Crime e CastigoParte dois · Capítulo II

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Crime e Castigo · Parte dois

Capítulo II

24 min de narração · 5 notas

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“E se já houve uma busca? E se eu os encontrar justamente lá em casa?”

Mas eis o quarto dele. Nada e ninguém; ninguém tinha entrado. Nem Nastássia tinha mexido em nada. Mas, meu Deus! Como ele pôde deixar, ainda há pouco, todas aquelas coisas naquele buraco?

Correu para o canto, enfiou a mão por baixo do papel de parede e começou a tirar os objetos e a encher os bolsos com eles. Ao todo eram oito peças: duas caixinhas com brincos ou algo do gênero — ele não olhou direito; depois, quatro estojos pequenos de marroquim. Uma correntinha estava simplesmente embrulhada em papel de jornal. Mais alguma coisa em papel de jornal, parece que uma condecoração…

Distribuiu tudo por vários bolsos, no sobretudo e no bolso direito da calça, o que tinha sobrado, procurando deixar tudo o menos visível possível. Pegou também a bolsa, junto com os objetos. Depois saiu do quarto, desta vez deixando a porta até escancarada.

Andava depressa e com firmeza e, embora sentisse que estava todo moído, não tinha perdido a consciência. Tinha medo de ser perseguido, tinha medo de que dali a meia hora, a um quarto de hora, talvez já saísse uma ordem para vigiá-lo; portanto, custasse o que custasse, era preciso sumir com os rastros enquanto era tempo. Era preciso dar conta disso enquanto ainda lhe restasse um pouco de força e um mínimo de raciocínio… Mas para onde ir?

Isso já estava decidido havia muito: “Jogar tudo no canal, os rastros vão para a água, e assunto encerrado.” Assim ele resolvera ainda de noite, no delírio, naqueles momentos em que, ele se lembrava disso, várias vezes fizera menção de se levantar e sair: “depressa, depressa, e jogar tudo fora”. Mas jogar fora acabou sendo muito difícil.

Já fazia meia hora, talvez mais, que vagava pelo cais do canal Ekaterininski, e várias vezes tinha olhado para as escadinhas que desciam até a água, por onde passava. Mas nem dava para pensar em cumprir a intenção: ou havia balsas paradas bem junto às escadinhas, com lavadeiras lavando roupa em cima delas, ou havia barcos atracados, e por toda parte a gente simplesmente fervilhava; além disso, de qualquer ponto dos cais, de todos os lados, podiam ver, reparar: é suspeito um homem descer de propósito, parar e jogar alguma coisa na água. E se os estojos não afundassem e saíssem boiando? E claro que seria assim. Todo mundo veria. Mesmo sem isso, todos já ficam olhando, ao cruzar com ele, examinam-no de cima a baixo, como se não tivessem outra coisa a fazer senão cuidar dele. “Por que será, ou quem sabe é impressão minha”, pensava ele.

Por fim, veio-lhe à cabeça que talvez fosse melhor ir a algum ponto do Nevá. Lá havia menos gente, chamaria menos atenção, e de todo modo seria mais cômodo, e o principal: ficava mais longe daqui. E de repente ele se espantou: como pudera passar meia hora inteira vagando na angústia e na aflição, e ainda por cima em lugares perigosos, sem ter pensado nisso antes! E desperdiçara meia hora inteira num ato insensato só porque assim tinha ficado decidido uma vez, em sonho, no delírio! Ele estava ficando extremamente distraído e esquecido, e sabia disso. Era preciso, sem falta, se apressar!

Tomou o rumo do Nevá pela avenida V⁠—; mas no caminho lhe veio de repente mais uma ideia: “Para que o Nevá? Para que a água? Não seria melhor ir para algum lugar bem longe, nem que fosse de novo para as Ilhas, e lá, num canto deserto, num bosque, debaixo de um arbusto, enterrar tudo isso e, quem sabe, marcar a árvore?” E embora sentisse que não estava em condições de pesar tudo com clareza e bom senso naquele momento, a ideia lhe pareceu infalível.

