Crime e CastigoParte dois · Capítulo V

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Crime e Castigo · Parte dois

Capítulo V

25 min de narração · 1 nota

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Era um senhor de idade já não muito jovem, afetado, de porte imponente, com uma fisionomia cautelosa e rabugenta, que começou por parar à porta, correndo os olhos ao redor com um espanto ofensivamente indisfarçado e como que perguntando com o olhar: “Mas onde é que eu vim parar?” Desconfiado, e até com uma afetação de certo susto, quase de ofensa, ele examinava a apertada e baixa “cabine de navio” de Raskólnikov. Com o mesmo espanto, depois, voltou e fixou os olhos no próprio Raskólnikov, despido, desgrenhado, sem se lavar, deitado no seu sofá miserável e sujo e também observando-o, imóvel. Em seguida, com a mesma lentidão, pôs-se a examinar a figura desarrumada, com a barba por fazer e o cabelo por pentear, de Razumíkhin, que por sua vez o olhava direto nos olhos, com insolência e ar de pergunta, sem sair do lugar. O silêncio tenso durou cerca de um minuto, e por fim, como era de esperar, houve uma pequena mudança de cenário. Percebendo, provavelmente, por certos indícios, aliás bastante evidentes, que ali, naquela “cabine de navio”, não se conseguiria absolutamente nada com um porte exageradamente severo, o senhor que entrara abrandou um pouco e, com cortesia, embora não sem severidade, falou, dirigindo-se a Zossímov e escandindo cada sílaba da sua pergunta:

— Rodion Románitch Raskólnikov, senhor estudante ou ex-estudante?

Zossímov mexeu-se devagar e talvez até tivesse respondido, se Razumíkhin, a quem a pergunta nem sequer se dirigia, não se antecipasse a ele imediatamente:

— Olhe ele ali, deitado no sofá! E o que o senhor quer?

Esse familiar “e o que o senhor quer?” deixou o senhor afetado simplesmente desconcertado; ele quase chegou a se virar para Razumíkhin, mas ainda conseguiu se conter a tempo e voltou-se depressa outra vez para Zossímov.

— Aqui está Raskólnikov! — resmungou Zossímov, indicando o doente com a cabeça; depois bocejou, abrindo a boca de um jeito extraordinariamente largo e mantendo-a assim por um tempo extraordinariamente longo. Depois foi levando a mão devagar ao bolso do colete, tirou um enorme relógio de ouro, abaulado e de tampa fechada, abriu-o, olhou e, com a mesma lentidão e preguiça, foi guardá-lo de novo.

O próprio Raskólnikov continuava o tempo todo deitado em silêncio, de costas, e olhava para o recém-chegado com obstinação, embora sem pensamento algum. O seu rosto, agora desviado da curiosa flor do papel de parede, estava extremamente pálido e exprimia um sofrimento fora do comum, como se ele tivesse acabado de passar por uma operação dolorosa ou o tivessem soltado naquele instante da tortura. Mas o senhor que entrara, pouco a pouco, começou a despertar nele cada vez mais atenção, depois perplexidade, depois desconfiança e até algo parecido com medo. E quando Zossímov, apontando para ele, disse: “aqui está Raskólnikov”, ele de repente se ergueu depressa, quase num salto, sentou-se na cama e, com uma voz quase desafiadora, mas entrecortada e fraca, disse:

— Sim! Eu sou Raskólnikov! O que o senhor quer?

O visitante olhou-o com atenção e disse, em tom imponente:

— Piotr Petróvitch Lújin. Tenho plena esperança de que o meu nome já não lhe seja de todo desconhecido.

Mas Raskólnikov, que esperava algo completamente diferente, olhou para ele de modo apático e pensativo e não respondeu nada, como se ouvisse o nome de Piotr Petróvitch decididamente pela primeira vez.

— Como? Será possível que o senhor até agora não se dignou a receber notícia alguma? — perguntou Piotr Petróvitch, um tanto melindrado.

