A manhã que se seguiu à explicação, fatal para Piotr Petróvitch, com Dúnietchka e Pulkhéria Aleksándrovna trouxe também a Piotr Petróvitch o seu efeito de ressaca. Para seu enorme desgosto, ele se viu obrigado a aceitar pouco a pouco como fato consumado e irreversível aquilo que ainda na véspera lhe parecera um acontecimento quase fantástico, e que, embora já tivesse acontecido, ainda assim parecia de certo modo impossível. A serpente negra do amor-próprio ferido passou a noite inteira sugando-lhe o coração. Ao se levantar da cama, Piotr Petróvitch foi logo se olhar no espelho. Temia que durante a noite a bile lhe tivesse transbordado. Desse lado, porém, tudo ia bem por enquanto, e, contemplando a sua figura nobre, branca e um tanto engordada nos últimos tempos, Piotr Petróvitch chegou até a se consolar por um instante, na mais completa convicção de que arranjaria uma noiva em outro lugar, e talvez até uma de melhor qualidade; mas no mesmo instante caiu em si e cuspiu com energia para o lado, o que provocou um sorriso calado, mas sarcástico, no seu jovem amigo e companheiro de moradia Andrei Semiónovitch Lebeziátnikov. Piotr Petróvitch notou esse sorriso e, consigo mesmo, lançou-o imediatamente na conta do jovem amigo. Muita coisa ele já tivera tempo de lançar nessa conta nos últimos tempos. A sua raiva dobrou quando de repente percebeu que não devia ter contado na véspera a Andrei Semiónovitch os resultados da véspera. Era o segundo erro da véspera, cometido no calor do momento, por excesso de expansividade, na irritação… Depois, durante toda aquela manhã, como de propósito, um desgosto veio atrás do outro. Até no Senado o esperava algum revés no processo de que andava cuidando por lá. Mas quem mais o irritou foi o dono do apartamento que ele alugara em vista do casamento próximo e que vinha reformando à própria custa: esse proprietário, um artesão alemão que tinha enriquecido, não aceitava de jeito nenhum desfazer o contrato recém-assinado e exigia a multa inteira prevista no contrato, apesar de Piotr Petróvitch lhe devolver o apartamento praticamente reformado de novo. Do mesmo modo, na loja de móveis não queriam de jeito nenhum devolver um único rublo do sinal pago pelos móveis comprados, mas ainda não levados para o apartamento. “Não vou me casar de propósito por causa dos móveis!”, rangia os dentes consigo mesmo Piotr Petróvitch, e ao mesmo tempo passou-lhe pela cabeça, mais uma vez, uma esperança desesperada: “Mas será possível que tudo isso esteja mesmo perdido e acabado sem volta? Será que não dá para tentar mais uma vez?” A ideia de Dúnietchka mais uma vez lhe cravou no coração um espinho tentador. Ele suportou esse minuto com tormento, e, claro, se fosse possível naquele momento, só com um desejo, matar Raskólnikov, Piotr Petróvitch teria pronunciado esse desejo na mesma hora.
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Crime e Castigo · Parte cinco
Capítulo I
“O erro, além do mais, também foi eu não ter dado dinheiro nenhum a elas”, pensava ele, voltando tristonho para o cubículo de Lebeziátnikov, “e por que diabos fui virar tamanho judeu? Nem havia cálculo nenhum nisso! Eu pensava em mantê-las na rédea curta e levá-las ao ponto de olharem para mim como para a Providência, e olhe só elas aí!… Pff!… Não, se eu tivesse dado a elas durante todo esse tempo, por exemplo, uns mil e quinhentos rublos para o enxoval, e para presentes, para umas caixinhas variadas, estojos de toalete, cornalinas, tecidos e toda essa porcariada da Knop e da loja inglesa, a coisa estaria mais limpa e… mais firme! Não teriam me recusado tão facilmente agora! É gente de uma laia que, em caso de recusa, sem dúvida se sentiria obrigada a devolver tanto os presentes quanto o dinheiro; e devolver ia ser bem pesadinho e dar dó! E ainda a consciência ia coçar: como é que se enxota assim, de repente, um homem que até agora foi tão generoso e bastante delicado?… Hum! Dei uma mancada!” E, rangendo os dentes mais uma vez, Piotr Petróvitch ali mesmo se chamou de imbecil, consigo mesmo, é claro.1Loja de Petersburgo especializada em galanteria: adereços, bijuterias e miudezas finas.
Tendo chegado a essa conclusão, voltou para casa duas vezes mais raivoso e irritadiço do que tinha saído. Os preparativos para o almoço em memória do falecido, no quarto de Katerina Ivánovna, atiçaram em parte a sua curiosidade. Já na véspera ouvira alguma coisa sobre esse almoço fúnebre; tinha até a impressão de que também o haviam convidado; mas, ocupado com os próprios problemas, deixara passar todo o resto sem prestar atenção. Apressando-se a obter informações com a senhora Lippewechsel, que, na ausência de Katerina Ivánovna (que estava no cemitério), se atarefava em torno da mesa que estava sendo posta, ficou sabendo que o almoço seria solene, que quase todos os inquilinos tinham sido convidados, até alguns que não conheciam o falecido, que até Andrei Semiónovitch Lebeziátnikov fora convidado, apesar da briga que tivera com Katerina Ivánovna, e, por fim, que ele próprio, Piotr Petróvitch, não só fora convidado, como era esperado até com grande impaciência, por ser quase o hóspede mais importante entre todos os inquilinos. A própria Amália Ivánovna também fora convidada com grande deferência, apesar de todos os desentendimentos passados, e por isso agora fazia as honras da casa e se atarefava, sentindo nisso quase um deleite; e, além do mais, estava toda emperiquitada, de luto, é verdade, mas toda de roupa nova, de seda, nos trinques, e se orgulhava disso. Todos esses fatos e informações deram a Piotr Petróvitch uma certa ideia, e ele foi para o seu quarto, isto é, para o quarto de Andrei Semiónovitch Lebeziátnikov, um tanto pensativo. Acontece que ficara sabendo também que entre os convidados estava Raskólnikov.
