senhor se dignou dizer da maneira mais espirituosa e astuta). Ele, digamos, vai mentir, quer dizer, o homem, senhor, o caso particular, senhor, o incognito, senhor, e vai mentir esplendidamente, da maneira mais astuta; aí, parece, seria o triunfo, é só desfrutar os frutos do próprio engenho, e ele… zás! bem no ponto mais interessante, mais escandaloso, cai desmaiado. Vá lá, é a doença, às vezes também faz abafado nas salas, mas mesmo assim, senhor! Mesmo assim deu o que pensar! Mentiu de forma incomparável, mas com a natureza não soube contar. Aí é que está a perfídia, senhor! Outra vez, levado pela vivacidade do seu engenho, começa a fazer de bobo quem desconfia dele, empalidece como que de propósito, como que de brincadeira, mas empalidece natural demais, parece demais com a verdade, e pronto, de novo deu o que pensar! Ainda que engane da primeira vez, durante a noite o outro vai refletir, se não for nenhum bobo. E é assim a cada passo, senhor! E tem mais: ele mesmo começa a se adiantar, a se meter onde não é chamado, a falar sem parar justamente do que, ao contrário, devia calar, começa a soltar várias alegorias, he-he! Vem ele mesmo e começa a perguntar: por que é que demoram tanto para me prender? he-he-he! E isso pode acontecer com o homem mais espirituoso, com um psicólogo e literato, senhor! A natureza é um espelho, um espelho, senhor, o mais transparente, senhor! Olhe nele e admire, é isso, senhor! Mas por que o senhor ficou tão pálido, Rodion Románovitch, não está abafado, não quer que eu abra a janelinha?4Hofkriegsrat: o Conselho de Guerra da corte austríaca, em Viena. Em 1805, o general austríaco Mack se rendeu a Napoleão com todo o seu exército na cidade de Ulm.

— Oh, não se preocupe, por favor — exclamou Raskólnikov, e de repente soltou uma gargalhada —, por favor, não se preocupe!

Porfíri parou diante dele, esperou e de repente também soltou uma gargalhada, em seguida a ele. Raskólnikov levantou-se do sofá, interrompendo bruscamente o seu riso, que era o de um verdadeiro ataque.

— Porfíri Petróvitch! — disse ele, alto e claro, embora mal se sustentasse nas pernas trêmulas. — Vejo enfim com clareza que o senhor me suspeita positivamente do assassinato daquela velha e da irmã dela, Lizavieta. De minha parte, declaro-lhe que estou farto de tudo isso há muito tempo. Se acha que tem o direito de me processar legalmente, processe; de me prender, prenda. Mas rir na minha cara e me atormentar eu não permito.

De repente seus lábios tremeram, os olhos se acenderam de fúria, e a voz, até então contida, ressoou.

— Não permito, senhor! — gritou ele de repente, batendo com toda a força o punho na mesa. — Está ouvindo, Porfíri Petróvitch? Não permito!

— Ah, meu Deus, mas o que é isso de novo! — exclamou Porfíri Petróvitch, ao que parecia completamente assustado. — Meu caro! Rodion Románovitch! Meu querido! Meu bom homem! Mas o que o senhor tem?

— Não permito! — tentou gritar outra vez Raskólnikov.

— Meu caro, mais baixo! Vão ouvir, vão vir aqui! E o que vamos dizer a eles então, pense bem! — sussurrou horrorizado Porfíri Petróvitch, aproximando o rosto bem perto do rosto de Raskólnikov.

— Não permito, não permito! — repetiu Raskólnikov maquinalmente, mas também, de repente, num completo sussurro.

Porfíri virou-se rapidamente e correu a abrir a janela.

— Deixar entrar ar, ar fresco! E o senhor devia beber uma aguinha, meu querido, isso é um ataque, senhor! — E ele já se lançava para a porta, para mandar trazer água, mas ali mesmo, no canto, por sorte, havia uma jarra com água.

— Meu caro, beba — sussurrava ele, correndo para ele com a jarra —, talvez ajude… — O susto e a própria solicitude de Porfíri Petróvitch eram tão naturais que Raskólnikov se calou e se pôs a examiná-lo com uma curiosidade selvagem. Água, porém, não aceitou.

