Crime e CastigoParte três · Capítulo II

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Crime e Castigo · Parte três

Capítulo II

25 min de narração · 1 nota

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Preocupado e sério, Razumíkhin acordou no dia seguinte pouco depois das sete. Muitas perplexidades novas e imprevistas surgiram de repente diante dele naquela manhã. Antes, nem imaginava que algum dia acordaria assim. Lembrava-se de tudo o que acontecera na véspera, até os últimos detalhes, e compreendia que algo fora do comum se passara com ele, que recebera dentro de si uma impressão até então totalmente desconhecida e diferente de todas as anteriores. Ao mesmo tempo, tinha clara consciência de que o sonho que se acendera em sua cabeça era irrealizável no mais alto grau — tão irrealizável que chegou a ter vergonha dele, e passou depressa a outras preocupações e perplexidades, mais urgentes, que lhe tinham ficado de herança daquele “dia de ontem, três vezes maldito”.

A mais horrível de suas lembranças era a de como se mostrara na véspera “baixo e torpe”, não só por estar bêbado, mas porque, diante da moça, aproveitando-se da situação dela, por um ciúme estúpido e precipitado, falara mal do noivo dela, sem conhecer não só as relações e os compromissos entre os dois, mas nem mesmo o homem direito. E que direito tinha ele de julgá-lo de modo tão apressado e leviano? E quem o chamara para juiz! E será que uma criatura como Avdótia Románovna pode se entregar por dinheiro a um homem indigno? Logo, ele também há de ter os seus méritos. Os quartos mobiliados? Mas, de fato, como ele poderia saber que eram quartos daquele tipo? Afinal, ele está preparando um apartamento… pff, como tudo isso é baixo! E que desculpa é essa, de que estava bêbado? Pretexto idiota, que o rebaixa ainda mais! No vinho está a verdade, e a verdade inteira acabou se revelando, “isto é, toda a imundície do seu coração invejoso e grosseiro se revelou”! E será que um sonho desses lhe é permitido, por pouco que seja, a ele, Razumíkhin? Quem é ele comparado a uma moça como aquela, ele, um arruaceiro bêbado e o fanfarrão de ontem? “Será possível uma comparação tão cínica e ridícula?” Razumíkhin ficou desesperadamente vermelho com esse pensamento e, de repente, como de propósito, naquele mesmíssimo instante, lembrou-se com clareza de como dissera às duas, na véspera, parado na escada, que a senhoria ia ficar com ciúme dele por causa de Avdótia Románovna… aquilo já era insuportável. Com toda a força, deu um soco no fogão da cozinha, machucou a mão e arrancou um tijolo.

“Claro”, murmurou consigo mesmo um minuto depois, com uma espécie de sentimento de humilhação, “claro, todas essas sujeiras não se cobrem com tinta nem se apagam nunca mais… e, portanto, nem adianta pensar nisso; e por isso, aparecer calado e… cumprir minhas obrigações… também calado, e… e não pedir desculpas, e não dizer nada, e… e, claro, agora está tudo perdido!”

No entanto, ao se vestir, examinou a roupa com mais cuidado do que de costume. Outra roupa ele não tinha, e, se tivesse, talvez nem a vestisse — “isso, não vestiria, de propósito”. Mas, de todo modo, não se podia continuar um cínico e um porcalhão imundo: ele não tem o direito de ofender os sentimentos dos outros, ainda mais porque esses outros precisam dele e eles mesmos o chamam. Escovou a roupa com cuidado. Já a roupa de baixo estava sempre aceitável; nesse ponto ele era particularmente asseado.

Lavou-se naquela manhã com esmero — Nastássia arranjou sabão —, lavou o cabelo, o pescoço e principalmente as mãos. Quando, porém, chegou a questão de raspar ou não a barba por fazer (Praskóvia Pávlovna tinha excelentes navalhas, guardadas desde o falecido senhor Zarnítsyn), a questão foi decidida pela negativa, e até com raiva: “Que fique assim mesmo! E se pensarem que eu me barbeei para… e vão pensar, com certeza! Por nada deste mundo!