Andrei Semiónovitch, por algum motivo, tinha passado a manhã inteira em casa. Entre esse senhor e Piotr Petróvitch haviam se estabelecido relações um tanto estranhas, embora em parte também naturais: Piotr Petróvitch o desprezava e odiava até além da conta, quase desde o próprio dia em que se instalara na casa dele, mas ao mesmo tempo parecia temê-lo um pouco. Hospedara-se com ele ao chegar a Petersburgo não só por mesquinha economia, embora essa tivesse sido quase a razão principal; havia aí também outra razão. Ainda na província, ouvira falar de Andrei Semiónovitch, seu antigo pupilo, como de um dos mais avançados entre os jovens progressistas, e até como de alguém que desempenhava papel importante em certos círculos curiosos e lendários. Isso impressionara Piotr Petróvitch. Pois eram justamente esses círculos poderosos, que tudo sabem, tudo desprezam e tudo denunciam, que havia muito assustavam Piotr Petróvitch com um medo especial, de resto completamente indefinido. É claro que ele mesmo, ainda por cima na província, não podia formar uma ideia precisa, nem que fosse aproximada, de nada desse gênero. Ouvira dizer, como todo mundo, que existem, sobretudo em Petersburgo, uns tais progressistas, niilistas, denunciadores etc. etc., mas, como muitos, exagerava e deformava o sentido e o significado desses nomes até o absurdo. O que mais temia, já havia alguns anos, era a denúncia, e essa era a base principal da sua inquietação constante e exagerada, sobretudo quando sonhava em transferir as suas atividades para Petersburgo. Nesse ponto, ele estava, como se diz, assustado, como às vezes ficam assustadas as criancinhas. Alguns anos antes, na província, quando mal começava a construir a carreira, presenciara dois casos de figuras provinciais bastante importantes, denunciadas com crueldade, às quais até então se agarrava e que o protegiam. Um dos casos terminou de modo especialmente escandaloso para a pessoa denunciada, e o outro por pouco não terminou até de modo bem trabalhoso. Eis por que Piotr Petróvitch decidira, ao chegar a Petersburgo, descobrir imediatamente do que se tratava e, se preciso fosse, por via das dúvidas, tomar a dianteira e cair nas graças das “nossas jovens gerações”. Nisso contava com Andrei Semiónovitch e, na visita a Raskólnikov, por exemplo, já tinha aprendido a arredondar de qualquer jeito certas frases repetidas de ouvido…
Claro que logo conseguiu perceber em Andrei Semiónovitch um homem extremamente vulgarzinho e simplório. Mas isso não desenganou nem animou nem um pouco Piotr Petróvitch. Mesmo que se convencesse de que todos os progressistas eram uns bobinhos iguais, nem assim a sua inquietação se acalmaria. Com todas essas doutrinas, ideias, sistemas (com os quais Andrei Semiónovitch se lançara sobre ele), propriamente, ele nada tinha a ver. Tinha o seu próprio objetivo. Precisava só descobrir o quanto antes, imediatamente: o que e como tinha acontecido ali? Essa gente tem força ou não tem? Ele, especificamente, tem algo a temer, ou não? Vão denunciá-lo se ele empreender isto ou aquilo, ou não vão? E, se denunciarem, por que exatamente, e por que, propriamente, se denuncia hoje em dia? E mais: não daria para, de algum jeito, se insinuar junto a eles e ao mesmo tempo passá-los um pouco para trás, se forem mesmo fortes? É preciso ou não é preciso fazer isso? Não daria, por exemplo, para arranjar alguma coisa na própria carreira justamente por intermédio deles? Numa palavra, havia centenas de perguntas pela frente.
Esse Andrei Semiónovitch era um homenzinho anêmico e escrofuloso, de baixa estatura, empregado em algum lugar, de um louro estranho, com suíças em forma de costeleta, das quais muito se orgulhava. Além disso, quase sempre andava com os olhos doentes. Tinha o coração bastante mole, mas a fala muito segura de si, e às vezes até extremamente arrogante, o que, comparado com a sua figurinha, quase sempre saía ridículo. Na casa de Amália Ivánovna, aliás, era contado entre os inquilinos bastante respeitáveis, isto é, não bebia e pagava o aluguel em dia. Apesar de todas essas qualidades, Andrei Semiónovitch era de fato meio tolo. Ligara-se ao progresso e às “nossas jovens gerações” por paixão. Era um daquela legião inumerável e variada de vulgares, de abortos raquíticos e de tiranetes que não aprenderam nada direito, que num instante aderem sem falta à ideia mais em voga, para logo vulgarizá-la, para num instante transformar em caricatura tudo aquilo a que eles próprios às vezes servem da maneira mais sincera.
