Crime e CastigoParte quatro · Capítulo IV

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Crime e Castigo · Parte quatro

Capítulo IV

36 min de narração · 3 notas

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Já Raskólnikov foi direto ao prédio à beira do canal onde Sônia morava. Era um prédio de três andares, velho, pintado de verde. Ele conseguiu encontrar o porteiro e obteve dele indicações vagas sobre onde morava Kapernaúmov, o alfaiate. Depois de achar, num canto do pátio, a entrada de uma escada estreita e escura, subiu enfim ao segundo andar e saiu numa galeria que contornava o andar pelo lado do pátio. Enquanto ele vagava no escuro, sem saber onde poderia ficar a entrada da casa de Kapernaúmov, de repente, a três passos dele, abriu-se uma porta; ele a agarrou maquinalmente.

— Quem está aí? — perguntou, alarmada, uma voz de mulher.

— Sou eu… vim ver a senhora — respondeu Raskólnikov, e entrou numa antessala minúscula. Ali, sobre uma cadeira de assento afundado, num castiçal de cobre torto, havia uma vela.

— É o senhor! Meu Deus! — exclamou Sônia com voz fraca, e ficou plantada onde estava.

— Onde é o seu quarto? Por aqui?

E Raskólnikov, procurando não olhar para ela, passou depressa para o quarto.

Um minuto depois, Sônia também entrou com a vela, pousou-a e ficou de pé diante dele, completamente desnorteada, toda tomada por uma agitação indescritível e, pelo visto, assustada com a visita inesperada. De repente o sangue subiu ao seu rosto pálido, e até lágrimas lhe vieram aos olhos… Era-lhe ao mesmo tempo penoso, vergonhoso e doce… Raskólnikov virou-se depressa e sentou-se numa cadeira junto à mesa. De relance, conseguiu abarcar o quarto com o olhar.

Era um quarto grande, mas extremamente baixo, o único que os Kapernaúmov alugavam, e a porta trancada que dava para a casa deles ficava na parede da esquerda. Do lado oposto, na parede da direita, havia ainda outra porta, sempre trancada a sete chaves. Dali em diante já era outro apartamento, vizinho, com outro número. O quarto de Sônia lembrava um pouco um galpão, tinha a forma de um quadrilátero muito irregular, e isso lhe dava algo de disforme. A parede com três janelas, que dava para o canal, cortava o quarto meio de viés, de modo que um dos cantos, terrivelmente agudo, fugia para algum lugar lá no fundo, tanto que, com a luz fraca, nem se conseguia distingui-lo direito; o outro canto, por sua vez, era obtuso de um jeito feio demais. Em todo aquele quarto grande quase não havia móveis. No canto, à direita, ficava a cama; ao lado dela, mais perto da porta, uma cadeira. Junto à mesma parede da cama, bem rente à porta do apartamento alheio, havia uma mesa simples de tábuas, coberta com uma toalhinha azul; perto da mesa, duas cadeiras de vime. Depois, junto à parede oposta, perto do canto agudo, havia uma pequena cômoda de madeira simples, como que perdida no vazio. Era tudo o que havia no quarto. O papel de parede amarelado, gasto e surrado, tinha escurecido em todos os cantos; ali devia ser úmido no inverno e cheio da fumaça das estufas. A pobreza estava à vista; nem a cama tinha cortinado.

Sônia olhava em silêncio para o visitante, que examinava o quarto dela com tanta atenção e sem cerimônia, e acabou até começando a tremer de medo, como se estivesse diante do juiz e árbitro do seu destino.

— Vim tarde… Já são onze horas? — perguntou ele, ainda sem levantar os olhos para ela.

— São — balbuciou Sônia. — Ah, sim, são! — apressou-se ela de repente, como se nisso estivesse toda a sua saída. — O relógio dos senhorios acabou de bater… eu mesma ouvi… São, sim.

— Vim vê-la pela última vez — continuou Raskólnikov, sombrio, embora agora fosse apenas a primeira —, talvez eu não a veja mais…

— O senhor… vai viajar?

— Não sei… tudo amanhã…

— Então o senhor não vai amanhã à casa de Katerina Ivánovna? — a voz de Sônia estremeceu.

— Não sei. Tudo amanhã de manhã… Não é disso que se trata: vim lhe dizer uma palavra…

Ergueu para ela o olhar pensativo e de repente notou que ele estava sentado, enquanto ela continuava de pé à sua frente.

— Por que está de pé? Sente-se — disse ele de repente, com a voz mudada, baixa e carinhosa.

Ela se sentou. Ele a olhou por um minuto, com afabilidade e quase com compaixão.

— Como a senhora é magrinha! Veja só essa mão! Transparente. Dedos de morta.

Ele pegou a mão dela. Sônia deu um sorriso fraco.

— Eu sempre fui assim — disse ela.

— Mesmo quando morava em casa?

— Sim.

— Ah, mas é claro! — disse ele bruscamente, e a expressão do seu rosto e o som da sua voz de novo mudaram de repente. Mais uma vez ele olhou em volta.

