Crime e CastigoParte cinco · Capítulo V

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Crime e Castigo · Parte cinco

Capítulo V

29 min de narração · 9 notas

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Lebeziátnikov tinha um ar alarmado.

— Vim procurar a senhora, Sófia Semiónovna. Desculpe… Eu bem que pensei que ia encontrá-lo aqui — dirigiu-se ele de repente a Raskólnikov —, quer dizer, não pensei nada… nesse sentido… mas pensei justamente… Lá em casa Katerina Ivánovna enlouqueceu — disparou ele de repente para Sônia, largando Raskólnikov.

Sônia deu um grito.

— Quer dizer, pelo menos é o que parece. Aliás… Nós lá não sabemos o que fazer, é isso, senhora! Ela voltou… parece que a expulsaram de algum lugar, talvez até tenham batido nela… pelo menos é o que parece… Ela correu atrás do chefe de Semion Zakháritch e não o encontrou em casa; ele estava jantando na casa de algum outro general… Imagine, ela se precipitou para lá, onde estavam jantando… para a casa desse outro general, e, imagine, insistiu tanto que fez chamarem o chefe de Semion Zakháritch, e parece que ainda por cima o tiraram da mesa. Pode imaginar o que aconteceu lá. Claro que a puseram para fora; e ela conta que foi ela quem o insultou e que atirou alguma coisa nele. Dá até para acreditar… Como não a prenderam? Não entendo! Agora está contando para todo mundo, até para Amália Ivánovna, só que é difícil entender, ela grita e se debate… Ah, sim: ela diz, aos gritos, que, como agora todos a abandonaram, vai pegar as crianças e sair pela rua com um realejo, e as crianças vão cantar e dançar, e ela também, e recolher dinheiro, e todo dia vão passar debaixo da janela do general… “Que vejam, diz ela, os filhos nobres de um pai funcionário andando pelas ruas como mendigos!” Bate em todas as crianças, e elas choram. Ensina Lênia a cantar “O Sitiozinho”, o menino a dançar, e Polina Mikháilovna também, rasga todos os vestidos; faz para eles uns chapeuzinhos, como de atores; ela mesma quer levar uma bacia para bater, no lugar da música… Não escuta nada… Imagine, como pode isso? Isso já é simplesmente impossível!

Lebeziátnikov teria continuado, mas Sônia, que o escutava quase sem respirar, de repente agarrou a mantilha e o chapeuzinho e saiu correndo do quarto, vestindo-se enquanto corria. Raskólnikov saiu atrás dela, e Lebeziátnikov atrás dele.

— Enlouqueceu, sem dúvida nenhuma! — dizia ele a Raskólnikov, ao sair com ele para a rua. — Eu só não quis assustar Sófia Semiónovna e disse “parece”, mas não há dúvida. Dizem que são uns tubérculos, na tísica, que brotam no cérebro; pena que eu não entendo de medicina. Aliás, tentei convencê-la, mas ela não escuta nada.

— O senhor falou com ela sobre os tubérculos?

— Quer dizer, não exatamente sobre os tubérculos. Além disso, ela não teria entendido nada. Mas o que eu digo é o seguinte: se convencermos uma pessoa logicamente de que, no fundo, ela não tem motivo para chorar, ela vai parar de chorar. Isso é claro. E o senhor está convencido de que não vai parar?

— Aí a vida seria fácil demais — respondeu Raskólnikov.

— Permita-me, permita-me; claro que para Katerina Ivánovna é bastante difícil entender; mas o senhor sabe que em Paris já se fizeram experiências sérias sobre a possibilidade de curar os loucos agindo apenas pela persuasão lógica? Lá um professor, que morreu há pouco, um cientista sério, imaginou que era possível tratá-los assim. A ideia básica dele é que nos loucos não há nenhum transtorno especial no organismo, e que a loucura é, por assim dizer, um erro lógico, um erro de juízo, uma visão incorreta das coisas. Ele ia refutando o doente aos poucos e, imagine só, dizem que obtinha resultados! Mas, como ao mesmo tempo ele também usava duchas, os resultados desse tratamento estão sujeitos, claro, a dúvida… Pelo menos é o que parece…

Raskólnikov já não escutava havia muito tempo. Ao chegar à altura do seu prédio, acenou com a cabeça para Lebeziátnikov e virou no portão. Lebeziátnikov voltou a si, olhou em volta e seguiu correndo adiante.