E… e o principal é que ele é tão grosseiro, tão sujo, tem modos de botequim; e… e, digamos que ele saiba que também é, bem, ao menos um pouco, um homem decente… mas e daí, que orgulho há em ser um homem decente? Todo mundo deve ser um homem decente, e até mais limpo que isso, e… e, mesmo assim (ele se lembra disso), também ele teve lá suas coisinhas… não que fossem desonestas, mas, ainda assim!… E que pensamentos lhe passavam pela cabeça! hum… e pôr tudo isso lado a lado com Avdótia Románovna! Pois é, diabo! Que seja! Pois de propósito vou ser assim, sujo, ensebado, de botequim, e dane-se! Vou ser mais ainda!…”

Foi no meio desses monólogos que o encontrou Zossímov, que passara a noite na sala de Praskóvia Pávlovna.

Ele ia para casa e, antes de sair, quis dar uma olhada no doente. Razumíkhin informou que o outro dormia como uma pedra. Zossímov mandou que não o acordassem até que despertasse sozinho. Ele próprio prometeu voltar lá pelas dez e pouco.

— Se é que ele vai estar em casa — acrescentou. — Ah, diabo! Nem do próprio doente a gente é dono, e ainda tem de curar! Você não sabe se é ele que vai até elas ou se são elas que vêm aqui?

— Elas, eu acho — respondeu Razumíkhin, entendendo o objetivo da pergunta —, e vão falar, claro, dos assuntos de família. Eu vou embora. Você, como médico, naturalmente tem mais direito do que eu.

— Também não sou confessor; venho e vou embora; tenho muito o que fazer, mesmo sem elas.

— Uma coisa me preocupa — interrompeu Razumíkhin, franzindo a testa. — Ontem, bêbado, no caminho, dei com a língua nos dentes com ele sobre várias bobagens… várias… entre outras coisas, que você teme que ele… tenha propensão à loucura…

— Ontem você também deu com a língua nos dentes sobre isso com as senhoras.

— Sei que foi estúpido! Pode me bater, se quiser! Mas me diga: você tinha mesmo alguma ideia firme?

— Mas é bobagem, já disse; que ideia firme que nada! Você mesmo o descreveu como um monomaníaco quando me levou até ele… E ontem ainda pusemos mais lenha na fogueira, você, quer dizer, com essas histórias… sobre o pintor de paredes; bela conversa, quando talvez ele tenha enlouquecido justamente por causa disso! Se eu soubesse exatamente o que aconteceu daquela vez na delegacia, e que lá algum canalha o… ofendeu com essa suspeita! Hum… eu não teria permitido aquela conversa ontem. Esses monomaníacos fazem de uma gota um oceano, veem de olhos abertos histórias que nunca aconteceram… Pelo que me lembro, ontem, com aquela história do Zamiótov, metade da coisa ficou clara para mim. E tem mais! Conheço um caso em que um hipocondríaco de quarenta anos, sem conseguir suportar as zombarias diárias de um menino de oito anos à mesa, degolou o menino! E aqui: ele todo em farrapos, um policial atrevido, a doença começando, e uma suspeita dessas! Para um hipocondríaco exaltado! Com uma vaidade furiosa, fora do comum! Talvez esteja aí todo o ponto de partida da doença! Ah, diabo!… E, a propósito, esse Zamiótov é mesmo um rapazinho simpático, só que, hum… não devia ter contado tudo aquilo ontem. É um tagarela terrível!

— Mas contou para quem? Para mim e para você?

— E para Porfíri.

— E daí que contou para Porfíri?

— A propósito, você tem alguma influência sobre aquelas duas, a mãe e a irmã? Era bom que tivessem cuidado com ele hoje…

— Elas hão de se entender! — respondeu Razumíkhin, de má vontade.

— E por que ele implica tanto com esse Lújin? Um homem com dinheiro, que, ao que parece, não desagrada a ela… e elas não têm um tostão, não é? hein?