— Rodion Románovitch! Meu queridinho! Mas assim o senhor vai acabar enlouquecendo, garanto-lhe, ai, ai! A-ah! Beba! Beba pelo menos um pouquinho!

Conseguiu, afinal, fazê-lo pegar o copo de água. Raskólnikov ia levá-lo maquinalmente aos lábios, mas, caindo em si, pousou-o na mesa com repulsa.

— Pois é, senhor, tivemos um ataquezinho, senhor! Desse jeito, meu querido, o senhor vai trazer de volta a doença de antes — cacarejou Porfíri Petróvitch com amistosa solicitude, aliás ainda com um ar meio desnorteado. — Meu Deus! Como é que se pode não se cuidar assim? Veja, Dmítri Prokófitch também veio me ver ontem: concordo, concordo, senhor, eu tenho um gênio mordaz, ruim, mas veja o que ele foi tirar disso!… Meu Deus! Veio ontem, depois do senhor, estávamos jantando, ele falou, falou, e eu só abri os braços; bem, pensei… ah, meu Deus! Foi da parte do senhor que ele veio? Mas sente-se, meu caro, sente-se, pelo amor de Cristo!

— Não, não foi da minha parte! Mas eu sabia que ele tinha ido vê-lo e para quê — respondeu Raskólnikov bruscamente.

— Sabia?

— Sabia. E daí?

— Daí, meu caro Rodion Románovitch, que eu conheço façanhas suas maiores do que essa; estou informado de tudo, senhor! Pois eu sei como o senhor foi alugar o apartamento, já de noite, quando escureceu, e começou a tocar a campainha, e perguntou pelo sangue, e deixou desnorteados os operários e os porteiros. Eu entendo o seu estado de espírito, o daquela hora… mas mesmo assim, desse jeito o senhor vai simplesmente enlouquecer, juro por Deus, senhor! Vai ficar tonto! A indignação ferve forte demais no senhor, senhor, uma indignação nobre, senhor, pelas ofensas recebidas, primeiro do destino, depois dos comissários de bairro, e então o senhor se agita para lá e para cá, para, por assim dizer, obrigar todo mundo a falar o quanto antes e acabar com tudo de uma vez, porque está farto dessas tolices e de todas essas suspeitas. Não é assim? Adivinhei o estado de espírito, senhor?… Só que desse jeito o senhor vai deixar tonto não só a si mesmo, mas também o meu Razumíkhin; ele é uma pessoa boa demais para isso, o senhor mesmo sabe. No senhor é doença, nele é virtude, e a doença acaba pegando nele… Eu lhe conto, meu caro, quando o senhor se acalmar… mas sente-se, meu caro, pelo amor de Cristo! Por favor, descanse, o senhor está sem cor nenhuma; sente-se de uma vez.

Raskólnikov sentou-se; o tremor ia passando, e um calor lhe tomava o corpo todo. Em profundo assombro, escutava tenso Porfíri Petróvitch, que, assustado, cuidava dele como amigo. Mas não acreditava numa única palavra dele, embora sentisse uma estranha inclinação a acreditar. As palavras inesperadas de Porfíri sobre o apartamento o deixaram completamente atônito. “Como assim, então ele sabe do apartamento?”, pensou de repente, “e ele mesmo vem me contar!”

— Sim, senhor, houve um caso quase exatamente assim, psicológico, na nossa prática judicial, senhor, um caso doentio, senhor — continuou Porfíri, falando depressa. — Um homem também se acusou falsamente de um assassinato, senhor, e de que jeito se acusou: armou toda uma alucinação, apresentou fatos, contou as circunstâncias, confundiu, desnorteou todos e cada um, e por quê? Ele mesmo, de forma totalmente involuntária, tinha sido em parte a causa do assassinato, mas só em parte, e, quando soube que tinha dado ocasião aos assassinos, ficou angustiado, aturdido, começou a ter visões, perdeu de vez o juízo e acabou convencendo a si mesmo de que o assassino era ele! Mas o Senado Governante finalmente examinou o caso, e o infeliz foi absolvido e entregue aos cuidados de um asilo. Graças ao Senado Governante! Ai, ai, ai, ai! Mas que é isso, meu caro? Desse jeito pode-se pegar uma febre, quando dá essas vontades de irritar os próprios nervos, de ir de noite tocar campainhas e perguntar por sangue! Essa psicologia eu estudei toda na prática, senhor. Desse jeito às vezes o homem sente vontade de saltar de uma janela ou de um campanário, e é uma sensação tão tentadora. As campainhas também, senhor… Doença, Rodion Románovitch, doença! O senhor começou a descuidar demais da sua doença, senhor. Devia se consultar com um médico experiente, porque esse gordo que o senhor tem aí!… O senhor está delirando! Tudo isso o senhor faz simplesmente em delírio!…5No Império Russo, o Senado funcionava também como a mais alta instância judicial do país.