Raskólnikov entrou no seu cubículo e parou no meio dele. “Para que tinha voltado para cá?” Olhou aquele papel de parede amarelado e gasto, aquela poeira, o seu sofá… Do pátio chegava uma batida aguda e incessante; parecia que alguém, em algum lugar, estava pregando alguma coisa, um prego qualquer… Ele foi até a janela, ficou na ponta dos pés e por muito tempo, com um ar de extraordinária atenção, ficou espiando o pátio. Mas o pátio estava vazio, e não se viam os que batiam. À esquerda, na ala lateral, viam-se aqui e ali janelas abertas; nos peitoris havia vasinhos de gerânios mirrados. Do lado de fora das janelas havia roupa pendurada… Tudo isso ele sabia de cor. Virou-se e sentou-se no sofá.

Nunca, nunca ainda tinha se sentido tão terrivelmente sozinho!

Sim, sentiu mais uma vez que talvez fosse de fato odiar Sônia, e justamente agora, depois de tê-la tornado mais infeliz. “Para que fora até ela pedir suas lágrimas? Por que tinha tanta necessidade de devorar a vida dela? Oh, que baixeza!”

— Vou ficar sozinho! — disse ele de repente, com decisão. — E ela não vai me visitar na prisão!

Uns cinco minutos depois, ergueu a cabeça e sorriu de um jeito estranho. Era um pensamento estranho: “Talvez nos trabalhos forçados seja mesmo melhor”, ocorreu-lhe de repente.

Não lembrava quanto tempo ficou sentado em casa, com pensamentos indefinidos se amontoando na cabeça. De repente a porta se abriu e entrou Avdótia Románovna. Primeiro ela parou e olhou para ele da soleira, como pouco antes ele olhara para Sônia; só depois entrou e sentou-se na cadeira em frente a ele, no mesmo lugar da véspera. Ele olhou para ela calado e como que sem pensamento.

— Não fique bravo, irmão, vim só por um minuto — disse Dúnia. A expressão do rosto dela era pensativa, mas não severa. O olhar era claro e sereno. Ele via que também esta viera até ele com amor.

— Irmão, agora eu sei tudo, tudo. Dmítri Prokófitch me explicou e me contou tudo. Você está sendo perseguido e atormentado por uma suspeita estúpida e infame… Dmítri Prokófitch me disse que não há perigo nenhum e que você não devia encarar isso com tanto horror. Eu não penso assim e compreendo perfeitamente como tudo em você se revolta e que essa indignação pode deixar marcas para sempre. É disso que eu tenho medo. Por você ter nos abandonado eu não o julgo, nem me atrevo a julgar, e me perdoe por tê-lo recriminado antes. Sinto em mim mesma que, se eu tivesse uma desgraça tão grande, também me afastaria de todos. À mamãe não vou contar nada sobre isso, mas vou falar de você sem parar e vou dizer, em seu nome, que você vai aparecer muito em breve. Não se atormente por causa dela; eu vou acalmá-la; mas você também não a atormente: apareça ao menos uma vez; lembre que ela é sua mãe! E agora eu vim só para dizer (Dúnia começou a se levantar) que, se por acaso você precisar de mim para alguma coisa, ou se precisar… da minha vida inteira, ou do que for… me chame, que eu venho. Adeus!

Ela se virou bruscamente e foi para a porta.

— Dúnia! — Raskólnikov a deteve, levantou-se e foi até ela. — Esse Razumíkhin, Dmítri Prokófitch, é um homem muito bom.

Dúnia corou de leve.

— E então? — perguntou ela, depois de esperar um minuto.

— Ele é um homem prático, trabalhador, honesto e capaz de amar intensamente… Adeus, Dúnia.

Dúnia ficou toda vermelha, depois de repente se inquietou:

— Mas o que é isso, irmão, será que estamos mesmo nos separando para sempre, para você me deixar… essas recomendações de testamento?

— Tanto faz… adeus.

Ele se virou e se afastou dela, indo para a janela. Ela ficou ali parada, olhou para ele inquieta e saiu, aflita.

Não, ele não estava frio com ela. Houve um instante (o último de todos) em que teve uma vontade terrível de abraçá-la com força e se despedir dela, e até de contar, mas não se decidiu nem a lhe estender a mão:

“Depois ela é capaz de estremecer quando lembrar que eu a abracei agora, de dizer que eu roubei um beijo dela!”

“E esta vai aguentar ou não vai?”, acrescentou ele consigo mesmo, alguns minutos depois. “Não, não vai aguentar; gente assim não aguenta! Gente assim nunca aguenta…”

E ele pensou em Sônia.