— Mas por que você está me interrogando? — gritou Razumíkhin, irritado. — Como vou saber se têm um tostão ou nenhum? Pergunte você mesmo, talvez descubra…

— Pff, como você é burro às vezes! É a bebedeira de ontem que ainda não passou… Até logo; agradeça por mim à sua Praskóvia Pávlovna pela pousada. Trancou-se, não respondeu pela porta ao meu bonjour, mas se levantou às sete, levaram o samovar para ela da cozinha pelo corredor… Não fui digno de contemplar seu rosto…

Às nove em ponto, Razumíkhin apareceu nos quartos mobiliados de Bakaléiev. As duas senhoras o esperavam havia muito tempo, com uma impaciência histérica. Tinham se levantado lá pelas sete, ou até antes. Ele entrou sombrio como a noite, cumprimentou com uma reverência desajeitada e logo se zangou por isso — consigo mesmo, é claro. Mas tinha feito as contas sem as donas da casa: Pulkhéria Aleksándrovna se lançou para ele, agarrou-o pelas duas mãos e por pouco não as beijou. Ele olhou timidamente para Avdótia Románovna; mas também naquele rosto altivo havia, naquele momento, tal expressão de gratidão e amizade, tal respeito, completo e inesperado para ele (em vez dos olhares zombeteiros e de um desprezo involuntário, mal disfarçado!), que, palavra, teria sido mais fácil se o recebessem com insultos; assim, o embaraço já era grande demais. Felizmente havia um assunto pronto para a conversa, e ele se agarrou a ele depressa.

Ao ouvir que ele “ainda não tinha acordado”, mas que “estava tudo ótimo”, Pulkhéria Aleksándrovna declarou que era até melhor, “porque precisava muito, muito, muito conversar antes”. Seguiu-se a pergunta sobre o chá e o convite para tomá-lo juntos; elas mesmas ainda não tinham tomado, à espera de Razumíkhin. Avdótia Románovna tocou a campainha; ao chamado apareceu um maltrapilho imundo, a quem se encomendou o chá, que afinal foi servido, mas de modo tão sujo e tão indecente que as senhoras ficaram envergonhadas. Razumíkhin chegou a xingar com energia aquele quarto, mas, lembrando-se de Lújin, calou-se, ficou sem graça e se alegrou terrivelmente quando as perguntas de Pulkhéria Aleksándrovna enfim começaram a chover, uma atrás da outra, sem interrupção.

Respondendo a elas, falou durante três quartos de hora, interrompido e questionado a todo instante, e conseguiu transmitir todos os fatos principais e mais necessários que conhecia do último ano da vida de Rodion Románovitch, terminando com um relato minucioso da doença dele. Muita coisa, porém, deixou de fora, o que precisava mesmo ser deixado, entre outras a cena na delegacia, com todas as suas consequências. Ouviram o relato com avidez; mas, quando ele achou que já tinha terminado e satisfeito suas ouvintes, viu-se que, para elas, era como se ele ainda nem tivesse começado.

— Diga-me, diga-me, o que o senhor acha… ah, desculpe, até agora eu ainda não sei o seu nome? — apressava-se Pulkhéria Aleksándrovna.

— Dmítri Prokófitch.

— Pois então, Dmítri Prokófitch, eu gostaria muito, muito de saber… como, em geral… ele vê as coisas agora, quer dizer, me entenda, como dizer isso ao senhor, quer dizer, melhor dizendo: do que ele gosta e do que não gosta? Ele é sempre assim irritadiço? Quais são os desejos dele e, por assim dizer, os sonhos, se for possível saber? O que exatamente tem agora uma influência especial sobre ele? Numa palavra, eu desejaria…

— Ah, mamãe, como se pode responder a tudo isso assim, de repente! — observou Dúnia.

— Ah, meu Deus, eu não esperava de jeito nenhum, de jeito nenhum, encontrá-lo assim, Dmítri Prokófitch.

— Isso é muito natural, senhora — respondeu Dmítri Prokófitch. — Eu não tenho mãe, mas tenho um tio que vem para cá todo ano e quase toda vez não me reconhece, nem mesmo pela aparência, e é um homem inteligente; e, em três anos de separação, muita água passou por baixo da ponte. E o que posso dizer à senhora? Conheço o Rodion há um ano e meio: é soturno, sombrio, altivo e orgulhoso; ultimamente (e talvez muito antes) desconfiado e hipocondríaco. Generoso e bom. Não gosta de expressar seus sentimentos e prefere cometer uma crueldade a abrir o coração com palavras. Às vezes, aliás, não tem nada de hipocondríaco, é simplesmente frio e insensível a ponto de ser desumano; palavra, é como se nele dois caracteres opostos se revezassem. Às vezes é terrivelmente calado! Nunca tem tempo, todos o atrapalham, e ele mesmo fica deitado sem fazer nada. Não é zombeteiro, e não por falta de espírito, mas é como se não tivesse tempo para essas ninharias. Não escuta até o fim o que lhe dizem. Nunca se interessa por aquilo que, no momento, interessa a todo mundo. Tem um apreço terrivelmente alto por si mesmo e, parece, não sem algum direito a isso. Bem, o que mais?… Parece-me que a chegada das senhoras terá sobre ele a mais salutar das influências.