Em resposta, Raskólnikov tornou a afundar devagar no travesseiro, pôs as mãos atrás da cabeça e ficou olhando para o teto. Um ar de desalento transpareceu no rosto de Lújin. Zossímov e Razumíkhin puseram-se a examiná-lo com curiosidade ainda maior, e ele, por fim, ficou visivelmente embaraçado.

— Eu supunha e contava — balbuciou ele — que uma carta, despachada já há mais de dez dias, quase duas semanas até…

— Escute, por que o senhor fica aí parado na porta? — interrompeu de repente Razumíkhin. — Se tem algo a explicar, sente-se; os dois, o senhor e a Nastássia, estão apertados aí. Nastássiuchka, chegue para o lado, deixe passar! Entre, aqui está uma cadeira, para cá! Vamos, passe por aqui!

Ele afastou a sua cadeira da mesa, liberou um pouco de espaço entre a mesa e os próprios joelhos e esperou, numa posição um tanto forçada, que o visitante “passasse” por aquela fresta. O momento foi escolhido de tal modo que não havia como recusar, e o visitante foi se espremendo pelo espaço estreito, apressado e tropeçando. Chegando à cadeira, sentou-se e olhou para Razumíkhin com desconfiança.

— Mas não se acanhe — disparou este. — O Ródia está doente faz cinco dias e passou três delirando, mas agora voltou a si e até comeu com apetite. Este que está aqui sentado é o médico dele, acabou de examiná-lo, e eu sou colega do Ródka, também ex-estudante, e agora cuido dele como uma babá; então não conte conosco nem se constranja, e continue com o que o senhor precisa.

— Agradeço-lhe. Mas será que não vou incomodar o doente com a minha presença e a minha conversa? — dirigiu-se Piotr Petróvitch a Zossímov.

— N-não — resmungou Zossímov —, pode até distraí-lo. — E bocejou outra vez.

— Oh, ele já está consciente há muito tempo, desde manhã! — continuou Razumíkhin, cuja familiaridade tinha um ar de tão genuína simplicidade que Piotr Petróvitch pensou um pouco e começou a se animar, talvez em parte também porque aquele maltrapilho insolente tivera o cuidado de se apresentar como estudante.

— Sua mamãe… — começou Lújin.

— Hum! — fez Razumíkhin, bem alto. Lújin olhou para ele com ar interrogativo.

— Nada, foi à toa; continue…

Lújin deu de ombros.

— …Sua mamãe, ainda quando eu estava com elas, começou uma carta para o senhor. Chegando aqui, deixei passar de propósito alguns dias e não vim procurá-lo, para ter plena certeza de que o senhor já estava informado de tudo; mas agora, para minha surpresa…

— Sei, sei! — disse de repente Raskólnikov, com uma expressão do mais impaciente desgosto. — É o senhor? O noivo? Pois bem, eu sei!… E chega!

Piotr Petróvitch ofendeu-se decididamente, mas se calou. Esforçava-se, apressado, por entender o que significava tudo aquilo. O silêncio durou cerca de um minuto.