— É de Kapernaúmov que a senhora aluga?

— Sim, senhor…

— Eles estão ali, atrás da porta?

— Sim… Eles também têm um quarto igualzinho a este.

— Todos num só?

— Num só, senhor.

— Eu teria medo neste seu quarto, à noite — observou ele, sombrio.

— Os senhorios são muito bons, muito carinhosos — respondeu Sônia, ainda como que sem ter voltado a si e sem entender direito —, e todos os móveis, e tudo… tudo é dos senhorios. E eles são muito bondosos, e as crianças também vêm sempre me ver…

— Esses de língua enrolada?

— Sim, senhor… Ele gagueja, e também manca. E a mulher também… Não que gagueje, mas é como se não conseguisse pronunciar tudo. Ela é boa, muito. E ele foi servo de uma casa senhorial. E são sete filhos… e só o mais velho gagueja, os outros são simplesmente doentes… mas não gaguejam… E como o senhor sabe deles? — acrescentou ela, com certa surpresa.

— Seu pai me contou tudo, daquela vez. Contou-me tudo sobre a senhora… Contou que a senhora saiu às seis horas e voltou depois das oito, e que Katerina Ivánovna ficou de joelhos junto à sua cama.

Sônia ficou perturbada.

— Hoje foi como se eu o tivesse visto — sussurrou ela, indecisa.

— Quem?

— Meu pai. Eu ia pela rua, ali perto, na esquina, depois das nove, e parecia que ele ia andando na minha frente. E era igualzinho a ele. Eu já queria passar na casa de Katerina Ivánovna…

— A senhora estava passeando?

— Sim — sussurrou Sônia bruscamente, de novo perturbada e baixando os olhos.

— Katerina Ivánovna quase batia na senhora, não é, lá na casa do seu pai?

— Ah, não, que é isso, que é isso, não! — Sônia olhou para ele até com uma espécie de susto.

— Então a senhora gosta dela?

— Dela? Mas co-o-omo não! — disse Sônia, arrastando a voz em tom de queixa e juntando de repente as mãos, com sofrimento. — Ah! o senhor a… Se o senhor soubesse. Ela é igualzinha a uma criança… A cabeça dela está toda transtornada… de desgosto. E como ela era inteligente… como era generosa… como era boa! O senhor não sabe nada, nada… ah!

Sônia disse isso como que em desespero, agitada e sofrendo, torcendo as mãos. As faces pálidas de novo se inflamaram, nos olhos exprimiu-se um tormento. Via-se que tinham mexido com muita coisa dentro dela, que ela tinha uma vontade terrível de exprimir alguma coisa, de dizer, de defender. Uma compaixão insaciável, se é que se pode dizer assim, desenhou-se de repente em todos os traços do seu rosto.

— Batia! Mas que é isso! Meu Deus, batia! E ainda que batesse, e daí? Pois e daí? O senhor não sabe nada, nada… Ela é tão infeliz, ah, tão infeliz! E doente… Ela procura a justiça… Ela é pura. Acredita tanto que em tudo deve haver justiça, e exige… E pode torturá-la, que ela não comete uma injustiça. Nem percebe que é impossível tudo ser justo entre as pessoas, e se irrita… Como uma criança, como uma criança! Ela é justa, justa!

— E o que vai ser da senhora?

Sônia olhou para ele, interrogativa.

— Afinal, eles ficaram nas suas costas. É verdade que antes também tudo estava nas suas costas, e o falecido vinha à senhora pedir dinheiro para curar a ressaca. Pois bem, e agora, o que vai ser?

— Não sei — disse Sônia, triste.

— Eles vão continuar lá?

— Não sei, eles estão devendo naquele apartamento; e parece que hoje a senhoria disse que quer despejá-los, e Katerina Ivánovna diz que ela mesma não fica lá nem mais um minuto.

— E de onde ela tira tanta valentia? Está contando com a senhora?

— Ah, não, não fale assim!… Nós somos uma coisa só, vivemos juntas — de repente Sônia se agitou de novo e até se irritou, exatamente como se uma canarinha ou algum outro passarinho ficasse zangado. — E o que ela vai fazer? Diga, o que, o que ela vai fazer? — perguntava, exaltando-se e agitando-se. — E quanto, quanto ela chorou hoje! A cabeça dela está se transtornando, o senhor não notou? Está, sim; ora se aflige, como uma menina, para que amanhã tudo saia decente, que tenha petiscos e tudo… ora torce as mãos, escarra sangue, chora, de repente começa a bater a cabeça na parede, como em desespero. E depois se consola de novo, conta sempre com o senhor: diz que agora o senhor é quem vai ajudá-la, e que ela vai pegar algum dinheiro emprestado em algum lugar e ir para a cidade dela, comigo, e abrir um pensionato para moças nobres, e me pôr de inspetora, e que vai começar para nós uma vida completamente nova, maravilhosa, e me beija, me abraça, me consola, e acredita tanto! acredita tanto nessas fantasias! E como é que se pode contrariá-la? E ela mesma passou o dia inteiro hoje lavando, limpando, remendando, arrastou sozinha a tina para dentro do quarto, com aquela forcinha fraca dela, ficou sem fôlego e caiu na cama; e de manhã ainda fomos juntas às bancas do mercado, comprar sapatinhos para Polietchka e para Lênia, porque os delas estão todos se desmanchando, só que o dinheiro não deu pela conta, faltou muito, e ela tinha escolhido umas botinhas tão bonitinhas, porque ela tem gosto, o senhor não sabe… Ali mesmo na loja começou a chorar, na frente dos comerciantes, porque o dinheiro não dava… Ah, que pena dava de ver.