De resto, Lebeziátnikov, apesar de ser muito bonzinho, também começava em parte a não suportar o seu companheiro de moradia e antigo tutor Piotr Petróvitch. Isso aconteceu de ambos os lados de modo meio inesperado e recíproco. Por mais simplório que fosse Andrei Semiónovitch, começou pouco a pouco a perceber que Piotr Petróvitch o enganava e o desprezava em segredo, e que “esse homem não é nada do que parece”. Tentou expor-lhe o sistema de Fourier e a teoria de Darwin, mas Piotr Petróvitch, sobretudo nos últimos tempos, passou a escutar de um jeito sarcástico demais, e nos últimos dias chegou até a xingar. Acontece que ele, por instinto, começava a perceber que Lebeziátnikov não só era um homenzinho vulgar e meio tolo, mas talvez também um mentirosozinho, e que não tinha absolutamente nenhuma ligação mais importante nem mesmo no seu círculo, apenas ouvira alguma coisa de terceira mão; e mais: que talvez nem soubesse direito o seu próprio ofício, o de propaganda, porque se atrapalhava demais, e que estava longe de poder ser um denunciador! Notemos de passagem que Piotr Petróvitch, nessa semana e meia, aceitava de bom grado (sobretudo no início) de Andrei Semiónovitch até elogios bem estranhos, isto é, não objetava, por exemplo, e ficava calado, quando Andrei Semiónovitch lhe atribuía a disposição de contribuir para a futura e próxima fundação de uma nova “comuna” em algum lugar da rua Mechtchánskaia; ou, por exemplo, a de não atrapalhar Dúnietchka se, logo no primeiro mês de casamento, lhe desse na telha arranjar um amante; ou a de não batizar os futuros filhos etc. etc., tudo nesse gênero. Piotr Petróvitch, como de costume, não objetava a essas qualidades que lhe atribuíam e deixava que o elogiassem até dessa maneira, tão agradável lhe era qualquer elogio.2Nos anos 1860, jovens radicais de Petersburgo, inspirados nas ideias de Fourier e no romance O que fazer?, de Tchernychévski, organizaram “comunas”: moradias em que homens e mulheres sem laços de família viviam juntos e dividiam despesas e tarefas. A mais conhecida, criada pelo escritor Vassíli Sleptsov em 1863, durou menos de um ano.
Piotr Petróvitch, que por algum motivo trocara naquela manhã alguns títulos de cinco por cento, estava sentado à mesa contando os maços de notas e de títulos do Tesouro. Andrei Semiónovitch, que quase nunca tinha dinheiro, andava pelo quarto e fazia de conta, para si mesmo, que olhava para todos aqueles maços com indiferença e até com desdém. Piotr Petróvitch jamais acreditaria, por exemplo, que Andrei Semiónovitch pudesse de fato olhar para tanto dinheiro com indiferença; já Andrei Semiónovitch, por sua vez, pensava com amargura que Piotr Petróvitch talvez fosse mesmo capaz de pensar assim a respeito dele, e talvez ainda estivesse contente com a ocasião de provocar e atiçar o jovem amigo com os maços de notas espalhados, lembrando-lhe a sua insignificância e toda a diferença que supostamente existia entre os dois.
Achava-o dessa vez irritadiço e desatento como nunca, apesar de ele, Andrei Semiónovitch, ter começado a desenvolver diante dele o seu tema favorito sobre a fundação de uma nova e especial “comuna”. As objeções e observações curtas que escapavam a Piotr Petróvitch nos intervalos entre o estalar das contas do ábaco respiravam a zombaria mais evidente e propositalmente indelicada. Mas o “humano” Andrei Semiónovitch atribuía o estado de espírito de Piotr Petróvitch à impressão do rompimento da véspera com Dúnietchka e ardia de vontade de tocar logo nesse assunto: tinha algo a dizer a respeito, algo progressista e de propaganda, que poderia consolar o seu respeitável amigo e “sem dúvida” ser útil ao seu desenvolvimento futuro.
— Que almoço fúnebre é esse que estão armando lá na casa dessa… dessa viúva? — perguntou de repente Piotr Petróvitch, interrompendo Andrei Semiónovitch no ponto mais interessante.
— Como se o senhor não soubesse; ainda ontem eu falei com o senhor sobre esse mesmo assunto e desenvolvi a ideia sobre todos esses ritos… E ela convidou o senhor também, pelo que ouvi. O senhor mesmo falou com ela ontem…
— Eu jamais esperava que essa tonta miserável enterrasse no almoço fúnebre todo o dinheiro que recebeu daquele outro tonto… o Raskólnikov. Fiquei até admirado agora há pouco, ao passar: que preparativos, que vinhos!… Convidaram várias pessoas, sabe o diabo o que é isso! — continuou Piotr Petróvitch, fazendo perguntas e puxando a conversa para esse assunto como que com algum objetivo. — O quê? O senhor diz que me convidaram também? — acrescentou de repente, erguendo a cabeça. — E quando foi isso? Não me lembro, não senhor. Aliás, não vou. Que vou fazer lá? Ontem só falei com ela de passagem sobre a possibilidade de ela receber, como viúva pobre de funcionário, um ano de vencimentos a título de auxílio único. Não será por isso que ela me convida? He-he!
— Eu também não pretendo ir — disse Lebeziátnikov.
— Pudera! O senhor bateu nela com as próprias mãos. É compreensível que tenha vergonha, he-he-he!
— Quem bateu? Em quem? — alarmou-se de repente Lebeziátnikov, e até ficou vermelho.
— Ora, o senhor, em Katerina Ivánovna, há coisa de um mês! Eu ouvi, senhor, ontem, senhor… Aí estão as tais convicções!… E a questão feminina também não se saiu lá muito bem. He-he-he!
E Piotr Petróvitch, como que consolado, recomeçou a estalar as contas do ábaco.
— Isso é tudo bobagem e calúnia! — inflamou-se Lebeziátnikov, que vivia com medo de que lhe lembrassem essa história. — E não foi nada assim! Foi outra coisa… O senhor ouviu errado; é fofoca! Eu simplesmente me defendi naquela hora. Ela é que primeiro se atirou em cima de mim com as unhas… Arrancou-me a suíça inteira… Todo ser humano tem o direito, espero eu, de defender a sua pessoa. Além disso, não permito a ninguém usar de violência comigo… Por princípio. Porque isso já é quase despotismo. O que é que eu ia fazer: ficar parado diante dela? Eu só a empurrei.