Enquanto isso, Raskólnikov, que ao responder se voltara ligeiramente para ele, de repente pôs-se de novo a examiná-lo com atenção e com uma curiosidade especial, como se antes ainda não tivesse tido tempo de examiná-lo por inteiro, ou como se algo novo nele o tivesse impressionado: chegou a se erguer do travesseiro de propósito para isso. De fato, no aspecto geral de Piotr Petróvitch, algo como que especial chamava a atenção, justamente algo que parecia justificar o título de “noivo” que tão sem cerimônia acabavam de lhe dar. Em primeiro lugar, via-se, e até de modo evidente demais, que Piotr Petróvitch se apressara com afinco em aproveitar os poucos dias na capital para se arrumar e se embelezar à espera da noiva, o que, aliás, era bastante inocente e permitido. Até mesmo a consciência, talvez até satisfeita demais consigo mesma, a própria consciência da sua agradável mudança para melhor poderia ser perdoada numa ocasião dessas, pois Piotr Petróvitch estava na condição de noivo. Toda a roupa dele acabava de sair do alfaiate, e tudo estava bem, exceto, talvez, apenas pelo fato de que tudo era novo demais e denunciava demais um certo propósito. Até o elegante chapéu redondo, novinho em folha, dava testemunho desse propósito: Piotr Petróvitch tratava-o com um respeito exagerado e o segurava nas mãos com cuidado exagerado. Até o encantador par de luvas lilás, autênticas Jouvin, testemunhava a mesma coisa, nem que fosse só pelo fato de que não eram calçadas, mas apenas levadas na mão, para exibição. Na roupa de Piotr Petróvitch predominavam cores claras e juvenis. Ele vestia um bonito paletó de verão em tom castanho-claro, calças leves e claras, colete igual, roupa de baixo fina recém-comprada, uma gravatinha levíssima de cambraia com listras cor-de-rosa, e, o melhor de tudo, tudo aquilo até lhe caía bem. O rosto dele, bastante viçoso e até bonito, já parecia, sem isso, mais jovem que os seus quarenta e cinco anos. Suíças escuras sombreavam-no agradavelmente dos dois lados, à maneira de duas costeletas, e adensavam-se de modo muito bonito junto ao queixo, recém-barbeado e reluzente. Até os cabelos, aliás apenas levemente grisalhos, penteados e frisados no cabeleireiro, nem por essa circunstância apresentavam nada de ridículo ou de bobo, como costuma sempre acontecer com cabelos frisados, porque dão inevitavelmente ao rosto a semelhança de um alemão a caminho do altar. E, se havia algo de fato desagradável e repulsivo naquela fisionomia bastante bonita e respeitável, isso já vinha de outras causas. Depois de examinar sem cerimônia o senhor Lújin, Raskólnikov sorriu com veneno, tornou a afundar no travesseiro e voltou a olhar para o teto, como antes.

Mas o senhor Lújin se conteve e, ao que parece, resolveu não reparar, por ora, em todas aquelas esquisitices.

— Lamento muito, muitíssimo, encontrá-lo em tal estado — recomeçou ele, rompendo o silêncio com esforço. — Se soubesse da sua indisposição, teria vindo antes. Mas, sabe como é, os afazeres!… Além disso, tenho um caso muito importante, da minha área de advocacia, no Senado. Nem menciono as preocupações que o senhor mesmo há de adivinhar. Os seus, isto é, sua mamãe e sua irmãzinha, espero de uma hora para outra…1No Império Russo, o Senado funcionava também como a mais alta instância judicial do país.

Raskólnikov se mexeu e quis dizer alguma coisa; o rosto dele exprimiu certa agitação. Piotr Petróvitch fez uma pausa, esperou, mas, como nada se seguiu, continuou:

— …De uma hora para outra. Arranjei para elas, de início, um alojamento…

— Onde? — articulou Raskólnikov, com voz fraca.

— Bem perto daqui, no prédio de Bakaléiev…

— Isso fica na avenida Voznessiênski — interrompeu Razumíkhin. — Lá tem dois andares de quartos de aluguel; quem administra é o comerciante Iúchin; já estive lá.

— Sim, senhor, quartos de aluguel…

— Uma porcaria das piores: sujeira, fedor, e ainda por cima um lugar suspeito; já aconteceram umas coisas lá; e o diabo sabe quem mora ali!… Eu mesmo fui lá por causa de um escândalo. Mas é barato.

— Eu, claro, não pude reunir tantas informações, porque também sou novo por aqui — objetou Piotr Petróvitch, melindrado —, mas, enfim, são dois quartinhos muito, muito limpinhos, e, como é por um prazo muito curto… Já arranjei o nosso apartamento de verdade, isto é, o futuro — voltou-se ele para Raskólnikov —, e agora estão reformando; enquanto isso, eu mesmo me aperto em quartos alugados, a dois passos daqui, na casa da senhora Lippewechsel, no apartamento de um jovem amigo meu, Andrei Semiónytch Lebeziátnikov; foi ele mesmo que me indicou o prédio de Bakaléiev…

— Lebeziátnikov? — disse Raskólnikov devagar, como se tentasse lembrar alguma coisa.

— Sim, Andrei Semiónytch Lebeziátnikov, funcionário do ministério. O senhor o conhece?