— Ah, Deus queira! — exclamou Pulkhéria Aleksándrovna, atormentada pelo retrato que Razumíkhin fizera do seu Ródia.

E Razumíkhin finalmente olhou com um pouco mais de coragem para Avdótia Románovna. Durante a conversa tinha olhado muitas vezes para ela, mas de relance, só por um instante, e logo desviava os olhos. Avdótia Románovna ora se sentava à mesa e escutava com atenção, ora se levantava de novo e começava a andar, como era seu costume, de um canto a outro, de braços cruzados, lábios apertados, fazendo de vez em quando uma pergunta sem parar de andar, pensativa. Ela também tinha o costume de não escutar até o fim o que diziam. Usava um vestido escurinho, de tecido leve, e tinha no pescoço uma echarpezinha branca e transparente. Por muitos sinais, Razumíkhin notou logo que a situação das duas mulheres era pobre ao extremo. Se Avdótia Románovna estivesse vestida como uma rainha, parece que ele não teria medo nenhum dela; agora, porém, talvez justamente porque ela estava tão pobremente vestida e porque ele notara toda aquela penúria mesquinha, o medo se instalou em seu coração, e ele passou a temer por cada palavra sua, por cada gesto, o que era, sem dúvida, constrangedor para um homem que já não confiava em si mesmo.

— O senhor disse muita coisa curiosa sobre o caráter do meu irmão e… disse com imparcialidade. Isso é bom; eu pensava que o senhor tivesse veneração por ele — observou Avdótia Románovna, sorrindo. — Parece que também é verdade que perto dele deveria haver uma mulher — acrescentou, pensativa.

— Eu não disse isso, mas, aliás, talvez a senhora tenha razão também nisso, só que…

— O quê?

— É que ele não ama ninguém; talvez nunca venha a amar — cortou Razumíkhin.

— Quer dizer, não é capaz de amar?

— Sabe, Avdótia Románovna, a senhora mesma é terrivelmente parecida com o seu irmão, até em tudo! — soltou ele de repente, de modo inesperado até para si mesmo, mas logo, lembrando-se do que acabara de dizer a ela própria sobre o irmão, ficou vermelho como um pimentão e terrivelmente sem graça. Avdótia Románovna não pôde deixar de rir, olhando para ele.

— Quanto ao Ródia, vocês dois podem estar enganados — emendou Pulkhéria Aleksándrovna, um tanto melindrada. — Não estou falando do que se passa agora, Dúnietchka. O que Piotr Petróvitch escreve nesta carta… e o que nós duas supusemos… talvez não seja verdade, mas o senhor não pode imaginar, Dmítri Prokófitch, como ele é fantasioso e, como dizer, caprichoso. Nunca pude confiar no caráter dele, nem quando ele tinha só quinze anos. Tenho certeza de que, ainda agora, ele é capaz de, de repente, fazer consigo alguma coisa que nenhuma pessoa jamais pensaria em fazer… Nem é preciso ir longe: o senhor sabe como ele, há um ano e meio, me espantou, me abalou e por pouco não me matou de vez, quando cismou de se casar com aquela, como é mesmo, com a filha daquela Zarnítsyna, a senhoria dele?

— O senhor sabe alguma coisa em detalhe sobre essa história? — perguntou Avdótia Románovna.

— O senhor acha — continuou Pulkhéria Aleksándrovna com ardor — que naquela época o teriam detido as minhas lágrimas, as minhas súplicas, a minha doença, a minha morte, talvez, de desgosto, a nossa miséria? Teria passado por cima de todos os obstáculos com a maior tranquilidade. Mas será possível, será possível que ele não nos ame?