— Pois então se entende que a senhora… viva assim — disse Raskólnikov, com um sorriso amargo.

— E o senhor não tem pena? Não tem pena? — exaltou-se Sônia outra vez. — O senhor mesmo, eu sei, deu o último dinheiro que tinha, sem ter visto nada ainda. E se tivesse visto tudo, ó meu Deus! E quantas, quantas vezes eu a fiz chorar! Ainda na semana passada! Ai de mim! Só uma semana antes da morte dele. Fui cruel! E quantas, quantas vezes eu fiz isso. Ah, como doeu ficar lembrando disso o dia inteiro hoje!

Sônia até torcia as mãos enquanto falava, com a dor da lembrança.

— A senhora, cruel?

— Sim, eu, eu! Eu cheguei daquela vez — continuava ela, chorando —, e o falecido me diz: “Lê para mim, Sônia”, diz ele, “estou com dor de cabeça, lê para mim… aqui está o livro”; era um livro qualquer que ele tinha arranjado com Andrei Semiónovitch, com Lebeziátnikov, que mora aqui, ele sempre arranjava uns livros engraçados assim. E eu digo: “Tenho que ir embora”, e não quis ler, e eu tinha passado lá principalmente para mostrar umas golinhas a Katerina Ivánovna; Lizavieta, a vendedora, tinha me trazido golinhas e punhozinhos baratos, bonitinhos, novinhos e bordados. E Katerina Ivánovna gostou muito deles, vestiu e se olhou no espelho, e gostou muito, muito: “Me dá de presente, Sônia”, diz ela, “por favor”. Pediu por favor, e queria tanto. E onde é que ela ia usar! Era só isso: só lhe veio à lembrança o tempo de antes, o tempo feliz! Ela se olha no espelho, se admira, e não tem vestido nenhum, nenhum, não tem coisa nenhuma, há tantos anos já! E nunca pede nada a ninguém; é orgulhosa, prefere dar o último que tem, e daquela vez pediu — de tanto que gostou! E eu fiquei com pena de dar: “Para que a senhora quer isso, Katerina Ivánovna?”, eu disse. Disse assim mesmo: “para quê”. Isso eu não devia ter dito a ela! Ela me olhou de um jeito, e ficou tão pesado, tão pesado para ela eu ter recusado, e dava tanta pena de ver… E não era pelas golinhas que lhe pesava, era por eu ter recusado, eu vi. Ah, parece que agora eu desfaria tudo, refaria tudo, todas aquelas palavras de antes… Ah, eu… mas para quê!… para o senhor tanto faz!

— Essa Lizavieta, a vendedora, a senhora a conhecia?

— Sim… E o senhor também conhecia? — perguntou Sônia por sua vez, com certa surpresa.

— Katerina Ivánovna está com tísica, uma tísica maligna; logo vai morrer — disse Raskólnikov, depois de um silêncio, sem responder à pergunta.

— Ah, não, não, não! — E Sônia, num gesto inconsciente, agarrou-lhe as duas mãos, como que suplicando que não.

— Mas é melhor, se ela morrer.

— Não, não é melhor, não é melhor, não é nada melhor! — repetia ela, assustada e sem se dar conta.

— E as crianças? Para onde a senhora vai levá-las então, senão para a sua casa?

— Ah, eu não sei! — exclamou Sônia, quase em desespero, e levou as mãos à cabeça. Via-se que esse pensamento já lhe passara pela cabeça muitas e muitas vezes, e ele apenas o fizera levantar voo de novo.

— E se a senhora, ainda com Katerina Ivánovna viva, ficar doente agora e a levarem para o hospital, o que vai acontecer? — insistia ele, sem piedade.

— Ah, que é isso, que é isso! Isso não pode acontecer! — e o rosto de Sônia se contorceu num susto terrível.

— Como não pode? — continuou Raskólnikov, com um sorriso duro. — A senhora não tem seguro, tem? Então o que vai ser deles? Vão para a rua, o bando inteiro, ela vai tossir e pedir esmola, e bater a cabeça em alguma parede, como hoje, e as crianças vão chorar… E depois ela cai, levam-na para a delegacia, para o hospital, ela morre, e as crianças…

— Ah, não!… Deus não vai permitir isso! — escapou enfim do peito oprimido de Sônia. Ela escutava, olhando para ele com súplica e juntando as mãos num pedido mudo, como se tudo dependesse dele.