— Sim… não… — respondeu Raskólnikov.

— Desculpe, pareceu-me pela sua pergunta. Fui tutor dele, certa época… um jovem muito simpático… e que acompanha as coisas… E eu gosto de conviver com a juventude: é por ela que se fica sabendo o que há de novo. — Piotr Petróvitch olhou para todos os presentes com esperança.

— Em que sentido? — perguntou Razumíkhin.

— No mais sério, por assim dizer, na própria essência da questão — retomou Piotr Petróvitch, como se tivesse ficado contente com a pergunta. — Eu, vejam bem, não visitava Petersburgo havia dez anos. Todas essas novidades nossas, reformas, ideias, tudo isso chegou a tocar também a nós, na província; mas, para ver com mais clareza e ver tudo, é preciso estar em Petersburgo. Pois bem, senhores, a minha ideia é justamente que o que mais se nota e se aprende é observando as nossas gerações jovens. E confesso: fiquei contente…

— Com o quê, exatamente?

— A sua pergunta é ampla. Posso estar enganado, mas tenho a impressão de encontrar uma visão mais clara, mais, por assim dizer, espírito crítico; mais senso prático…

— É verdade — disse Zossímov entre os dentes.

— Mentira sua, senso prático não há — agarrou-se Razumíkhin ao assunto. — Senso prático se adquire com dificuldade, não cai de graça do céu. E nós, há quase duzentos anos, fomos desacostumados de qualquer trabalho… Ideias, isso talvez até circulem — dirigiu-se ele a Piotr Petróvitch —, e há também desejo de fazer o bem, ainda que infantil; e até honestidade se encontra, apesar de que apareceu por aí uma infinidade de vigaristas; mas senso prático, mesmo assim, não há! O senso prático anda de botas.

— Não posso concordar com o senhor — objetou Piotr Petróvitch, com visível deleite. — Claro que há arrebatamentos, incorreções, mas é preciso também ser indulgente: os arrebatamentos atestam o ardor pela causa e as condições externas incorretas em que a causa se encontra. E, se pouco foi feito, é porque também houve pouco tempo. Dos meios, nem falo. Mas, na minha opinião pessoal, se quiserem, até alguma coisa foi feita: difundiram-se ideias novas e úteis, difundiram-se algumas obras novas e úteis, no lugar das antigas, sonhadoras e romanescas; a literatura vai ganhando um tom mais maduro; muitos preconceitos nocivos foram extirpados e ridicularizados… Numa palavra, nós nos separamos irremediavelmente do passado, e isso, a meu ver, já é alguma coisa, senhores…

— Decorou a lição! Está se recomendando — disse de repente Raskólnikov.

— Como, senhor? — perguntou Piotr Petróvitch, que não ouvira bem, mas não obteve resposta.

— Tudo isso é justo — apressou-se em intervir Zossímov.

— Não é verdade, senhor? — continuou Piotr Petróvitch, lançando a Zossímov um olhar amável. — Há de concordar — prosseguiu ele, dirigindo-se a Razumíkhin, mas já com uma ponta de certo triunfo e superioridade, e por pouco não acrescentou “meu jovem” — que existe um avanço, ou, como se diz agora, progresso, nem que seja em nome da ciência e da verdade econômica…

— Lugar-comum!

— Não, não é lugar-comum, meu senhor! Se, por exemplo, até agora me diziam: “ama”, e eu amava, o que resultava disso? — continuou Piotr Petróvitch, talvez com pressa excessiva. — Resultava que eu rasgava o cafetã ao meio, dividia-o com o próximo, e nós dois ficávamos meio nus, conforme o provérbio russo: “Quem corre atrás de várias lebres ao mesmo tempo não alcança nenhuma.” Já a ciência diz: ama, antes de todos, só a ti mesmo, porque tudo no mundo se baseia no interesse pessoal. Se amares só a ti mesmo, conduzirás os teus negócios como se deve, e o teu cafetã ficará inteiro. E a verdade econômica acrescenta que, quanto mais negócios particulares bem arranjados houver numa sociedade e, por assim dizer, quanto mais cafetãs inteiros, tanto mais bases firmes ela terá e tanto melhor se organiza nela também a causa comum. Portanto, adquirindo única e exclusivamente para mim, eu, justamente por isso, adquiro como que para todos e contribuo para que o próximo receba um pouco mais que um cafetã rasgado, e já não por generosidades particulares, isoladas, mas em consequência do progresso geral. Uma ideia simples, mas que, por infelicidade, demorou demais a chegar, encoberta pelo entusiasmo e pelo devaneio, quando, pelo visto, não é preciso muita perspicácia para percebê-la…