— He-he-he! — continuava a caçoar Lújin, com maldade.
— O senhor está provocando porque está zangado e com raiva… E isso é bobagem e não tem nada, nada a ver com a questão feminina! O senhor está entendendo errado; eu cheguei até a pensar que, se já está aceito que a mulher é igual ao homem em tudo, até na força (o que já se afirma), então, portanto, também nisso deve haver igualdade. É claro que depois concluí que essa questão, no fundo, nem deveria existir, porque briga também não deveria existir, e que casos de briga na sociedade futura são impensáveis… e que é estranho, claro, buscar igualdade numa briga. Eu não sou tão tolo… se bem que briga, aliás, ainda existe… quer dizer, depois não vai existir, mas agora ainda existe… pff! diabo! Com o senhor a gente se perde! Não é por causa desse incidente desagradável que eu não vou ao almoço fúnebre. Eu simplesmente não vou por princípio, para não participar do preconceito ignóbil dos almoços fúnebres, é isso! Se bem que até se poderia ir, só para dar risada… Mas é uma pena que não vá ter padres. Senão eu iria sem falta.
— Quer dizer, sentar-se à mesa dos outros, comer do pão e sal deles e na mesma hora cuspir no prato, e também em quem convidou o senhor. É isso?
— Não é cuspir, é protestar. Eu tenho um objetivo útil. Posso contribuir indiretamente para o desenvolvimento e a propaganda. Todo ser humano tem o dever de desenvolver e fazer propaganda, e talvez, quanto mais duro, melhor. Posso lançar uma ideia, uma semente… Dessa semente vai crescer um fato. Em que é que eu os ofendo? Primeiro vão se ofender, mas depois eles mesmos vão ver que eu lhes fiz um bem. Veja, entre nós acusaram a Terébieva (essa que agora está na comuna) de que, quando ela saiu da família e… se entregou, escreveu ao pai e à mãe que não queria viver no meio de preconceitos e que estava entrando num casamento civil, e que isso supostamente teria sido grosseiro demais, com os pais, que dava para poupá-los, escrever com mais brandura. Para mim isso tudo é bobagem, e não há nenhuma necessidade de brandura; pelo contrário, pelo contrário, é aí mesmo que se deve protestar. Veja a Varents: viveu sete anos com o marido, abandonou dois filhos e cortou relações com o marido de uma vez, numa carta: “Tomei consciência de que com o senhor não posso ser feliz. Nunca vou lhe perdoar por ter me enganado, escondendo de mim que existe outra organização da sociedade, por meio das comunas. Fiquei sabendo de tudo isso há pouco tempo por um homem generoso, a quem me entreguei, e junto com ele estou fundando uma comuna. Falo francamente, porque considero desonesto enganar o senhor. Faça como lhe aprouver. Não tenha esperança de me trazer de volta, o senhor chegou tarde demais. Desejo que seja feliz.” É assim que se escrevem cartas desse tipo!
— E essa Terébieva não é aquela mesma de quem o senhor dizia outro dia que já estava no terceiro casamento civil?
— No segundo apenas, se formos julgar direito! E nem que fosse no quarto, nem que fosse no décimo quinto, isso tudo é bobagem! E se alguma vez lamentei que meu pai e minha mãe tenham morrido, é agora, sem dúvida. Várias vezes cheguei até a sonhar que, se eles ainda estivessem vivos, ah, como eu os atingiria com um protesto! Eu ia armar tudo de propósito… Que história é essa de “filho criado já é de outra casa”, pff! Eu ia mostrar a eles! Eu ia deixá-los espantados! Palavra, é uma pena que não reste ninguém!
— Para deixar espantados? He-he! Bem, isso fica como o senhor quiser — interrompeu Piotr Petróvitch —, mas me diga uma coisa: o senhor conhece a filha do falecido, aquela franzininha! É verdade pura o que se diz dela, hein?
— E o que é que tem? Na minha opinião, quer dizer, na minha convicção pessoal, essa é justamente a condição mais normal da mulher. Por que não? Quer dizer, distinguons. Na sociedade atual, claro, não é inteiramente normal, porque é forçada, mas na futura vai ser perfeitamente normal, porque livre. E mesmo agora ela tinha o direito: estava sofrendo, e aquilo era o fundo dela, o capital, por assim dizer, do qual ela tinha todo o direito de dispor. É claro que na sociedade futura não vai haver necessidade de fundos; mas o papel dela vai ter outro significado, vai ser determinado de modo harmonioso e racional. Quanto a Sófia Semiónovna pessoalmente, no momento eu vejo os atos dela como um protesto enérgico e personificado contra a organização da sociedade e a respeito profundamente por isso; fico até feliz olhando para ela!3Façamos a distinção (em francês).
— Pois a mim contaram que foi justamente o senhor quem a expulsou destes quartos de aluguel!
Lebeziátnikov ficou até furioso.
— Isso é outra fofoca! — berrou ele. — Não foi nada, nada assim! Isso, então, não foi mesmo assim! Foi tudo mentira de Katerina Ivánovna naquela hora, porque ela não entendeu nada! E eu não estava nada me insinuando para Sófia Semiónovna! Eu simplesmente a estava desenvolvendo, de modo totalmente desinteressado, procurando despertar nela o protesto… Eu só precisava do protesto, e, além do mais, Sófia Semiónovna já não podia continuar morando aqui nos quartos!
— Convidou-a para a comuna, foi?