Mas também às Ilhas não lhe estava destinado chegar; aconteceu outra coisa: ao sair da avenida V⁠— para a praça, viu de repente, à esquerda, a entrada de um pátio cercado de paredes completamente cegas. À direita, logo depois do portão, estendia-se pátio adentro a parede cega, sem caiação, do prédio vizinho de quatro andares. À esquerda, paralela à parede cega e também logo a partir do portão, corria uma cerca de madeira, por uns vinte passos pátio adentro, e depois dobrava para a esquerda. Era um lugar fechado e cercado, onde havia uns materiais amontoados. Mais adiante, no fundo do pátio, despontava por trás da cerca a quina de um galpão de pedra, baixo e enegrecido de fuligem, evidentemente parte de alguma oficina. Ali devia funcionar algum estabelecimento, de carruagens ou de serralheria, ou algo assim; por toda parte, quase desde o portão, negrejava muito pó de carvão. “Eis um lugar para largar tudo e ir embora!”, pensou ele de repente. Sem notar ninguém no pátio, passou pelo portão e logo viu, bem junto ao portão, uma calha presa à cerca (como se costuma instalar nos prédios onde há muitos operários de fábrica, trabalhadores de cooperativa, cocheiros e assim por diante), e acima da calha, ali mesmo na cerca, estava escrita a giz a gracinha de sempre nesses casos: “Aki é proibidu ficá parado”. Quer dizer, já era uma vantagem: nenhuma suspeita por ter entrado e parado ali. “Aqui mesmo, despejar tudo de uma vez num montinho em algum canto e ir embora!”

Olhou em volta mais uma vez e já tinha até enfiado a mão no bolso quando, de repente, bem junto ao muro externo, entre o portão e a calha, onde todo o espaço tinha um archin de largura, notou uma pedra grande, bruta, pesando talvez, mais ou menos, um pud e meio, encostada direto no muro de pedra que dava para a rua. Do outro lado desse muro ficava a rua, a calçada; dava para ouvir os passantes indo e vindo, que ali nunca eram poucos; mas, atrás do portão, ninguém podia vê-lo, a não ser que alguém entrasse vindo da rua, o que, aliás, podia muito bem acontecer; por isso era preciso se apressar.1Pud: antiga medida russa de peso, de cerca de dezesseis quilos; um pud e meio são quase vinte e cinco quilos.

Inclinou-se sobre a pedra, agarrou-a com força pelo topo, com as duas mãos, reuniu todas as forças e virou a pedra. Embaixo dela havia se formado uma pequena cavidade; no mesmo instante começou a jogar ali tudo o que tinha no bolso. A bolsa ficou bem em cima, e ainda assim sobrava espaço na cavidade. Depois agarrou de novo a pedra, com uma só virada a pôs de volta como estava antes, e ela se encaixou direitinho no seu lugar de antes; só parecia um pouco, um tiquinho mais alta. Mas ele puxou um pouco de terra e calcou as beiradas com o pé. Não se notava nada.

Então saiu e seguiu em direção à praça. De novo uma alegria forte, quase insuportável, como pouco antes na delegacia, apoderou-se dele por um instante. “Os rastros estão enterrados! E a quem, a quem pode passar pela cabeça procurar debaixo daquela pedra? Ela talvez esteja ali desde a construção do prédio, e vai ficar ali outro tanto. E mesmo que achassem: quem vai desconfiar de mim? Está tudo acabado! Não há provas!” — e riu. Sim, ele se lembrou depois de que riu um riso nervoso, miúdo, sem som, demorado, e continuou rindo, o tempo todo, enquanto atravessava a praça. Mas quando pisou no bulevar K⁠—, onde anteontem tinha encontrado aquela menina, o riso de repente passou. Outros pensamentos foram se metendo na cabeça dele. Pareceu-lhe de repente, também, que agora lhe seria horrivelmente repugnante passar diante daquele banco onde, daquela vez, depois que a menina se foi, ele ficara sentado pensando, e que seria horrivelmente penoso também encontrar de novo aquele bigodudo a quem dera a moeda de vinte copeques: “Que o diabo o carregue!”