— Desculpe, eu também não sou perspicaz — interrompeu Razumíkhin com rispidez —, e por isso vamos parar. Eu puxei essa conversa com um objetivo, porque toda essa tagarelice para consolo próprio, todos esses lugares-comuns incessantes, ininterruptos, e sempre a mesma coisa, e sempre a mesma coisa, me deram tanto nojo nesses três anos que, juro por Deus, eu fico vermelho quando os outros, nem digo eu, falam isso na minha frente. O senhor, naturalmente, teve pressa de se apresentar com os seus conhecimentos, isso é muito perdoável, e eu não condeno. Eu só queria saber agora quem é o senhor, porque, veja bem, à causa comum, nos últimos tempos, se agarraram tantos aproveitadores de toda espécie, e deformaram a tal ponto, em proveito próprio, tudo aquilo em que tocaram, que emporcalharam decididamente a causa inteira. Pois bem, senhor, e chega!

— Prezado senhor — começou o senhor Lújin, melindrando-se com extraordinária dignidade —, será que o senhor quer, assim tão sem cerimônia, dar a entender que eu também…

— Oh, ora essa, ora essa… Eu lá seria capaz?… Pois bem, senhor, e chega! — cortou Razumíkhin, e virou-se bruscamente para Zossímov, para continuar a conversa de antes.

Piotr Petróvitch mostrou-se inteligente o bastante para acreditar imediatamente na explicação. De todo modo, resolveu ir embora dali a dois minutos.

— Espero que o nosso conhecimento, agora iniciado — dirigiu-se ele a Raskólnikov —, depois do seu restabelecimento e em vista das circunstâncias que o senhor conhece, se fortaleça ainda mais… Desejo-lhe sobretudo saúde…

Raskólnikov nem sequer virou a cabeça. Piotr Petróvitch começou a se levantar da cadeira.

— Então o assassino foi com certeza um dos clientes, alguém que penhorava coisas com ela? — dizia Zossímov, em tom de afirmação.

— Com certeza, um cliente! — confirmou Razumíkhin. — O Porfíri não revela o que pensa, mas mesmo assim está interrogando os clientes…

— Interrogando os clientes? — perguntou Raskólnikov em voz alta.

— Sim, e daí?

— Nada.

— E de onde ele os tira? — perguntou Zossímov.

— Alguns foram indicados por Koch; os nomes de outros estavam anotados nos embrulhos dos objetos, e alguns vieram por conta própria, quando ficaram sabendo…

— Pois deve ser um canalha bem hábil e experiente! Que ousadia! Que determinação!

— Pois é justamente isso, que não é! — interrompeu Razumíkhin. — É isso que despista todos vocês. E eu digo: inábil, inexperiente, e com certeza era o primeiro passo! Suponha cálculo e um canalha hábil, e o resultado é inverossímil. Mas suponha um inexperiente, e o resultado é que só o acaso o tirou da enrascada; e o que o acaso não faz? Ora, por favor, ele talvez nem tivesse previsto os obstáculos! E como ele conduz a coisa? Pega objetos de dez, vinte rublos, enche os bolsos com eles, revira o baú da mulher, os trapos, e na cômoda, na gaveta de cima, numa caixinha, encontraram mil e quinhentos rublos só em dinheiro vivo, sem contar os títulos! Nem roubar ele soube, só soube matar! Primeiro passo, estou dizendo, primeiro passo; perdeu a cabeça! E escapou não por cálculo, mas por acaso!