— O senhor fica rindo, e com muito pouca graça, permita-me observar. O senhor não entende nada! Na comuna não existem papéis assim. A comuna é fundada justamente para que não existam papéis assim. Na comuna esse papel vai mudar toda a sua essência atual, e o que aqui é tolo lá vai ser inteligente, o que aqui, nas circunstâncias atuais, é antinatural lá vai ser perfeitamente natural. Tudo depende do ambiente e do meio em que o homem está. Tudo vem do meio, e o homem em si não é nada. E com Sófia Semiónovna eu me dou bem até hoje, o que pode servir ao senhor de prova de que ela nunca me considerou seu inimigo nem seu ofensor. Sim! Agora estou tentando atraí-la para a comuna, mas em bases completamente, completamente diferentes! Do que o senhor está rindo? Queremos fundar a nossa própria comuna, uma comuna especial, só que em bases mais amplas que as anteriores. Fomos mais longe nas nossas convicções. Negamos mais! Se Dobroliúbov se levantasse do túmulo, eu ia discutir com ele. E Belínski então, eu ia arrasar! Enquanto isso, continuo desenvolvendo Sófia Semiónovna. É uma natureza magnífica, magnífica!4Nikolai Dobroliúbov e Vissarion Belínski, críticos literários russos de ideias radicais, ídolos da juventude progressista da época.
— E dessa natureza magnífica o senhor tira proveito, hein? He-he!
— Não, não! Oh, não! Pelo contrário!
— Ora, pelo contrário! He-he-he! Essa é boa!
— Mas acredite! E por que motivo eu iria esconder isso do senhor, me diga, por favor? Pelo contrário, para mim mesmo isso é até estranho: comigo ela é de uma castidade e de um pudor redobrados, até medrosos!
— E o senhor, é claro, a desenvolve… he-he! Demonstra a ela que todos esses pudores são bobagem?…
— De jeito nenhum! De jeito nenhum! Oh, de que modo grosseiro, e até tolo, perdoe-me, o senhor entende a palavra desenvolvimento! O senhor n-não entende nada! Oh, meu Deus, como o senhor ainda está… despreparado! Nós buscamos a liberdade da mulher, e o senhor só tem uma coisa na cabeça… Deixando completamente de lado a questão da castidade e do pudor feminino, como coisas em si inúteis e até preconceituosas, eu admito plenamente, plenamente a castidade dela comigo, porque nisso está toda a vontade dela, todo o direito dela. Claro, se ela mesma me dissesse: “Quero ter você”, eu me consideraria muito afortunado, porque gosto muito da moça; mas agora, agora pelo menos, é claro que ninguém nunca a tratou de modo mais gentil e cortês do que eu, com mais respeito à dignidade dela… Eu espero e tenho esperança, e só!
— Seria melhor o senhor dar a ela algum presente. Aposto que nisso o senhor não pensou.
— O senhor n-não entende nada, já lhe disse! É claro que a situação dela é essa, mas aqui a questão é outra! Totalmente outra! O senhor simplesmente a despreza. Vendo um fato que, por engano, considera digno de desprezo, o senhor já nega a um ser humano um olhar humano sobre ele. O senhor ainda não sabe que natureza ela tem! O que me aborrece muito é que ultimamente ela deixou meio de vez de ler e já não pega mais livros comigo. Antes pegava. É uma pena também que, com toda a sua energia e disposição para protestar, que ela já demonstrou uma vez, ainda lhe falte, por assim dizer, autonomia, independência, ainda lhe falte negação para se desprender por completo de certos preconceitos e… tolices. Apesar disso, ela entende muito bem certas questões. Entendeu magnificamente, por exemplo, a questão do beija-mão, isto é, que o homem ofende a mulher com a desigualdade se lhe beija a mão. Essa questão foi debatida entre nós, e eu imediatamente a transmiti a ela. Sobre as associações de operários na França ela também ouviu com atenção. Agora estou lhe explicando a questão da livre entrada nos quartos na sociedade futura.5Lebeziátnikov repete ideias do romance O que fazer? (1863), de Nikolai Tchernychévski, livro de cabeceira da juventude radical. Ali, a heroína Vera Pávlovna diz que o homem que beija a mão da mulher a trata como inferior; ela e o marido também combinam não entrar no quarto um do outro sem permissão, e ela funda uma oficina de costura organizada como cooperativa.
— E que história é essa?
— Debateu-se recentemente a questão: um membro da comuna tem ou não o direito de entrar no quarto de outro membro, homem ou mulher, a qualquer hora… E ficou decidido que tem…
— E se ele ou ela estiver ocupado naquele minuto com as suas necessidades, he-he!
Andrei Semiónovitch ficou até zangado.
— E o senhor sempre nisso, nessas malditas “necessidades”! — exclamou ele com ódio. — Pff, como estou furioso e aborrecido por ter mencionado ao senhor antes da hora, ao expor o sistema, essas malditas necessidades! Diabo! É a pedra de tropeço para todos os seus semelhantes, e o pior é que caem na zombaria antes de saber do que se trata! E é como se tivessem razão! É como se tivessem algum orgulho disso! Pff! Afirmei várias vezes que toda essa questão só pode ser exposta aos novatos bem no fim, quando ele já estiver convencido do sistema, quando o homem já estiver desenvolvido e orientado. E, me diga, por favor, o que é que o senhor vê de tão vergonhoso e desprezível, digamos, nas fossas de lixo? Eu sou o primeiro, eu, a me dispor a limpar as fossas que o senhor quiser! Aí não há nem sacrifício nenhum! Aí há simplesmente trabalho, uma atividade nobre, útil à sociedade, que vale tanto quanto qualquer outra, e é muito superior, por exemplo, à atividade de um Rafael ou de um Púchkin, porque é mais útil!