Caminhava olhando ao redor, distraído e com raiva. Todos os seus pensamentos giravam agora em torno de um certo ponto principal — e ele mesmo sentia que aquele era de fato o ponto principal e que agora, justamente agora, tinha ficado sozinho, frente a frente com esse ponto principal — e que isso acontecia, na verdade, pela primeira vez nesses dois meses.

“Ah, que o diabo carregue tudo isso!”, pensou ele de repente, num acesso de raiva inesgotável. “Pois bem, começou, então começou; para o diabo com ela e com a vida nova! Meu Deus, como isso é estúpido!… E quanto eu menti e me rebaixei hoje! Com que nojo eu bajulei e fiquei de gracinhas, ainda há pouco, com aquele asqueroso do Iliá Petróvitch! Aliás, isso também é bobagem! Estou me lixando para todos eles, e também para ter bajulado e feito gracinhas! Não é nada disso! Não é nada disso!…”

De repente parou; uma pergunta nova, totalmente inesperada e extremamente simples, de uma só vez o desnorteou e o deixou amargamente espantado:

“Se toda essa coisa foi mesmo feita de forma consciente, e não como um idiota, se você tinha mesmo um objetivo definido e firme, então como é que até agora nem sequer olhou dentro da bolsa e não sabe o que lhe coube, aquilo por que aceitou todos os tormentos e se lançou conscientemente a um ato tão vil, sórdido e baixo? Pois você queria agora mesmo jogá-la na água, a bolsa, junto com todos os objetos, que você também ainda nem viu… Como é que pode?”

Sim, é isso; é tudo isso. Aliás, ele já sabia disso antes, e não era de modo nenhum uma pergunta nova para ele; e quando, de noite, ficou decidido jogar na água, ficou decidido sem a menor hesitação nem objeção, mas assim, como se assim tivesse de ser, como se de outro modo fosse impossível… Sim, ele sabia de tudo isso e se lembrava de tudo; e era bem possível que isso já tivesse ficado decidido ontem, naquele exato minuto em que estava sentado diante do baú, tirando dele os estojos… Pois é isso!…

“É porque estou muito doente”, concluiu ele por fim, sombrio. “Eu mesmo me esgotei e me atormentei, e já nem sei o que estou fazendo… Ontem, e anteontem, e todo esse tempo me atormentei… Vou sarar e… não vou mais me atormentar… E se eu nunca mais sarar? Meu Deus! Como estou farto de tudo isso!…” Caminhava sem parar. Tinha uma vontade terrível de se distrair de algum jeito, mas não sabia o que fazer nem o que empreender. Uma sensação nova, invencível, apoderava-se dele cada vez mais, quase a cada minuto: era uma espécie de repulsa infinita, quase física, por tudo o que encontrava pelo caminho e por tudo o que o cercava, uma repulsa obstinada, raivosa, cheia de ódio. Tinha nojo de todos com quem cruzava — nojo dos rostos, do andar, dos gestos deles. Seria capaz de cuspir em alguém, e até de morder, ao que parecia, se alguém lhe dirigisse a palavra…

Parou de repente ao chegar ao cais do Pequeno Nevá, na ilha Vassílievski, perto da ponte. “É aqui que ele mora, neste prédio”, pensou. “Mas o que é isso, parece que vim por conta própria à casa do Razumíkhin! De novo a mesma história daquela vez… Mas é bem curioso: eu vim de propósito ou simplesmente vinha andando e acabei entrando aqui? Tanto faz; eu disse… anteontem… que iria à casa dele no dia seguinte àquilo; pois bem, então vou! Como se agora eu já não pudesse passar lá…”

Subiu ao quinto andar, à casa de Razumíkhin.

Ele estava em casa, no seu cubículo, e naquele momento trabalhava, escrevia, e ele mesmo abriu a porta. Fazia uns quatro meses que não se viam. Razumíkhin estava sentado num roupão gasto até virar farrapo, de chinelos sem meia, descabelado, com a barba por fazer e sem ter se lavado. No rosto dele estampou-se a surpresa.