— Parece que se trata do recente assassinato da velha viúva de funcionário — interveio Piotr Petróvitch, dirigindo-se a Zossímov, já de pé, com o chapéu e as luvas na mão, mas querendo, antes de sair, ainda lançar algumas palavras inteligentes. Visivelmente, empenhava-se em causar uma impressão vantajosa, e a vaidade venceu a prudência.

— Sim. O senhor ouviu falar?

— Como não, senhor, aqui na vizinhança…

— Conhece os detalhes?

— Não posso dizer que sim; mas o que me interessa nisso é outra circunstância, por assim dizer, toda uma questão. Nem falo do fato de que os crimes na classe baixa aumentaram nos últimos cinco anos; nem falo dos roubos e incêndios por toda parte e sem parar; o mais estranho para mim é que os crimes também nas classes altas aumentam da mesma maneira e, por assim dizer, paralelamente. Ali, dizem, um ex-estudante assaltou o correio na estrada; ali, pessoas avançadas pela posição social fabricam papéis falsos; ali, em Moscou, apanham todo um bando de falsificadores de títulos do último empréstimo com sorteio, e entre os principais participantes há um professor de história universal; ali matam um secretário nosso no estrangeiro, por um motivo de dinheiro e misterioso… E se agora essa velha usurária foi morta por um dos clientes que penhoravam com ela, então quer dizer que também esse era um homem de uma sociedade mais alta, porque os mujiques não penhoram objetos de ouro; e então como explicar, por um lado, essa devassidão da parte civilizada da nossa sociedade?

— Há muitas mudanças econômicas… — respondeu Zossímov.

— Como explicar? — agarrou-se Razumíkhin. — Pois justamente pela falta de senso prático, arraigada demais, é que se poderia explicar.

— Como assim, senhor?

— Pois o que respondeu em Moscou esse seu professor, quando lhe perguntaram por que falsificava títulos? “Todo mundo enriquece de várias maneiras, e eu também quis enriquecer depressa.” As palavras exatas eu não lembro, mas o sentido era: de graça, depressa, sem esforço! Acostumaram-se a viver com tudo pronto, a andar seguros pelas andadeiras dos outros, a comer comida já mastigada. Pois bem, e quando soou a grande hora, aí cada um mostrou o que era…

— Mas, no entanto, e a moral? E, por assim dizer, os princípios…

— Mas com o que o senhor está se preocupando? — interveio inesperadamente Raskólnikov. — Saiu conforme a sua própria teoria!

— Como assim, conforme a minha teoria?

— Ora, leve até as últimas consequências o que o senhor pregava há pouco, e o resultado vai ser que se pode degolar gente…

— Ora, por favor! — exclamou Lújin.

— Não, não é bem assim! — retrucou Zossímov.

Raskólnikov estava deitado, pálido, com o lábio superior estremecendo, e respirava com dificuldade.

— Tudo tem medida — continuou Lújin, com altivez. — Uma ideia econômica ainda não é um convite ao assassinato, e se apenas supusermos…

— E é verdade que o senhor — interrompeu de novo Raskólnikov, de repente, com uma voz trêmula de raiva, na qual se ouvia uma espécie de alegria da ofensa —, é verdade que o senhor disse à sua noiva… na mesma hora em que recebeu dela o consentimento, que o que mais o alegrava era… que ela fosse pobre… porque é mais vantajoso tirar a esposa da miséria, para depois mandar nela… e jogar na cara dela que foi o senhor que a cobriu de benefícios?…

— Prezado senhor! — exclamou Lújin, com raiva e irritação, todo vermelho e perturbado. — Prezado senhor… deturpar assim uma ideia! Desculpe-me, mas devo lhe dizer que os boatos que chegaram ao senhor, ou, melhor dizendo, que fizeram chegar ao senhor, não têm nem sombra de fundamento sensato, e eu… desconfio de quem… numa palavra… essa flecha… numa palavra, sua mamãe… Ela já me tinha parecido, aliás, com todas as suas excelentes qualidades, de pensamento um tanto exaltado e romanesco… Mas eu, ainda assim, estava a mil verstas de supor que ela pudesse entender e apresentar a coisa de forma tão deturpada pela fantasia… E, por fim… por fim…

— Quer saber de uma coisa? — exclamou Raskólnikov, erguendo-se no travesseiro e encarando-o com um olhar penetrante e faiscante. — Quer saber?