— Ele mesmo nunca me falou nada dessa história — respondeu Razumíkhin com cautela —, mas ouvi umas coisas da própria senhora Zarnítsyna, que também, a seu modo, não é das mais faladeiras, e o que ouvi é, talvez, até um pouco estranho…

— Mas o quê, o que o senhor ouviu? — perguntaram as duas mulheres ao mesmo tempo.

— Aliás, nada de muito especial. Só soube que esse casamento, já todo acertado e que só não se realizou por causa da morte da noiva, não agradava nada à própria senhora Zarnítsyna… Além disso, dizem que a noiva nem era bonita, isto é, dizem que era até feia… e tão doentia, e… e estranha… mas, aliás, parece que tinha alguns méritos. Devia ter, sem falta, algum mérito; senão, não dá para entender nada… Dote também não tinha nenhum, e ele, aliás, nem contaria com dote… Em geral, num caso desses é difícil julgar.

— Tenho certeza de que ela era uma moça digna — observou Avdótia Románovna, laconicamente.

— Deus me perdoe, mas naquela época eu me alegrei, sim, com a morte dela, embora não saiba qual dos dois teria arruinado o outro: ele a ela, ou ela a ele? — concluiu Pulkhéria Aleksándrovna; em seguida, com cautela, com hesitações e com olhadas incessantes para Dúnia, o que a esta evidentemente desagradava, voltou a perguntar sobre a cena da véspera entre Ródia e Lújin. Esse incidente, pelo visto, era o que mais a preocupava, a ponto de lhe causar medo e tremor. Razumíkhin contou tudo de novo, em detalhes, mas desta vez acrescentou também a sua conclusão: acusou abertamente Raskólnikov de ter ofendido Piotr Petróvitch de caso pensado, e desta vez pouquíssimo o desculpou pela doença.

— Ele já tinha planejado isso antes da doença — acrescentou.

— Eu também acho — disse Pulkhéria Aleksándrovna, com ar abatido. Mas ficou muito impressionada com o fato de que Razumíkhin, desta vez, se exprimisse sobre Piotr Petróvitch com tanta cautela e até como que com respeito. Isso impressionou também Avdótia Románovna.

— Então é essa a sua opinião sobre Piotr Petróvitch? — Pulkhéria Aleksándrovna não se conteve e perguntou.

— Sobre o futuro marido da sua filha não posso ter outra opinião — respondeu Razumíkhin, firme e com ardor —, e não digo isso por mera cortesia banal, mas porque… porque… bem, nem que seja só porque a própria Avdótia Románovna, por livre vontade, se dignou a escolher esse homem. Se ontem o injuriei tanto, foi porque ontem eu estava imundamente bêbado e, além disso… louco; sim, louco, sem cabeça, perdi o juízo, completamente… e hoje me envergonho disso!… — Ficou vermelho e se calou. Avdótia Románovna corou, mas não rompeu o silêncio. Não pronunciara uma única palavra desde o momento em que começaram a falar de Lújin.

Enquanto isso, Pulkhéria Aleksándrovna, sem o apoio dela, estava visivelmente indecisa. Por fim, gaguejando e olhando sem parar para a filha, declarou que uma circunstância a preocupava agora extremamente.

— Veja, Dmítri Prokófitch… — começou ela. — Posso ser totalmente franca com Dmítri Prokófitch, Dúnietchka?

— Claro que sim, mamãe — observou Avdótia Románovna, em tom firme.

— A questão é esta — apressou-se a outra, como se lhe tirassem uma montanha das costas ao permitir que contasse sua aflição. — Hoje, muito cedo, recebemos de Piotr Petróvitch um bilhete em resposta ao nosso aviso de ontem sobre a chegada. Veja, ontem ele deveria nos receber, como tinha prometido, na própria estação. Em vez disso, mandaram à estação, ao nosso encontro, um lacaio qualquer, com o endereço destes quartos e para nos mostrar o caminho, e Piotr Petróvitch mandava dizer que ele mesmo viria nos ver aqui hoje de manhã. Em vez disso, chegou dele hoje de manhã este bilhete… O melhor é o senhor mesmo ler; há aqui um ponto que me preocupa muito… o senhor logo vai ver que ponto é, e… diga-me a sua opinião franca, Dmítri Prokófitch! O senhor conhece melhor que ninguém o caráter do Ródia e melhor que ninguém pode nos aconselhar. Aviso ao senhor que Dúnietchka já resolveu tudo, desde o primeiro passo, mas eu, eu ainda não sei como agir, e… e fiquei esperando o senhor.