— Que é isso? — gritou ele, examinando dos pés à cabeça o colega que entrava; depois ficou um pouco calado e deu um assobio.

— A coisa está tão feia assim? Ora, meu velho, você deixou no chinelo até gente como nós — acrescentou, olhando os farrapos de Raskólnikov. — Mas sente-se, deve estar cansado! — E quando o outro desabou no sofá turco de oleado, que era ainda pior do que o dele, Razumíkhin percebeu de repente que a visita estava doente.

— Mas você está doente de verdade, sabia? — Começou a tomar-lhe o pulso; Raskólnikov puxou a mão de um tranco.

— Não precisa — disse ele —, eu vim… é o seguinte: não tenho aula particular nenhuma… eu queria… aliás, não preciso de aula nenhuma…

— Sabe de uma coisa? Você está delirando! — observou Razumíkhin, que o examinava fixamente.

— Não, não estou delirando… — Raskólnikov se levantou do sofá. Ao subir à casa de Razumíkhin, não tinha pensado que, sendo assim, teria de ficar frente a frente com ele. Agora, porém, num instante, compreendeu, já pela experiência, que o que estava menos disposto a fazer, naquele momento, era ficar frente a frente com quem quer que fosse, no mundo inteiro. Todo o seu fel subiu. Por pouco não se engasgou de raiva de si mesmo, assim que cruzou a soleira de Razumíkhin.

— Adeus! — disse ele de repente, e foi para a porta.

— Mas espere, espere, seu esquisitão!

— Não precisa!… — repetiu o outro, de novo soltando a mão com um tranco.

— Então para que diabos você veio, se é assim? Ficou maluco, é? Isso é… quase ofensivo. Assim eu não deixo você ir.

— Pois então, escute: vim aqui porque, fora você, não conheço ninguém que pudesse ajudar… a começar… porque você é o mais bondoso de todos eles, quer dizer, o mais inteligente, e sabe avaliar as coisas… Mas agora vejo que não preciso de nada, ouviu, de nada mesmo… dos serviços e da compaixão de ninguém… Eu mesmo… sozinho… E chega! Deixem-me em paz!

— Mas espere um minutinho, seu limpa-chaminés! Completamente maluco! Por mim, faça como quiser. Veja só: aula eu também não tenho, e estou pouco ligando; mas tem no mercado de pulgas um livreiro, o Kheruvímov, e ele, no seu gênero, já vale por uma aula. Hoje eu não o trocaria nem por cinco aulas em casa de comerciante. Ele faz umas ediçõezinhas e lança uns livrecos de ciências naturais — e como vendem! Só os títulos já valem o preço! Você sempre afirmou que eu sou burro; juro por Deus, meu velho, existe gente mais burra que eu! Agora ele também deu de ter uma linha ideológica; ele mesmo não entende patavina, mas eu, claro, dou corda. Aqui tem duas folhas e pouco de texto alemão — na minha opinião, o charlatanismo mais idiota: numa palavra, examina-se se a mulher é ou não é um ser humano. E, naturalmente, demonstra-se solenemente que é. O Kheruvímov está preparando isso para a questão feminina; eu traduzo; ele vai esticar essas duas folhas e meia para umas seis, a gente inventa um título pomposíssimo de meia página e põe à venda a cinquenta copeques. Vai colar! Pela tradução me pagam seis rublos de prata por folha, quer dizer, pelo todo vou receber uns quinze rublos, e seis eu já peguei adiantado. Terminando isso, vamos começar a traduzir sobre as baleias; depois, da segunda parte das “Confessions”, também marcaram uns mexericos chatíssimos, que vamos traduzir; alguém disse ao Kheruvímov que Rousseau, a seu modo, é uma espécie de Radíchtchev. Eu, claro, não contradigo, que se dane! Então, quer traduzir a segunda folha de “Será a mulher um ser humano?”? Se quiser, pegue agora o texto, pegue penas, papel — tudo por conta do patrão — e pegue três rublos: como eu recebi adiantado pela tradução inteira, pela primeira e pela segunda folha, então três rublos cabem direitinho na sua parte. E quando terminar a folha, ganha mais três rublos de prata. E mais uma coisa, por favor: não pense que é algum favor da minha parte. Pelo contrário, assim que você entrou, eu já calculei em que você vai me ser útil. Primeiro, sou fraco em ortografia, e segundo, em alemão às vezes sou simplesmente uma negação, de modo que invento quase tudo por minha conta e só me consolo pensando que assim fica ainda melhor. Mas, vai saber, talvez não fique melhor, e sim pior… Aceita ou não?2Folha de impressão: unidade usada para medir e pagar textos, equivalente a dezesseis páginas de livro.3As Confissões, autobiografia do filósofo Jean-Jacques Rousseau, publicadas depois da morte do autor em duas partes, em 1782 e 1789.4Aleksandr Radíchtchev, escritor russo do século dezoito, exilado por um livro que denunciava a servidão; para a juventude da época, símbolo do pensamento livre.