— O quê, senhor? — Lújin parou e ficou esperando, com ar ofendido e desafiador. O silêncio durou alguns segundos.

— Que, se o senhor mais uma vez… ousar mencionar uma palavra que seja… sobre a minha mãe… eu jogo o senhor escada abaixo, rolando!

— O que deu em você?! — gritou Razumíkhin.

— Ah, então é isso, senhor! — Lújin empalideceu e mordeu o lábio. — Escute-me, senhor — começou ele, pausadamente, contendo-se com todas as forças, mas, ainda assim, ofegante —, eu já há pouco, desde o primeiro passo, adivinhei a sua antipatia, mas fiquei aqui de propósito, para saber ainda mais. Muita coisa eu poderia perdoar a um doente e parente, mas agora… ao senhor… nunca, senhor…

— Eu não estou doente! — exclamou Raskólnikov.

— Tanto mais, senhor…

— Vá para o diabo!

Mas Lújin já estava saindo por conta própria, sem terminar o que dizia, espremendo-se de novo entre a mesa e a cadeira; Razumíkhin, desta vez, levantou-se para deixá-lo passar. Sem olhar para ninguém e sem sequer acenar com a cabeça para Zossímov, que já fazia tempo lhe acenava para que deixasse o doente em paz, Lújin saiu, erguendo o chapéu por precaução à altura do ombro quando, inclinando-se, passou pela porta. E até na curva das suas costas parecia se exprimir, nessa ocasião, que ele levava consigo uma ofensa terrível.

— Isso é coisa que se faça, isso é coisa que se faça? — dizia Razumíkhin, perplexo, balançando a cabeça.

— Deixem, deixem-me todos! — gritou Raskólnikov, fora de si. — Será que vocês vão me deixar em paz finalmente, seus carrascos! Eu não tenho medo de vocês! Eu não tenho medo de ninguém, de ninguém agora! Fora daqui! Quero ficar sozinho, sozinho, sozinho, sozinho!

— Vamos! — disse Zossímov, fazendo sinal com a cabeça para Razumíkhin.

— Ora, por favor, como é que se pode deixá-lo assim?

— Vamos! — repetiu Zossímov com insistência e saiu. Razumíkhin pensou um pouco e correu para alcançá-lo.

— Poderia ser pior se não o obedecêssemos — disse Zossímov, já na escada. — Irritá-lo é impossível…

— O que ele tem?

— Se ao menos houvesse algum estímulo favorável para ele, isso sim! Há pouco ele estava com forças… Sabe, ele tem alguma coisa na cabeça! Alguma coisa fixa, que pesa nele… É disso que eu tenho muito medo; com certeza!

— Pois talvez seja esse senhor, o tal Piotr Petróvitch! Pela conversa, dá para ver que ele vai se casar com a irmã dele e que o Ródia recebeu uma carta sobre isso bem antes de adoecer…

— Sim; foi o diabo que o trouxe agora; talvez tenha estragado tudo. E você reparou que ele é indiferente a tudo, não responde a nada, exceto a um único ponto, que o tira do sério: esse assassinato…

— Sim, sim! — confirmou Razumíkhin. — Reparei muito bem! Ele se interessa, se assusta. Foi no próprio dia em que adoeceu que o assustaram com isso, na delegacia, na sala do inspetor; ele desmaiou.

— Você me conta isso com mais detalhes à noite, e depois eu também lhe digo uma coisa. Ele me interessa, muito! Daqui a meia hora eu passo para ver como está… Inflamação, aliás, não vai haver…

— Obrigado! E eu, enquanto isso, espero na casa da Páchenka e fico observando por meio da Nastássia…

Raskólnikov, ao ficar sozinho, olhou para Nastássia com impaciência e angústia; mas ela ainda demorava a sair.

— E o chá, vai tomar agora? — perguntou ela.

— Depois! Quero dormir! Me deixe…

Ele se virou convulsivamente para a parede; Nastássia saiu.

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