Raskólnikov levantou-se e começou a andar pelo quarto. Passou-se um minuto. Sônia estava de pé, de braços caídos e cabeça baixa, numa angústia terrível.

— E não dá para economizar? Guardar para os dias ruins? — perguntou ele, parando de repente diante dela.

— Não — sussurrou Sônia.

— Claro que não! E já tentou? — acrescentou ele, quase com zombaria.

— Já.

— E não deu certo! Ora, é claro! Nem precisava perguntar!

E de novo ele se pôs a andar pelo quarto. Passou-se mais um minuto.

— Não ganha todo dia, não é?

Sônia ficou mais perturbada do que antes, e o sangue de novo lhe subiu ao rosto.

— Não — sussurrou ela, com um esforço doloroso.

— Com Polietchka, decerto, vai acontecer a mesma coisa — disse ele de repente.

— Não! não! Não pode ser, não! — gritou Sônia bem alto, como uma desesperada, como se de repente a tivessem ferido com uma faca. — Deus, Deus não vai permitir um horror desses!…

— Mas com as outras permite.

— Não, não! A ela Deus vai proteger, Deus!… — repetia ela, fora de si.

— Pois talvez Deus nem exista — respondeu Raskólnikov, até com uma espécie de prazer maldoso; riu e olhou para ela.

O rosto de Sônia mudou de repente, terrivelmente: convulsões passaram por ele. Ela lhe lançou um olhar de censura indizível, quis dizer alguma coisa, mas não conseguiu pronunciar nada, e só desatou de repente num pranto amargo, muito amargo, cobrindo o rosto com as mãos.

— A senhora diz que a cabeça de Katerina Ivánovna está se transtornando; a sua própria cabeça está se transtornando — disse ele, depois de algum silêncio.

Passaram-se uns cinco minutos. Ele continuava andando para lá e para cá, calado e sem olhar para ela. Por fim aproximou-se dela; os olhos dele faiscavam. Pegou-a pelos ombros com as duas mãos e olhou de frente para o seu rosto em lágrimas. O olhar dele era seco, inflamado, agudo, os lábios tremiam com força… De repente ele se inclinou todo, rapidamente, e, curvando-se até o chão, beijou-lhe o pé. Sônia recuou dele horrorizada, como de um louco. E, de fato, ele tinha o ar de um louco completo.

— Que é isso, o que o senhor está fazendo? Diante de mim! — balbuciou ela, empalidecendo, e de repente o coração se lhe apertou, doendo muito.

Ele se levantou no mesmo instante.

— Não foi a você que eu me curvei, eu me curvei a todo o sofrimento humano — disse ele, de um jeito meio selvagem, e afastou-se para a janela. — Escute — acrescentou, voltando para junto dela um minuto depois —, ainda há pouco eu disse a um ofensor que ele não valia o seu dedo mindinho… e que hoje eu tinha feito uma honra à minha irmã, ao fazê-la sentar-se ao seu lado.

— Ah, o que o senhor foi dizer a eles! E na frente dela? — exclamou Sônia, assustada. — Sentar comigo! Honra! Mas eu sou… uma desonrada… eu sou uma grande, uma grande pecadora! Ah, o que o senhor foi dizer!

— Não foi pela desonra nem pelo pecado que eu disse isso de você, mas pelo seu grande sofrimento. E que você é uma grande pecadora, isso é verdade — acrescentou ele, quase em êxtase —, e você é pecadora sobretudo porque se matou e se entregou em vão. Claro que isso é um horror! Claro que é um horror você viver nesta lama que tanto odeia e, ao mesmo tempo, saber você mesma (basta abrir os olhos) que com isso não ajuda ninguém e não salva ninguém de nada! Mas me diga enfim — disse ele, quase em frenesi —, como é que essa vergonha e essa baixeza convivem em você ao lado de outros sentimentos, opostos e sagrados? Pois seria mais justo, mil vezes mais justo e mais sensato, atirar-se de cabeça na água e acabar com tudo de uma vez!

— E o que vai ser deles? — perguntou Sônia com voz fraca, lançando-lhe um olhar sofrido, mas ao mesmo tempo como se nem tivesse se surpreendido com a proposta dele. Raskólnikov olhou-a de um jeito estranho.

Ele leu tudo naquele único olhar dela. Então ela mesma, de fato, já tinha tido esse pensamento. Talvez muitas vezes, e a sério, ela tivesse pensado, no desespero, em como acabar com tudo de uma vez, e tão a sério que agora quase nem se surpreendeu com a proposta dele. Nem sequer notou a crueldade das suas palavras (o sentido das censuras dele e a sua visão particular da vergonha dela, é claro que ela também não notou, e isso era visível para ele). Mas ele compreendeu plenamente a que dor monstruosa o pensamento da sua situação desonrosa e vergonhosa a tinha dilacerado, e já fazia muito tempo. O que, o que poderia, pensava ele, ter detido até agora a sua decisão de acabar com tudo de uma vez? E só então ele compreendeu plenamente o que significavam para ela aquelas pobres criancinhas órfãs e aquela lastimável, meio louca Katerina Ivánovna, com a sua tísica e as suas batidas de cabeça na parede.