Por um instante, tudo começou a girar em volta de Raskólnikov.

“Será possível, será possível”, passava-lhe pela cabeça, “que ele esteja mentindo também agora? Impossível, impossível!”, repelia ele esse pensamento, sentindo de antemão a que grau de fúria e raiva ele poderia levá-lo, sentindo que de fúria poderia enlouquecer.

— Não foi em delírio, foi acordado! — gritou ele, esforçando todas as forças da razão para penetrar no jogo de Porfíri. — Acordado, acordado! Está ouvindo?

— Sim, entendo e ouço, senhor! O senhor também ontem dizia que não foi em delírio, até insistia especialmente que não foi em delírio! Tudo o que o senhor pode dizer, eu entendo, senhor! Ah!… Mas escute, Rodion Románovitch, meu benfeitor, veja pelo menos esta circunstância. Se o senhor fosse de fato, de verdade, culpado, ou estivesse de algum modo envolvido nesse caso maldito, ora, por favor, iria o senhor mesmo insistir que não fez tudo isso em delírio, mas, ao contrário, em plena consciência? E ainda insistir especialmente, com uma teimosia assim, especial, insistir… ora, poderia ser, poderia ser isso, por favor? Pois, a meu ver, seria exatamente o contrário. Se o senhor sentisse alguma culpa, deveria justamente insistir: que foi, sem dúvida nenhuma, em delírio! Não é? Não é assim?

Algo de astuto se fez ouvir nessa pergunta. Raskólnikov recuou até o encosto do sofá, afastando-se de Porfíri, que se inclinava sobre ele, e, calado, fixamente, perplexo, ficou a examiná-lo.

— Ou então a respeito do senhor Razumíkhin, quer dizer, se ele veio ontem falar por conta própria ou por instigação sua? O senhor devia justamente dizer que ele veio por conta própria, e esconder que foi por instigação sua! E veja, o senhor não esconde! O senhor insiste justamente em que foi por instigação sua!

Raskólnikov nunca tinha insistido nisso. Um frio lhe percorreu a espinha.

— O senhor só mente — disse ele devagar e debilmente, com os lábios torcidos num sorriso doentio. — O senhor de novo quer me mostrar que conhece todo o meu jogo, que conhece de antemão todas as minhas respostas — dizia ele, quase sentindo ele mesmo que já não pesava as palavras como devia —, quer me assustar… ou simplesmente está rindo de mim…

Continuava a olhá-lo fixamente enquanto dizia isso, e de repente uma raiva sem limites brilhou outra vez nos seus olhos.

— O senhor só mente! — gritou ele. — O senhor sabe muito bem que a melhor saída para um criminoso é, tanto quanto possível, não esconder aquilo que dá para não esconder. Não acredito no senhor!

— Mas que enguia o senhor é! — deu risadinhas Porfíri. — Com o senhor, meu caro, não há quem possa; alguma monomania se instalou no senhor. Então não acredita em mim? Pois eu lhe digo que já acredita, já acreditou um quarto de archin, e eu vou fazer o senhor acreditar o archin inteiro, porque gosto sinceramente do senhor e lhe desejo o bem de coração.

Os lábios de Raskólnikov tremeram.

— Sim, senhor, desejo, senhor, digo-lhe em definitivo, senhor — continuou ele, pegando de leve, amistosamente, o braço de Raskólnikov, um pouco acima do cotovelo —, digo em definitivo, senhor: cuide da sua doença. Além disso, agora a sua família veio vê-lo; lembre-se dela. O senhor devia dar-lhes sossego e carinho, e só as assusta…

— O que o senhor tem com isso? Como é que o senhor sabe? Por que se interessa tanto? Então o senhor me vigia e quer me mostrar isso?