Raskólnikov pegou em silêncio as folhas do artigo em alemão, pegou os três rublos e, sem dizer uma palavra, saiu. Razumíkhin ficou olhando espantado para ele. Mas, já tendo chegado à Primeira Linha, Raskólnikov de repente voltou, subiu de novo à casa de Razumíkhin e, depois de deixar sobre a mesa as folhas em alemão e os três rublos, outra vez sem dizer palavra, foi embora.5Na ilha Vassílievski, as ruas transversais se chamam “linhas” e são numeradas.

— Você está com febre delirante, é? — berrou Razumíkhin, enfim enfurecido. — Para que essa comédia toda? Até a mim você desnorteou… Então para que você veio, depois disso, diabo?

— Não preciso… de traduções… — murmurou Raskólnikov, já descendo a escada.

— Então de que diabos você precisa? — gritou Razumíkhin lá de cima. O outro continuou descendo em silêncio.

— Ei, você! Onde é que você mora?

Não houve resposta.

— Pois então pro infer-r-rno com você!…

Mas Raskólnikov já estava saindo para a rua. Na ponte Nikoláievski teve de voltar a si por completo mais uma vez, por causa de um incidente muito desagradável para ele. O cocheiro de uma caleça lhe deu uma chicotada em cheio nas costas, porque ele por pouco não foi parar debaixo dos cavalos, apesar de o cocheiro ter gritado com ele umas três ou quatro vezes. A chicotada o deixou tão furioso que ele, pulando para junto do parapeito (não se sabe por que ele andava bem no meio da ponte, por onde passam os veículos, e não as pessoas), rangeu e bateu os dentes de raiva. Em volta, naturalmente, ouviam-se risadas.

— Bem feito!

— Algum vigarista.

— Já se sabe: finge que está bêbado e se mete de propósito debaixo das rodas; e você que responda por ele.

— É disso que eles vivem, meu senhor, é disso que eles vivem…

Mas, no momento em que estava junto ao parapeito, ainda olhando sem sentido e com raiva para a caleça que se afastava, esfregando as costas, sentiu de repente que alguém lhe enfiava dinheiro na mão. Olhou: uma mulher de comerciante, já de idade, de lenço na cabeça e sapatos de pele de cabra, e com ela uma moça de chapeuzinho e sombrinha verde, provavelmente a filha. “Pegue, meu caro, pelo amor de Cristo.” Ele pegou, e elas passaram adiante. Era uma moeda de vinte copeques. Pela roupa e pela aparência, elas bem podiam tê-lo tomado por um mendigo, por um verdadeiro catador de moedinhas na rua, e uma esmola de vinte copeques inteiros ele provavelmente devia à chicotada, que as deixara com pena.