Mas, apesar disso, para ele estava de novo claro que Sônia, com o seu caráter e com a instrução que, apesar de tudo, tinha recebido, de modo nenhum poderia continuar assim. Mesmo assim, para ele era uma questão: por que ela pudera ficar tanto tempo, tempo demais, nessa situação sem enlouquecer, se não tinha forças para se atirar na água? Claro, ele entendia que a situação de Sônia era um fenômeno casual na sociedade, embora, infelizmente, nada isolado nem excepcional. Mas essa mesma casualidade, essa certa instrução e toda a sua vida anterior poderiam, ao que parece, tê-la matado de uma vez, ao primeiro passo naquele caminho repugnante. O que a sustentava? Não seria a devassidão? Pois essa vergonha, evidentemente, só a tocara de forma mecânica; a verdadeira devassidão ainda não tinha penetrado nem uma gota no seu coração: ele via isso; ela estava ali, diante dele, em carne e osso…

“Ela tem três caminhos”, pensava ele, “atirar-se no canal, ir parar num hospício, ou… ou, por fim, atirar-se na devassidão, que entorpece a mente e petrifica o coração.” Este último pensamento era-lhe o mais repugnante de todos; mas ele já era um cético, era jovem, abstrato e, portanto, cruel, e por isso não podia deixar de acreditar que a última saída, isto é, a devassidão, era a mais provável.

“Mas será possível que isso seja verdade”, exclamou ele consigo mesmo, “será possível que também esta criatura, que ainda conservou a pureza de espírito, acabe por se deixar arrastar conscientemente para essa cova nojenta e fétida? Será que esse arrastar já começou, e será que ela só conseguiu aguentar até agora porque o vício já não lhe parece tão repugnante? Não, não, não pode ser!”, exclamava ele, como Sônia ainda há pouco, “não, o que a retinha até agora longe do canal era a ideia do pecado, e eles, aqueles… E se até agora ela ainda não enlouqueceu… Mas quem disse que ela já não enlouqueceu? Por acaso ela está em seu juízo perfeito? Por acaso se pode falar como ela fala? Por acaso, em juízo perfeito, se pode raciocinar como ela? Por acaso se pode ficar sentada assim à beira da perdição, bem em cima da cova fétida que já a está arrastando, e abanar as mãos e tapar os ouvidos quando lhe falam do perigo? O que ela está esperando, um milagre? Com certeza é isso. Por acaso tudo isso não são sinais de loucura?”

Ele se deteve com obstinação nesse pensamento. Essa saída lhe agradava até mais do que qualquer outra. Começou a observá-la com mais atenção.

— Então você reza muito a Deus, Sônia? — perguntou ele.

Sônia ficou calada; ele estava de pé ao lado dela, esperando a resposta.

— O que eu seria sem Deus? — sussurrou ela depressa, com energia, lançando-lhe de relance um olhar de olhos que faiscaram de repente, e apertou com força a mão dele.

“Pois é isso mesmo!”, pensou ele.

— E o que Deus faz por você em troca? — perguntou ele, sondando mais.

Sônia ficou muito tempo calada, como se não pudesse responder. O peito fraco dela arfava todo de emoção.

— Cale-se! Não pergunte! O senhor não é digno!… — gritou ela de repente, olhando para ele com severidade e ira.

“É isso mesmo! é isso mesmo!”, repetia ele consigo, com insistência.

— Faz tudo! — sussurrou ela depressa, baixando de novo os olhos.

“Aí está a saída! Aí está a explicação da saída!”, concluiu ele consigo, examinando-a com uma curiosidade ávida.

Com um sentimento novo, estranho, quase doentio, ele contemplava aquele rostinho pálido, magro, de traços irregulares e angulosos, aqueles olhos azuis e mansos, capazes de faiscar com tamanho fogo, com um sentimento tão severo e enérgico, aquele corpo pequeno, ainda trêmulo de indignação e ira, e tudo isso lhe parecia cada vez mais estranho, quase impossível. “Uma louca de Deus! uma louca de Deus!”, repetia ele consigo.1Na Rússia, o iuródivy, ou “louco por Cristo”, era alguém tido por desatinado, que vivia na pobreza e a quem o povo atribuía santidade e proximidade com Deus.

Sobre a cômoda havia um livro qualquer. Toda vez que passava de lá para cá, ele o notava; agora o pegou e olhou. Era o Novo Testamento em tradução russa. O livro era velho, usado, com encadernação de couro.

— De onde veio isto? — gritou ele para ela, do outro lado do quarto. Ela continuava no mesmo lugar, a três passos da mesa.

— Trouxeram para mim — respondeu ela, como que de má vontade e sem olhar para ele.

— Quem trouxe?

— Lizavieta trouxe, eu pedi.

“Lizavieta! Estranho!”, pensou ele. Tudo em Sônia se tornava para ele, a cada minuto, de algum modo mais estranho e mais prodigioso. Levou o livro para perto da vela e começou a folheá-lo.