— E mais nobre, mais nobre, he-he-he!
— O que é isso, “mais nobre”? Não entendo essas expressões no sentido de definir a atividade humana. “Mais nobre”, “mais generoso”, tudo isso é bobagem, absurdo, palavras velhas e preconceituosas, que eu nego! Tudo o que é útil à humanidade é nobre! Eu só entendo uma palavra: útil! Pode dar risadinhas à vontade, mas é assim!
Piotr Petróvitch ria muito. Já tinha terminado de contar e guardado o dinheiro. Uma parte, porém, por algum motivo, continuava em cima da mesa. Essa “questão das fossas de lixo” já tinha servido várias vezes, apesar de toda a sua vulgaridade, de motivo de rompimento e desacordo entre Piotr Petróvitch e o seu jovem amigo. A tolice toda estava em que Andrei Semiónovitch se zangava de verdade. Já Lújin desabafava com isso, e naquele momento tinha uma vontade especial de irritar Lebeziátnikov.
— É por causa do seu fracasso de ontem que o senhor está tão maldoso e implicante — explodiu por fim Lebeziátnikov, que, de modo geral, apesar de toda a sua “independência” e de todos os “protestos”, de algum modo não ousava contradizer Piotr Petróvitch e, em geral, ainda guardava diante dele uma espécie de respeito habitual, dos tempos antigos.
— É melhor o senhor me dizer uma coisa — interrompeu Piotr Petróvitch, com altivez e enfado. — O senhor poderia, meu senhor… ou melhor: o senhor tem realmente intimidade suficiente com a jovem pessoa acima mencionada para lhe pedir que venha agora mesmo, por um minuto, até aqui, a este quarto? Parece que já voltaram todos lá, do cemitério… Estou ouvindo um vaivém… Eu precisaria vê-la, meu senhor, a tal pessoa, sim, senhor.
— Mas para quê? — perguntou Lebeziátnikov, surpreso.
— Ora, porque sim, senhor, é preciso, senhor. Hoje ou amanhã vou me mudar daqui e por isso gostaria de comunicar a ela… Aliás, fique aqui também, se quiser, durante a explicação. Assim é até melhor. Senão o senhor ainda vai pensar sabe Deus o quê.
— Eu não vou pensar absolutamente nada… Só perguntei por perguntar, e, se o senhor tem assunto a tratar, não há nada mais fácil do que chamá-la. Vou agora mesmo. E eu, fique certo, não vou atrapalhar o senhor.
De fato, uns cinco minutos depois Lebeziátnikov voltou com Sônietchka. Ela entrou extremamente surpresa e, como de costume, intimidada. Sempre se intimidava em situações assim e tinha muito medo de rostos novos e de novos conhecimentos; tinha medo antes, desde criança, e agora mais ainda… Piotr Petróvitch recebeu-a “com afabilidade e cortesia”, embora com um certo matiz de uma familiaridade jovial, conveniente, aliás, na opinião de Piotr Petróvitch, a um homem tão respeitável e sólido como ele, em relação a uma criatura tão jovem e, em certo sentido, interessante. Apressou-se a “encorajá-la” e a fez sentar-se à mesa, diante dele. Sônia sentou-se, olhou em volta, para Lebeziátnikov, para o dinheiro que estava em cima da mesa, e depois de repente de novo para Piotr Petróvitch, e já não desgrudou mais os olhos dele, como se estivesse acorrentada a ele. Lebeziátnikov fez menção de ir para a porta. Piotr Petróvitch se levantou, com um sinal pediu a Sônia que continuasse sentada e deteve Lebeziátnikov na porta.
— Esse Raskólnikov está lá? Ele veio? — perguntou-lhe num sussurro.
— Raskólnikov? Está lá. Por quê? Sim, está lá… Acabou de entrar, eu vi… Por quê?
— Bem, então peço especialmente que o senhor fique aqui, conosco, e não me deixe a sós com essa… mocinha. O assunto é insignificante, mas vão tirar daí sabe Deus o quê. Não quero que Raskólnikov vá contar lá… Entende do que estou falando?
— Ah, entendo, entendo! — atinou de repente Lebeziátnikov. — Sim, o senhor tem o direito… Claro que, na minha convicção pessoal, o senhor vai longe demais nos seus receios, mas… mesmo assim o senhor tem o direito. Pois não, eu fico. Vou ficar aqui na janela e não vou atrapalhar o senhor… Na minha opinião, o senhor tem o direito…
Piotr Petróvitch voltou para o sofá, sentou-se diante de Sônia, olhou-a com atenção e de repente assumiu um ar extremamente sério, até um tanto severo: “Veja lá, minha senhora, não vá você também pensar coisas.” Sônia ficou de todo desconcertada.
— Em primeiro lugar, por favor, Sófia Semiónovna, apresente as minhas desculpas à sua mui respeitável mamãe… É assim, não é? Katerina Ivánovna faz as vezes de mãe para a senhora? — começou Piotr Petróvitch, com muita seriedade, mas, ainda assim, de modo bastante afável. Via-se que tinha as intenções mais amistosas.
— Isso mesmo, senhor, sim, senhor; faz as vezes de mãe, senhor — respondeu Sônia, apressada e assustada.
— Pois bem, senhora, então apresente-lhe as minhas desculpas, porque, por circunstâncias alheias à minha vontade, sou obrigado a faltar e não estarei nos seus blini… quer dizer, no seu almoço fúnebre, apesar do amável convite da sua mamãe.6Panquecas finas, prato tradicional das refeições em memória dos mortos na Rússia.
— Sim, senhor; vou dizer, senhor; agora mesmo, senhor. — E Sônietchka se levantou da cadeira às pressas.