Razumíkhin desdobrou o bilhete, datado da véspera, e leu o seguinte:

“Prezada senhora Pulkhéria Aleksándrovna, tenho a honra de informá-la de que, em virtude de atrasos repentinos ocorridos, não pude recebê-la na plataforma, tendo enviado para tal fim um homem muito diligente. Igualmente me privarei da honra de vê-la amanhã pela manhã, por assuntos inadiáveis no Senado e para não perturbar o encontro familiar da senhora com seu filho e de Avdótia Románovna com seu irmão. Terei, pois, a honra de visitá-la e de apresentar-lhe meus cumprimentos em seu alojamento não antes do dia de amanhã, às oito horas da noite em ponto, ocasião em que ouso acrescentar o meu pedido insistente e, acrescentarei ainda, premente, de que em nosso encontro comum Rodion Románovitch já não esteja presente, visto que ele me ofendeu de modo inaudito e descortês na visita que lhe fiz ontem, em sua doença, e, além disso, tendo eu pessoalmente de lhe dar uma explicação necessária e circunstanciada sobre certo ponto, acerca do qual desejo conhecer a interpretação da própria senhora. Tenho a honra de prevenir de antemão que, se, contrariando o pedido, encontrar Rodion Románovitch, serei obrigado a retirar-me imediatamente, e então a senhora só poderá culpar a si mesma. Escrevo na suposição de que Rodion Románovitch, que parecia tão doente na minha visita, duas horas depois sarou de repente e, portanto, podendo sair de casa, pode também apresentar-se à senhora. Disso me certifiquei com meus próprios olhos, na casa de um bêbado atropelado por cavalos e em consequência falecido, a cuja filha, moça de conduta notória, ele entregou ontem até vinte e cinco rublos, a pretexto do enterro, o que muito me surpreendeu, sabendo eu com quanta dificuldade a senhora reuniu essa quantia. Ademais, testemunhando o meu especial respeito à estimada Avdótia Románovna, rogo aceitar os sentimentos de respeitosa dedicação

de seu humilde servo

P. Lújin”.

— O que eu faço agora, Dmítri Prokófitch? — começou a dizer Pulkhéria Aleksándrovna, quase chorando. — Como é que vou propor ao Ródia que não venha? Ontem ele exigiu com tanta insistência que recusássemos Piotr Petróvitch, e agora mandam não recebê-lo! Ele vai vir de propósito, quando souber, e… o que vai acontecer então?

— Faça como decidiu Avdótia Románovna — respondeu Razumíkhin, tranquilamente e sem demora.

— Ah, meu Deus! Ela diz… ela diz sabe Deus o quê, e não me explica o objetivo! Diz que será melhor, quer dizer, não que seja melhor, mas que, por alguma razão, é indispensável que o Ródia também venha de propósito hoje às oito horas e que eles se encontrem sem falta… E eu nem queria mostrar a carta a ele, e queria dar um jeito, com alguma esperteza, por meio do senhor, de que ele não viesse… porque ele é tão irritadiço… E não entendo nada, que bêbado é esse que morreu, e que filha é essa, e como ele pôde dar a essa filha todo o último dinheiro… que…

— Que lhe custou tão caro, mamãe — acrescentou Avdótia Románovna.

— Ele não estava em si ontem — disse Razumíkhin, pensativo. — Se a senhora soubesse o que ele falou ontem no botequim, embora com inteligência… hum! Sobre um defunto e sobre uma moça ele de fato me disse alguma coisa ontem, quando íamos para casa, mas não entendi uma palavra… Aliás, eu mesmo, ontem…

— O melhor, mamãe, é irmos nós mesmas até ele, e lá, garanto à senhora, veremos logo o que fazer. Além do mais, já está na hora… Senhor! Já passa das dez! — exclamou ela, olhando o seu magnífico relógio de ouro esmaltado, que lhe pendia do pescoço numa fina correntinha veneziana e destoava terrivelmente do resto da roupa. “Presente do noivo”, pensou Razumíkhin.