Apertou a moeda de vinte copeques na mão, deu uns dez passos e virou o rosto para o Nevá, na direção do palácio. O céu não tinha a menor nuvem, e a água estava quase azul, o que no Nevá é tão raro. A cúpula da catedral, que de nenhum ponto se desenha melhor do que olhando daqui, da ponte, uns vinte passos antes da capela, simplesmente resplandecia, e através do ar limpo dava para distinguir nitidamente até cada um dos seus ornamentos. A dor da chicotada passou, e Raskólnikov esqueceu o golpe; um único pensamento, inquieto e não muito claro, o ocupava agora por inteiro. Ficou parado olhando ao longe, por muito tempo e fixamente; aquele lugar lhe era especialmente familiar. Quando frequentava a universidade, costumava acontecer-lhe — mais vezes na volta para casa —, talvez umas cem vezes, parar exatamente neste mesmo lugar, contemplar fixamente aquele panorama de fato magnífico e, a cada vez, quase se espantar com uma impressão sua, vaga e sem solução. Um frio inexplicável sempre soprava sobre ele daquele panorama magnífico; para ele, aquele quadro suntuoso estava cheio de um espírito mudo e surdo… Ele se admirava a cada vez com essa sua impressão sombria e enigmática e, sem confiar em si mesmo, adiava para o futuro a decifração. Agora, de repente, lembrou-se vivamente daquelas suas perguntas e perplexidades de antes, e pareceu-lhe que não era por acaso que se lembrava delas agora. Só o fato de ter parado no mesmo lugar de antes já lhe pareceu absurdo e estranho, como se de fato tivesse imaginado que podia pensar agora nas mesmas coisas de antes e se interessar pelos mesmos temas e quadros de antes, pelos quais se interessava… ainda tão pouco tempo atrás. Por pouco não achou graça e, ao mesmo tempo, o peito se apertou até doer. Numa espécie de profundeza, lá embaixo, em algum lugar mal visível sob os pés, pareceu-lhe agora estar todo aquele passado de antes, e os pensamentos de antes, e os problemas de antes, e os temas de antes, e as impressões de antes, e todo aquele panorama, e ele mesmo, e tudo, tudo… Parecia que ele voava para algum lugar lá no alto e que tudo desaparecia diante dos seus olhos… Fazendo um movimento involuntário com a mão, sentiu de repente no punho fechado a moeda de vinte copeques. Abriu a mão, olhou fixamente para a moedinha, tomou impulso e a atirou na água; depois deu meia-volta e foi para casa. Pareceu-lhe que, naquele momento, tinha como que cortado a si mesmo, com uma tesoura, de todos e de tudo.

Chegou em casa já perto do anoitecer; tinha andado, portanto, umas seis horas ao todo. Por onde e como voltou, disso ele não se lembrava de nada. Despiu-se e, tremendo inteiro como um cavalo esfalfado, deitou-se no sofá, puxou o capote por cima de si e no mesmo instante caiu num torpor…