— Onde fala de Lázaro? — perguntou ele de repente.2A ressurreição de Lázaro é narrada no capítulo 11 do Evangelho de João: Jesus chega a Betânia quatro dias depois da morte de Lázaro, irmão de Marta e Maria, e o faz sair vivo do túmulo.

Sônia olhava obstinadamente para o chão e não respondia. Estava de pé, um pouco de lado para a mesa.

— Da ressurreição de Lázaro, onde está? Procure para mim, Sônia.

Ela olhou para ele de esguelha.

— O senhor não está procurando no lugar certo… é no quarto Evangelho… — sussurrou ela com severidade, sem se mover na direção dele.

— Ache e leia para mim — disse ele; sentou-se, apoiou o cotovelo na mesa, segurou a cabeça com a mão e fixou um olhar sombrio para o lado, preparando-se para escutar.

“Daqui a umas três semanas, na sétima versta, faça o favor! Parece que eu mesmo vou estar lá, se não acontecer coisa pior”, murmurava ele consigo.3Na sétima versta da estrada de Peterhof, nos arredores de Petersburgo, ficava um conhecido hospício; “ir para a sétima versta” queria dizer enlouquecer.

Sônia deu um passo indeciso em direção à mesa, depois de ouvir com desconfiança o estranho desejo de Raskólnikov. Mesmo assim, pegou o livro.

— O senhor nunca leu? — perguntou ela, olhando para ele por cima da mesa, de baixo para cima. A voz dela ficava cada vez mais severa.

— Faz muito tempo… Quando estudava. Leia!

— E na igreja, nunca ouviu?

— Eu… não ia. E você, vai sempre?

— N-não — sussurrou Sônia.

Raskólnikov deu um sorriso irônico.

— Entendo… Então amanhã também não vai ao enterro do seu pai?

— Vou. Na semana passada também fui… mandei rezar um ofício pelos mortos.

— Por quem?

— Por Lizavieta. Mataram-na a machado.

Os nervos dele se irritavam cada vez mais. A cabeça começou a girar.

— Você era amiga de Lizavieta?

— Era… Ela era justa… ela vinha… raramente… não podia. Nós líamos juntas e… conversávamos. Ela verá a Deus.

Soavam estranhas para ele aquelas palavras de livro, e mais uma novidade: uns encontros misteriosos com Lizavieta, e as duas — loucas de Deus.

“Assim a gente mesmo acaba virando louco de Deus! É contagioso!”, pensou ele. — Leia! — exclamou de repente, com insistência e irritação.

Sônia continuava hesitando. O coração dela batia forte. De algum modo, não tinha coragem de ler para ele. Quase com tormento ele olhava para a “infeliz desvairada”.

— Para que o senhor quer isso? O senhor não crê, não é?… — sussurrou ela baixinho, como que sufocando.

— Leia! Eu quero assim! — insistia ele. — Para Lizavieta você lia!

Sônia abriu o livro e achou a passagem. As mãos dela tremiam, faltava-lhe a voz. Duas vezes começou, e a primeira sílaba não saía.

“Estava doente um certo Lázaro, de Betânia…”, pronunciou ela enfim, com esforço, mas de repente, à terceira palavra, a voz vibrou e se partiu, como uma corda esticada demais. Faltou-lhe o fôlego, e o peito se apertou.

Raskólnikov entendia em parte por que Sônia não se decidia a ler para ele, e quanto mais entendia isso, tanto mais grosseira e irritadamente, por assim dizer, insistia na leitura. Ele entendia bem demais como lhe era penoso agora entregar e expor tudo o que era seu. Compreendeu que aqueles sentimentos eram de fato, de certo modo, o seu verdadeiro e talvez já antigo segredo, talvez desde a adolescência, ainda em família, junto ao pai infeliz e à madrasta enlouquecida de desgosto, no meio das crianças famintas, dos gritos horrendos e das recriminações. Mas, ao mesmo tempo, ele soube agora, e soube com certeza, que, embora ela estivesse angustiada e com um medo terrível de alguma coisa ao começar agora a ler, ao mesmo tempo ela mesma tinha uma vontade torturante de ler, apesar de toda a angústia e de todos os receios, e justamente para ele, para que ele ouvisse, e sem falta agora: “aconteça o que acontecer depois!”… Ele leu isso nos olhos dela, entendeu pela sua agitação exaltada… Ela se dominou, reprimiu o espasmo na garganta que lhe cortara a voz no começo do versículo e continuou a leitura do capítulo onze do Evangelho de João. Assim chegou ao versículo dezenove:

“E muitos dos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para consolá-las na tristeza pelo irmão. Marta, ao ouvir que Jesus vinha, foi ao encontro dele; Maria, porém, ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: Senhor! se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas ainda agora eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus te dará.”

Aqui ela parou de novo, pressentindo com vergonha que a voz ia tremer e se partir outra vez…

“Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. Marta disse-lhe: Eu sei que ressuscitará na ressurreição, no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês nisto? Ela lhe diz

(e, como que tomando fôlego com dor, Sônia leu, pausadamente e com força, como se ela mesma estivesse confessando a sua fé diante de todos):

Sim, Senhor! Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vem ao mundo.”