— Ah, está na hora!… Está na hora, Dúnietchka, está na hora! — agitou-se, aflita, Pulkhéria Aleksándrovna. — Ainda vai pensar que estamos zangadas por causa de ontem, já que demoramos tanto. Ah, meu Deus!

Dizendo isso, jogava apressada o mantelete sobre os ombros e punha o chapéu; Dúnietchka também se vestiu. Suas luvas estavam não só gastas, mas até rasgadas, o que Razumíkhin notou; no entanto, essa pobreza evidente das roupas até dava às duas senhoras um ar de dignidade especial, o que sempre acontece com quem sabe usar roupa pobre. Razumíkhin olhava para Dúnietchka com veneração e se orgulhava de ir conduzi-la. “Aquela rainha”, pensava consigo, “que remendava as meias na prisão, com certeza parecia, naquele momento, uma verdadeira rainha, e até mais do que nas mais pomposas solenidades e cerimônias da corte.”1Alusão à rainha Maria Antonieta, da França, que ficou presa durante a Revolução Francesa.

— Meu Deus! — exclamou Pulkhéria Aleksándrovna. — Quem diria que eu teria medo de ver o meu filho, o meu querido, querido Ródia, como tenho agora!… Tenho medo, Dmítri Prokófitch! — acrescentou, olhando para ele timidamente.

— Não tenha medo, mamãe — disse Dúnia, beijando-a —, é melhor confiar nele. Eu confio.

— Ah, meu Deus! Eu também confio, mas não dormi a noite toda! — exclamou a pobre mulher.

Saíram para a rua.

— Sabe, Dúnietchka, assim que adormeci um pouco, já de manhãzinha, de repente sonhei com a falecida Marfa Petrovna… toda de branco… chegou perto de mim, pegou a minha mão e ficou balançando a cabeça para mim, tão severa, tão severa, como se me condenasse… Será bom sinal? Ah, meu Deus, Dmítri Prokófitch, o senhor ainda não sabe: Marfa Petrovna morreu!

— Não, não sei; que Marfa Petrovna?

— De repente! E imagine o senhor…

— Depois, mamãe — interveio Dúnia —, ele ainda nem sabe quem é Marfa Petrovna.

— Ah, não sabe? E eu pensava que o senhor já soubesse de tudo. Perdoe-me, Dmítri Prokófitch, nestes dias a minha cabeça está simplesmente dando voltas. Palavra, considero o senhor como que a nossa providência, e por isso estava tão convencida de que o senhor já sabia de tudo. Eu o considero como alguém da família… Não se zangue por eu falar assim. Ah, meu Deus, o que houve com a sua mão direita? Machucou?

— Sim, machuquei — murmurou Razumíkhin, radiante de felicidade.

— Às vezes falo com o coração demais, de modo que a Dúnia me corrige… Mas, meu Deus, em que cubículo ele mora! Será que já acordou? E essa mulher, a senhoria dele, chama isso de quarto? Escute, o senhor diz que ele não gosta de mostrar o que sente, então talvez eu o canse com as minhas… fraquezas?… O senhor não poderia me ensinar, Dmítri Prokófitch? Como devo agir com ele? Sabe, ando completamente perdida.

— Não lhe faça muitas perguntas se perceber que ele franze a testa; principalmente sobre a saúde, não pergunte muito: ele não gosta.

— Ah, Dmítri Prokófitch, como é difícil ser mãe! Mas aí está a escada… Que escada horrível!

— Mamãe, a senhora está até pálida, acalme-se, minha querida — disse Dúnia, acariciando-a. — Ele é que deveria estar feliz por ver a senhora, e a senhora se atormenta assim — acrescentou, com os olhos faiscando.

— Esperem, vou na frente ver se ele já acordou.

As senhoras seguiram devagarinho Razumíkhin, que subia a escada na frente, e quando já estavam no quarto andar, na altura da porta da senhoria, notaram que essa porta estava entreaberta, numa frestinha, e que dois olhos negros e vivos examinavam as duas lá de dentro, do escuro. Quando os olhares se encontraram, a porta de repente se fechou, e com tamanho estrondo que Pulkhéria Aleksándrovna por pouco não gritou de susto.