— Meu caro! Mas foi pelo senhor, pelo próprio senhor que eu soube de tudo! O senhor nem percebe que, na sua agitação, vai contando tudo de antemão, a mim e aos outros. Pelo senhor Razumíkhin, Dmítri Prokófitch, também fiquei sabendo ontem de muitos detalhes interessantes. Não, senhor, o senhor me interrompeu, mas eu digo que, por causa da sua desconfiança, com todo o seu espírito, o senhor até perdeu a visão sensata das coisas. Veja, por exemplo, ainda no mesmo assunto, o das campainhas: uma preciosidade dessas, um fato desses (um fato inteiro, senhor!), eu lhe entreguei assim, de bandeja, eu, o investigador! E o senhor não vê nada nisso? Se eu suspeitasse do senhor nem que fosse um pouquinho, era assim que eu devia agir? Pelo contrário, eu deveria primeiro adormecer as suas suspeitas e não deixar transparecer que já estou informado desse fato; distraí-lo, assim, para o lado oposto e, de repente, como com o lado cego do machado no alto da cabeça (segundo a sua própria expressão), atordoá-lo: “E o que, meu senhor, se dignou fazer no apartamento da assassinada às dez da noite, se não quase às onze? E por que tocou a campainha? E por que perguntou pelo sangue? E por que desnorteou os porteiros e os chamou para ir à delegacia, ao tenente de polícia?” Assim é que eu deveria agir, se tivesse uma gotinha de suspeita contra o senhor. Deveria tomar o seu depoimento em toda a forma, fazer uma busca, e talvez até prendê-lo… Logo, não alimento suspeitas contra o senhor, já que agi de outro modo! Mas o senhor perdeu a visão sensata e não vê nada, repito, senhor!

Raskólnikov estremeceu com o corpo todo, de modo que Porfíri Petróvitch notou isso claramente demais.

— O senhor só mente! — gritou ele. — Não sei quais são os seus objetivos, mas o senhor só mente… Há pouco o senhor não falava nesse sentido, e eu não posso me enganar… O senhor mente!

— Eu minto? — retomou Porfíri, aparentemente se exaltando, mas conservando o ar mais alegre e zombeteiro e, ao que parecia, sem se inquietar nem um pouco com a opinião que o senhor Raskólnikov tinha dele. — Eu minto?… E como foi que eu agi com o senhor há pouco (eu, o investigador!), eu mesmo lhe soprando e entregando todos os meios de defesa, eu mesmo lhe arranjando toda essa psicologia: “Doença, delírio, estava ofendido; melancolia e os comissários de bairro”, e todo o resto? Hein? He-he-he! Embora, aliás, diga-se de passagem, todos esses meios psicológicos de defesa, desculpas e evasivas, sejam extremamente inconsistentes, e tenham duas pontas: “Doença, delírio, sonhos, foi uma visão, não me lembro”, tudo isso está certo, senhor, mas por que, meu caro, na doença e no delírio aparecem justamente sonhos desses, e não outros? Podiam ser outros também, senhor, não é? He-he-he-he!

Raskólnikov olhou para ele com orgulho e desprezo.

— Numa palavra — disse ele, com insistência e em voz alta, levantando-se e empurrando de leve Porfíri —, numa palavra, quero saber: o senhor me considera definitivamente livre de suspeitas, ou não? Fale, Porfíri Petróvitch, fale de modo positivo e definitivo, e depressa, agora mesmo!

— Ê, que trabalheira! Mas que trabalheira o senhor me dá! — exclamou Porfíri, com um ar completamente alegre, astuto e nem um pouco inquieto. — E para que o senhor quer saber, para que quer saber tanto, se ainda nem começaram a incomodá-lo? O senhor é como uma criança: quer porque quer pegar o fogo com a mão! E por que se preocupa tanto? Por que o senhor mesmo vem se oferecer a nós desse jeito, por que motivo? Hein? He-he-he!

— Repito ao senhor — gritou Raskólnikov, furioso — que não posso mais suportar…

— O quê, senhor? A incerteza? — interrompeu Porfíri.

— Não me alfinete! Eu não quero!… Digo-lhe que não quero!… Não posso e não quero!… Está ouvindo? Está ouvindo? — gritou ele, batendo outra vez com o punho na mesa.