— Ainda não é tudo, senhora — deteve-a Piotr Petróvitch, sorrindo da simplicidade dela e da sua ignorância das conveniências. — E a senhora me conhece pouco, prezadíssima Sófia Semiónovna, se pensou que, por esse motivo de pouca importância e que só diz respeito a mim, eu iria incomodar pessoalmente e chamar à minha presença uma pessoa como a senhora. O meu objetivo é outro, senhora.
Sônia sentou-se às pressas. As notas cinzentas e furta-cor que não tinham sido tiradas da mesa voltaram a lhe faiscar diante dos olhos, mas ela depressa desviou o rosto e o ergueu para Piotr Petróvitch: de repente lhe pareceu terrivelmente indecoroso, sobretudo para ela, olhar para o dinheiro alheio. Fixou o olhar no lornhão de ouro de Piotr Petróvitch, que ele segurava na mão esquerda, e ao mesmo tempo no anel grande, maciço, extremamente bonito, com uma pedra amarela, que ele usava no dedo médio dessa mão, mas de repente desviou os olhos também dele e, sem saber mais para onde olhar, acabou fixando-os de novo bem nos olhos de Piotr Petróvitch. Depois de um silêncio ainda mais solene que antes, ele continuou:7Cédulas de valor alto. As “furta-cor” (em russo, “arco-íris”) eram as de cem rublos, assim chamadas pelas cores do papel.
— Aconteceu-me ontem, de passagem, trocar duas palavras com a infeliz Katerina Ivánovna. Duas palavras bastaram para saber que ela se encontra num estado… antinatural, se é que se pode dizer assim…
— Sim, senhor… antinatural, senhor — concordava Sônia às pressas.
— Ou, para dizer de modo mais simples e compreensível: doentio.
— Sim, senhor, mais simples e compreen… sim, senhor, está doente, senhor.
— Pois bem. E então, por um sentimento de humanidade e-e-e, por assim dizer, de compaixão, eu gostaria de ser, de minha parte, útil de alguma forma, prevendo a sorte inevitavelmente infeliz dela. Parece que toda essa família paupérrima agora depende só da senhora.
— Permita-me perguntar — levantou-se de repente Sônia —, o que foi que o senhor teve a bondade de dizer a ela ontem sobre a possibilidade de uma pensão? Porque ela me disse ontem mesmo que o senhor tinha se encarregado de conseguir uma pensão para ela. É verdade, senhor?
— De modo algum, senhora, e é até, em certo sentido, um absurdo. Eu apenas aludi a um auxílio temporário para a viúva de um funcionário falecido em serviço, se houver um padrinho influente, mas parece que o seu falecido pai não só não completou o tempo de serviço, como nos últimos tempos nem estava mais trabalhando. Numa palavra, esperança até poderia haver, mas muito efêmera, porque, no fundo, nenhum direito a auxílio existe neste caso, e pelo contrário até… E ela já está pensando em pensão, he-he-he! Que senhora despachada!
— Sim, senhor, em pensão… Porque ela é crédula e boa, e de tão boa acredita em tudo, e… e… e… ela tem uma cabeça assim… Sim, senhor… com licença, senhor — disse Sônia, e de novo se levantou para sair.
— Espere, a senhora ainda não me ouviu até o fim.
— Sim, senhor, não ouvi até o fim, senhor — balbuciou Sônia.
— Então sente-se, senhora.
Sônia ficou terrivelmente encabulada e sentou-se outra vez, pela terceira vez.
— Vendo a situação dela, com os pobres pequenos, eu gostaria, como já disse, de ser útil de alguma forma, na medida das minhas forças, quer dizer, como se diz, na medida das minhas forças, senhora, não mais que isso. Seria possível, por exemplo, organizar em favor dela uma subscrição, ou, por assim dizer, uma loteria… ou alguma coisa nesse gênero, como sempre se organiza em casos assim, por parentes ou mesmo por estranhos, mas, de modo geral, por pessoas que desejam ajudar. Era isso que eu tinha a intenção de lhe comunicar. Seria possível, senhora.
— Sim, senhor, está bem, senhor… Deus lhe pague por isso, senhor… — balbuciava Sônia, olhando fixamente para Piotr Petróvitch.
— Seria possível, senhora, mas… isso nós vemos depois… quer dizer, até se poderia começar hoje. À noite nos vemos, combinamos e lançamos, por assim dizer, os alicerces. Passe aqui por volta das sete. Andrei Semiónovitch, espero, também vai participar conosco… Mas… há aqui uma circunstância que convém mencionar previamente e com cuidado. Foi para isso mesmo que a incomodei, Sófia Semiónovna, chamando-a aqui. Justamente, senhora, a minha opinião é que não se pode dar o dinheiro nas mãos da própria Katerina Ivánovna, e que é até perigoso; e a prova disso é esse mesmo almoço fúnebre de hoje. Não tendo, por assim dizer, uma só casca de pão para comer amanhã e… bem, nem sapatos, nem nada, compra-se hoje rum da Jamaica e até, ao que parece, vinho Madeira e-e-e café. Eu vi ao passar. E amanhã tudo vai de novo desabar sobre a senhora, até o último pedaço de pão; isso já é absurdo, senhora. Por isso também a subscrição, na minha opinião pessoal, deve ser feita de modo que a infeliz viúva, por assim dizer, nem saiba do dinheiro, e só a senhora, por exemplo, saiba. Estou certo ou não?
— Eu não sei, senhor. É só hoje que ela, senhor… é uma vez na vida… ela queria muito prestar homenagem, honrar a memória… e ela é muito inteligente, senhor. Mas, de resto, como o senhor quiser, senhor, e eu vou ficar muito, muito, muito… todos eles vão ficar ao senhor… e Deus vai, senhor… e os órfãos, senhor…
Sônia não terminou e começou a chorar.