Ela chegou a parar, chegou a erguer rapidamente os olhos para ele, mas depressa se dominou e continuou a ler. Raskólnikov estava sentado e escutava imóvel, sem se virar, com o cotovelo apoiado na mesa e olhando para o lado. Chegaram ao versículo trinta e dois.

“Maria, chegando aonde estava Jesus e vendo-o, caiu a seus pés e disse-lhe: Senhor! se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Jesus, quando a viu chorando, e chorando também os judeus que tinham vindo com ela, afligiu-se ele mesmo em espírito e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor! vem e vê. Jesus derramou lágrimas. Então os judeus diziam: Vede como ele o amava. E alguns deles disseram: Este, que abriu os olhos do cego, não poderia ter feito com que também este não morresse?”

Raskólnikov voltou-se para ela e olhava-a com emoção: sim, é isso mesmo! Ela já tremia toda, numa febre verdadeira, real. Ele esperava por isso. Ela se aproximava da palavra sobre o maior e mais inaudito dos milagres, e um sentimento de grande triunfo tomou conta dela. A voz ficou sonora como metal; o triunfo e a alegria ressoavam nela e a fortaleciam. As linhas se embaralhavam diante dela, porque a vista escurecia, mas ela sabia de cor o que lia. No último versículo, “Este, que abriu os olhos do cego…”, ela, baixando a voz, transmitiu com ardor e paixão a dúvida, a censura e a blasfêmia dos judeus incrédulos, cegos, que logo, dali a um minuto, como fulminados por um raio, cairiam, soluçariam e passariam a crer… “E ele, ele, também cego e incrédulo, ele também vai ouvir agora, ele também vai crer, sim, sim! agora mesmo, já”, sonhava ela, e tremia de alegre expectativa.

“Jesus, de novo afligindo-se em seu íntimo, vai ao sepulcro. Era uma gruta, e uma pedra estava posta sobre ela. Jesus diz: Tirai a pedra. Marta, irmã do morto, diz-lhe: Senhor! já cheira mal; pois faz quatro dias que está no sepulcro.”

Ela carregou com energia na palavra: quatro.

“Jesus lhe diz: Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra da gruta onde jazia o morto. Jesus ergueu os olhos para o céu e disse: Pai, eu te agradeço por me teres ouvido. Eu bem sabia que sempre me ouves; mas disse isto por causa do povo que está aqui, para que creiam que tu me enviaste. Tendo dito isto, clamou em alta voz: Lázaro! sai para fora. E saiu o morto,

(leu ela alto e em êxtase, tremendo e gelando, como se o visse com os próprios olhos):

com as mãos e os pés envoltos em faixas fúnebres; e o rosto estava envolto num pano. Jesus lhes diz: Desatai-o; deixai-o ir.

Então muitos dos judeus que tinham vindo ter com Maria e tinham visto o que Jesus fizera creram nele.”

Mais adiante ela não leu, nem podia ler; fechou o livro e levantou-se depressa da cadeira.

— É tudo sobre a ressurreição de Lázaro — sussurrou ela, seca e severa, e ficou imóvel, virada para o lado, sem ousar e como que envergonhada de erguer os olhos para ele. O tremor febril ainda continuava. O toco de vela já se extinguia havia muito tempo no castiçal torto, iluminando debilmente, naquele quarto miserável, o assassino e a meretriz, estranhamente reunidos na leitura do livro eterno. Passaram-se uns cinco minutos ou mais.

— Vim falar de um assunto sério — disse de repente Raskólnikov, em voz alta e franzindo a testa; levantou-se e aproximou-se de Sônia. Ela ergueu os olhos para ele em silêncio. O olhar dele estava particularmente duro, e exprimia uma espécie de determinação selvagem.

— Hoje eu abandonei os meus — disse ele —, minha mãe e minha irmã. Agora não vou mais à casa delas. Rompi com tudo lá.

— Por quê? — perguntou Sônia, como que atordoada. O encontro de pouco antes com a mãe e a irmã dele tinha deixado nela uma impressão extraordinária, embora nem para ela mesma muito clara. Ouviu a notícia do rompimento quase com horror.

— Agora só tenho você — acrescentou ele. — Vamos juntos… Eu vim até você. Somos malditos juntos, então vamos seguir juntos!

Os olhos dele faiscavam. “Parece um demente!”, pensou por sua vez Sônia.

— Ir para onde? — perguntou ela com medo, e recuou sem querer.

— E como é que eu vou saber? Só sei que é pelo mesmo caminho, isso eu sei com certeza, e mais nada. Uma meta só!

Ela olhava para ele e não entendia nada. Só entendia que ele era terrivelmente, infinitamente infeliz.

— Nenhum deles vai entender nada, se você falar com eles — continuou ele —, mas eu entendi. Preciso de você, por isso vim até você.