— Mas fale baixo, mais baixo! Vão ouvir! Estou avisando a sério: cuide-se. Não estou brincando, senhor! — disse Porfíri num sussurro, mas desta vez no seu rosto já não havia a expressão de antes, assustada e bonachona feito a de uma comadre; pelo contrário, agora ele simplesmente ordenava, severo, de sobrancelhas franzidas e como que rompendo de uma vez todos os segredos e ambiguidades. Mas isso foi só por um instante. Raskólnikov, por um momento desconcertado, de repente caiu num verdadeiro frenesi; mas, coisa estranha: de novo obedeceu à ordem de falar mais baixo, embora estivesse no mais forte paroxismo de fúria.

— Não vou deixar que me atormentem! — pôs-se ele de repente a sussurrar como antes, reconhecendo instantaneamente em si, com dor e com ódio, que não podia deixar de se submeter à ordem, e ficando ainda mais furioso com esse pensamento. — Prenda-me, reviste-me, mas tenha a bondade de agir na devida forma, e não de brincar comigo, senhor! Não se atreva…

— Mas não se preocupe com a forma — interrompeu Porfíri, com o mesmo sorriso astuto de antes e como que até se deliciando em contemplar Raskólnikov. — Eu o convidei agora, meu caro, de modo caseiro, assim, inteiramente amigável!

— Não quero a sua amizade e cuspo nela! Está ouvindo? E veja só: pego o boné e vou embora. E então, o que você me diz agora, se pretende me prender?

Agarrou o boné e foi para a porta.

— E a surpresinha, não quer ver? — deu risadinhas Porfíri, agarrando-o de novo um pouco acima do cotovelo e detendo-o junto à porta. Pelo visto, ficava cada vez mais alegre e brincalhão, o que tirava Raskólnikov definitivamente do sério.

— Que surpresinha? O que é isso? — perguntou ele, parando de repente e olhando assustado para Porfíri.

— Uma surpresinha, senhor, está aqui, atrás da porta, he-he-he! (Ele apontou com o dedo a porta trancada no tabique, que levava ao seu apartamento do governo.) — Até tranquei com chave, para que não fuja.

— O que é isso? Onde? O quê?… — Raskólnikov chegou a ir até a porta e quis abri-la, mas estava trancada.

— Trancada, senhor, aqui está a chave!

E de fato mostrou-lhe a chave, tirando-a do bolso.

— Você mente em tudo! — berrou Raskólnikov, já sem se conter. — Mente, polichinelo maldito! — E se lançou sobre Porfíri, que recuava para a porta, mas sem se intimidar nem um pouco.

— Eu entendo tudo, tudo! — disse, avançando de um salto para ele. — Você mente e me provoca para que eu me denuncie…

— Mas já não dá para se denunciar mais do que isso, meu caro Rodion Románitch. O senhor está fora de si. Não grite, senão eu chamo gente, senhor!

— Mentira, não vai acontecer nada! Chame gente! Você sabia que eu estou doente e quis me irritar, até a fúria, para que eu me denunciasse, esse é o seu objetivo! Não, apresente os fatos! Eu entendi tudo! Você não tem fatos, só tem suposições baratas, insignificantes, de Zamiótov!… Você conhecia o meu caráter, queria me levar ao frenesi e depois me atordoar de repente com padres e deputados… Está esperando por eles? Hein? Esperando o quê? Onde? Apresente!6No processo penal da época, anterior à reforma judicial de 1864, padres tomavam juramentos, e “deputados”, representantes da classe social ou da repartição do acusado, assistiam à investigação e aos interrogatórios.

— Ora, que deputados que nada, meu caro! Cada coisa que passa pela cabeça de um homem! Desse jeito nem é possível agir pela forma, como o senhor diz; o senhor não conhece o ofício, meu querido… Mas a forma não foge, senhor, o senhor vai ver!… — murmurava Porfíri, escutando junto à porta.

De fato, nesse momento, bem junto à porta, na outra sala, ouviu-se algo como um barulho.

— Ah, estão vindo! — gritou Raskólnikov. — Você mandou chamá-los!… Você estava esperando por eles! Você calculou… Pois traga todos aqui: deputados, testemunhas, o que quiser… traga! Estou pronto! Pronto!…

Mas aí aconteceu um incidente estranho, algo tão inesperado, no curso normal das coisas, que, é claro, nem Raskólnikov nem Porfíri Petróvitch podiam contar com semelhante desfecho.