Despertou, quando já era de todo crepúsculo, com uns gritos horríveis. Meu Deus, que gritos eram aqueles! Sons tão antinaturais, uivos, berros, rangidos, choro, pancadas e palavrões assim ele nunca tinha ouvido nem visto. Não podia sequer imaginar tamanha bestialidade, tamanho frenesi. Horrorizado, soergueu-se e sentou-se na cama, gelando e se torturando a cada instante. Mas a briga, os berros e os palavrões ficavam cada vez mais fortes. E então, para seu enorme espanto, distinguiu de repente a voz da sua senhoria. Ela uivava, guinchava e se lamentava, depressa, atropelando-se, soltando as palavras de um jeito que nem dava para entender, implorando alguma coisa — claro, que parassem de bater nela, porque estavam batendo nela sem piedade na escada. A voz de quem batia tinha ficado tão terrível de raiva e fúria que já só rouquejava, mas mesmo assim quem batia também dizia alguma coisa, e também depressa, sem que se entendesse, atropelando-se e engasgando. De repente Raskólnikov tremeu como uma folha: reconheceu aquela voz; era a voz de Iliá Petróvitch. Iliá Petróvitch está aqui e está batendo na senhoria! Ele a chuta, bate a cabeça dela nos degraus — isso é claro, dá para ouvir pelos sons, pelos berros, pelas pancadas! Mas o que é isso, o mundo virou de cabeça para baixo? Dava para ouvir como em todos os andares, por toda a escada, se juntava uma multidão; ouviam-se vozes, exclamações; subiam, batiam, fechavam portas com estrondo, acudiam correndo. “Mas por quê, por quê, e como isso é possível!”, repetia ele, pensando seriamente que tinha enlouquecido de vez. Mas não, ele está ouvindo com clareza demais!… Mas, então, também virão atrás dele daqui a pouco, se é assim, “porque… com certeza tudo isso vem daquilo mesmo… por causa de ontem… Meu Deus!”. Quis passar o gancho na porta, mas a mão não se ergueu… e seria inútil! O medo, como gelo, cobriu-lhe a alma, torturou-o, enregelou-o… Mas eis que por fim todo aquele alarido, que durou seus bons dez minutos, começou aos poucos a se acalmar. A senhoria gemia e se lamuriava, Iliá Petróvitch ainda ameaçava e praguejava… Mas eis que por fim, parece, também ele se calou; já não se ouve mais; “será que foi embora! Meu Deus!” Sim, agora vai também a senhoria, ainda gemendo e chorando… e a porta dela se fecha com estrondo… E a multidão vai deixando a escada e voltando para os apartamentos — soltam exclamações, discutem, chamam uns aos outros, ora levantando a voz até o grito, ora baixando até o sussurro. Deviam ser muitos; quase o prédio inteiro tinha acudido. “Mas, meu Deus, será que tudo isso é possível! E para que, para que ele veio aqui!”

Raskólnikov caiu sem forças no sofá, mas já não conseguia fechar os olhos; ficou deitado uma meia hora em tamanho sofrimento, numa sensação tão insuportável de pavor sem limites como nunca tinha experimentado. De repente uma luz forte iluminou o quarto: entrou Nastássia com uma vela e um prato de sopa. Olhando-o com atenção e vendo que não estava dormindo, pôs a vela na mesa e começou a arrumar o que trouxera: pão, sal, prato, colher.

— Aposto que não come desde ontem. Passou o dia inteiro zanzando por aí, e a febre te sacudindo.

— Nastássia… por que bateram na senhoria?

Ela olhou para ele fixamente.

— Quem bateu na senhoria?

— Agora há pouco… meia hora atrás, Iliá Petróvitch, o ajudante do comissário, na escada… Por que ele bateu tanto nela? e… para que veio?…

Nastássia o examinava calada e de cenho franzido, e ficou olhando assim por muito tempo. Aquele exame começou a lhe ser muito desagradável, até assustador.

— Nastássia, por que você não diz nada? — falou ele por fim, timidamente, com voz fraca.

— É o sangue — respondeu ela por fim, baixinho, como se falasse consigo mesma.

— Sangue!… Que sangue?… — balbuciava ele, empalidecendo e recuando para a parede. Nastássia continuava a olhá-lo em silêncio.

— Ninguém bateu na senhoria — disse ela de novo, com voz severa e decidida. Ele olhava para ela, mal respirando.

— Eu mesmo ouvi… eu não estava dormindo… estava sentado — disse ele, ainda mais timidamente. — Fiquei escutando muito tempo… Veio o ajudante do comissário… Todo mundo correu para a escada, de todos os apartamentos…

— Ninguém veio. É o sangue gritando em você. É quando ele não tem saída e começa a empedrar no fígado, aí a pessoa começa a ver coisas… Vai comer ou não vai?

Ele não respondia. Nastássia continuava de pé diante dele, olhando-o fixamente, e não ia embora.

— Me dá de beber… Nastássiuchka.

Ela desceu e, uns dois minutos depois, voltou com água numa caneca branca de barro; mas ele já não se lembrava do que aconteceu depois. Lembrava apenas de ter tomado um gole de água fria e derramado um pouco da caneca no peito. Depois veio a inconsciência.

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