— Não entendo… — sussurrou Sônia.

— Depois vai entender. Por acaso você não fez a mesma coisa? Você também cruzou a linha… foi capaz de cruzar. Você levantou a mão contra si mesma, você arruinou uma vida… a sua (dá na mesma!). Você poderia viver pelo espírito e pela razão, e vai acabar na praça Sennaia… Mas você não aguenta, e se ficar sozinha vai enlouquecer, como eu. Você já está como uma louca; então temos de ir juntos, pelo mesmo caminho! Vamos!

— Por quê? Por que o senhor diz isso! — disse Sônia, estranha e tumultuosamente perturbada pelas palavras dele.

— Por quê? Porque não se pode continuar assim, é por isso! É preciso, enfim, pensar a sério e de frente, e não chorar como criança e gritar que Deus não vai permitir! O que vai acontecer se amanhã de fato levarem você para o hospital? A outra não está bem da cabeça e é tísica, vai morrer logo, e as crianças? Por acaso Polietchka não vai se perder? Será que você não viu por aqui, pelos cantos, crianças que as mães mandam pedir esmola? Eu me informei de onde moram essas mães e em que condições. Lá as crianças não conseguem continuar sendo crianças. Lá um menino de sete anos já é depravado e ladrão. E, no entanto, as crianças são a imagem de Cristo: “Delas é o Reino de Deus.” Ele mandou honrá-las e amá-las, elas são a humanidade futura…

— Mas o que, o que se pode fazer? — repetia Sônia, chorando histericamente e torcendo as mãos.

— O que fazer? Quebrar o que for preciso, de uma vez por todas, e pronto: e tomar o sofrimento para si! O quê? Não entende? Depois vai entender… Liberdade e poder, e, acima de tudo, poder! Sobre toda a criatura trêmula e sobre todo o formigueiro!… Essa é a meta! Lembre-se disso! Estas são as minhas palavras de despedida para você! Talvez eu esteja falando com você pela última vez. Se eu não vier amanhã, você mesma vai ouvir falar de tudo, e então lembre-se destas palavras de agora. E algum dia, mais tarde, depois de anos, com a vida, talvez você entenda o que elas significavam. Mas, se eu vier amanhã, vou lhe dizer quem matou Lizavieta. Adeus!

Sônia estremeceu toda de susto.

— Mas então o senhor sabe quem matou? — perguntou ela, gelando de horror e olhando para ele com olhos desvairados.

— Sei e vou dizer… A você, só a você! Eu escolhi você. Não vou vir lhe pedir perdão, vou simplesmente dizer. Há muito tempo escolhi você para lhe dizer isso, ainda naquela vez, quando seu pai falava de você e Lizavieta ainda estava viva, eu pensei nisso. Adeus. Não me dê a mão. Até amanhã!

Ele saiu. Sônia olhava para ele como para um louco; mas ela mesma estava como fora de si, e sentia isso. A cabeça girava. “Meu Deus! como ele sabe quem matou Lizavieta? O que queriam dizer aquelas palavras? Que coisa terrível!” Mas, ao mesmo tempo, o pensamento não lhe vinha à cabeça. De jeito nenhum! De jeito nenhum!… “Ah, ele deve ser terrivelmente infeliz!… Abandonou a mãe e a irmã. Por quê? O que aconteceu? E o que ele pretende? O que foi que ele lhe disse? Beijou-lhe o pé e disse… disse (sim, disse isso claramente) que já não pode viver sem ela… Ó meu Deus!”

Sônia passou a noite inteira em febre e delírio. Às vezes se levantava de um salto, chorava, torcia as mãos, ora tornava a cair num sono febril, e sonhava com Polietchka, com Katerina Ivánovna, com Lizavieta, com a leitura do Evangelho e com ele… ele, com o seu rosto pálido, com os olhos em brasa… Ele lhe beija os pés, chora… Ó meu Deus!

Atrás da porta da direita, aquela mesma porta que separava o apartamento de Sônia do apartamento de Gertrud Kárlovna Resslich, havia um quarto intermediário, vazio havia muito tempo, que pertencia ao apartamento de madame Resslich e que ela alugava, coisa anunciada por plaquinhas no portão e por papeizinhos colados nos vidros das janelas que davam para o canal. Sônia havia muito se acostumara a considerar esse quarto desabitado. E, no entanto, durante todo esse tempo, o senhor Svidrigáilov estivera de pé junto à porta, no quarto vazio, escondido, escutando. Quando Raskólnikov saiu, ele ficou ali parado mais um pouco, pensou, foi na ponta dos pés até o seu quarto, contíguo ao quarto vazio, pegou uma cadeira e levou-a sem ruído até bem junto da porta que dava para o quarto de Sônia. A conversa lhe parecera interessante e significativa, e lhe agradara muito, muito; tanto que ele até levou a cadeira para lá, para, no futuro, amanhã por exemplo, não ter de passar de novo pelo incômodo de ficar uma hora inteira de pé, e se instalar com mais conforto, para ter de uma vez, sob todos os aspectos, um prazer completo.