— Pois bem. Então tenha isso em mente, senhora; e agora queira aceitar, no interesse da sua parenta, para começar, uma quantia dentro das minhas possibilidades, de mim pessoalmente. Desejo muitíssimo que o meu nome não seja mencionado nisto. Aqui está, senhora… tendo eu mesmo, por assim dizer, as minhas preocupações, não estou em condições de mais…
E Piotr Petróvitch estendeu a Sônia uma nota de dez rublos, cuidadosamente desdobrada. Sônia pegou, ficou vermelha, levantou-se de um salto, balbuciou alguma coisa e tratou de se despedir depressa. Piotr Petróvitch acompanhou-a solenemente até a porta. Ela por fim saiu do quarto às pressas, toda agitada e exausta, e voltou para junto de Katerina Ivánovna extremamente perturbada.
Durante toda essa cena, Andrei Semiónovitch ora ficou parado à janela, ora andou pelo quarto, sem querer interromper a conversa; mas, quando Sônia saiu, ele de repente se aproximou de Piotr Petróvitch e estendeu-lhe solenemente a mão:
— Eu ouvi tudo e vi tudo — disse ele, carregando especialmente na última palavra. — Isso é nobre, quer dizer, eu quis dizer, humano! O senhor queria evitar a gratidão, eu vi! E, embora, confesso, eu não possa simpatizar, por princípio, com a caridade privada, porque ela não só não extirpa o mal pela raiz, como até o alimenta ainda mais, mesmo assim não posso deixar de confessar que vi o seu gesto com prazer; sim, sim, isso me agrada.
— Eh, tudo isso é bobagem! — murmurava Piotr Petróvitch, um tanto agitado e observando Lebeziátnikov de um jeito meio atento.
— Não, não é bobagem! Um homem ofendido e contrariado, como o senhor, com o caso de ontem, e ao mesmo tempo capaz de pensar na desgraça dos outros, um homem assim, senhor… embora com os seus atos cometa um erro social… mesmo assim… é digno de respeito! Eu nem esperava isso do senhor, Piotr Petróvitch, ainda mais que, com as suas ideias… oh! como as suas ideias ainda o atrapalham! Como o perturba, por exemplo, esse fracasso de ontem — exclamava o bonzinho Andrei Semiónovitch, sentindo de novo uma simpatia redobrada por Piotr Petróvitch —, e para quê, para que o senhor precisa tanto desse casamento, desse casamento legal, nobilíssimo, amabilíssimo Piotr Petróvitch? Para que o senhor precisa tanto dessa legalidade no casamento? Bem, se quiser, pode me bater, mas eu estou contente, contente que não tenha dado certo, que o senhor esteja livre, que ainda não esteja de todo perdido para a humanidade, contente… Veja só: falei o que pensava!
— Para quê, meu senhor? Porque no seu casamento civil eu não quero usar chifres nem criar filhos dos outros, é para isso que eu preciso do casamento legal, senhor — disse Lújin, só para responder alguma coisa. Estava particularmente ocupado e pensativo com alguma coisa.
— Filhos? O senhor tocou na questão dos filhos? — estremeceu Andrei Semiónovitch, como um cavalo de batalha que ouviu a corneta militar. — Os filhos são uma questão social, e uma questão de primeira importância, concordo; mas a questão dos filhos vai ser resolvida de outro modo. Alguns até negam completamente os filhos, como qualquer alusão à família. Falaremos dos filhos depois; agora vamos nos ocupar dos chifres! Confesso ao senhor que esse é o meu ponto fraco. Essa expressão nojenta, de hussardo, de Púchkin, é até impensável no léxico futuro. E, além disso, o que são chifres? Oh, que equívoco! Que chifres? Para que chifres? Que bobagem! Pelo contrário, no casamento civil é que eles não vão existir! Os chifres são apenas a consequência natural de todo casamento legal, a correção dele, por assim dizer, o protesto, de modo que, nesse sentido, não são nem um pouco humilhantes… E se algum dia eu, supondo um absurdo, estiver num casamento legal, vou até ficar contente com os seus malditos chifres; vou dizer então à minha mulher: “Minha amiga, até agora eu apenas te amava, mas agora eu te respeito, porque você soube protestar!” O senhor está rindo? É porque não tem forças para se desprender dos preconceitos! Diabo, eu entendo, sim, qual é exatamente o desagradável quando enganam a gente no casamento legal; mas isso é só a consequência baixa de um fato baixo, em que tanto um quanto o outro são humilhados. Já quando os chifres são postos abertamente, como no casamento civil, aí eles já não existem, são impensáveis e perdem até o nome de chifres. Pelo contrário, a sua mulher só vai lhe provar o quanto o respeita, considerando-o incapaz de se opor à felicidade dela e desenvolvido o bastante para não se vingar dela por causa do novo marido. Diabo, às vezes eu sonho que, se me arranjassem um marido, pff! se eu me casasse (no civil ou no legal, tanto faz), eu mesmo, acho, levaria um amante para a minha mulher, se ela demorasse muito para arranjar um. “Minha amiga”, eu diria a ela, “eu te amo, mas além disso desejo que você me respeite, pronto!” Estou certo, estou certo no que digo?…
Piotr Petróvitch dava risadinhas ouvindo, mas sem grande entusiasmo. Na verdade, mal ouvia. Estava de fato refletindo sobre outra coisa, e até Lebeziátnikov acabou percebendo. Piotr Petróvitch estava até agitado, esfregava as mãos, ficava pensativo. Tudo isso Andrei Semiónovitch compreendeu e recordou depois…