Da janela vinha um sopro de frescor. Lá fora a luz já não brilhava tanto. De repente ele pegou o boné e saiu.

Claro que ele não podia, nem queria, preocupar-se com o seu estado doentio. Mas toda essa angústia incessante e todo esse horror da alma não podiam passar sem consequências. E, se ainda não estava de cama com uma febre de verdade, talvez fosse justamente porque essa angústia interior e incessante ainda o mantinha de pé e consciente, mas de um modo artificial, provisório.

Vagava sem rumo. O sol se punha. Uma espécie de melancolia especial começara a se manifestar nele nos últimos tempos. Não havia nela nada de particularmente corrosivo, de ardente; mas dela emanava algo permanente, eterno, pressentiam-se anos sem saída dessa melancolia fria e mortificante, pressentia-se uma espécie de eternidade num “archin de espaço”. Ao entardecer, essa sensação costumava atormentá-lo com ainda mais força.

— Pois com essas fraquezas estupidíssimas, puramente físicas, que dependem de um pôr do sol qualquer, tente não fazer uma besteira! Não digo à casa de Sônia, mas até à de Dúnia a gente acaba indo! — murmurou ele, com ódio.

Alguém o chamou. Ele olhou para trás; Lebeziátnikov vinha correndo na sua direção.

— Imagine, estive na sua casa, estou procurando o senhor. Imagine, ela cumpriu o que tinha dito e levou as crianças embora! Sófia Semiónovna e eu custamos a encontrá-las. Ela bate numa frigideira e obriga as crianças a cantar e dançar. As crianças choram. Param nos cruzamentos e diante das lojinhas. O povo bobo vai correndo atrás delas. Vamos.

— E Sônia?… — perguntou Raskólnikov, inquieto, apressando-se atrás de Lebeziátnikov.

— Simplesmente fora de si. Quer dizer, não é Sófia Semiónovna que está fora de si, é Katerina Ivánovna; aliás, Sófia Semiónovna também está fora de si. Mas Katerina Ivánovna está completamente fora de si. Estou dizendo, enlouqueceu de vez. Vão levá-las para a polícia. Pode imaginar o efeito que isso vai ter… Elas agora estão no canal, perto da ponte…, bem perto da casa de Sófia Semiónovna. Pertinho.

No canal, não muito longe da ponte e a dois prédios antes do prédio onde Sônia morava, tinha se juntado um bolo de gente. Acudiam sobretudo meninos e meninas. A voz rouca e esgarçada de Katerina Ivánovna já se ouvia da ponte. E de fato era um espetáculo estranho, capaz de interessar o público da rua. Katerina Ivánovna, com seu vestido velhinho, o xale de drap-de-dames e o chapeuzinho de palha quebrado, caído de lado num bolo disforme, estava de fato num verdadeiro frenesi. Estava cansada e ofegante. Seu rosto tísico e exausto parecia mais sofrido do que nunca (além disso, na rua, ao sol, um tísico sempre parece mais doente e mais desfigurado do que em casa); mas a sua excitação não cessava, e a cada minuto ela ficava ainda mais irritada. Lançava-se sobre as crianças, gritava com elas, persuadia-as, ensinava-lhes ali mesmo, diante do povo, como dançar e o que cantar, começava a explicar para que aquilo era necessário, desesperava-se com a falta de entendimento delas, batia nelas… Depois, sem terminar, lançava-se sobre o público; se notava alguém um pouquinho bem vestido que tinha parado para olhar, punha-se imediatamente a explicar que vejam só, diziam, a que ponto tinham sido reduzidas as crianças “de uma casa nobre, pode-se até dizer aristocrática”. Se ouvia na multidão risadas ou alguma palavrinha provocadora, atirava-se imediatamente contra os atrevidos e começava a discutir com eles. Alguns, de fato, riam, outros balançavam a cabeça; todos em geral estavam curiosos para ver a louca com as crianças apavoradas. A frigideira de que Lebeziátnikov tinha falado não estava lá; pelo menos Raskólnikov não a viu; mas, em vez de bater na frigideira, Katerina Ivánovna começava a bater palmas no ritmo com as mãos secas quando obrigava Polietchka a cantar e Lênia e Kólia a dançar; e às vezes ela mesma se punha a cantar junto, mas a cada vez se interrompia na segunda nota por causa de uma tosse torturante, com o que se desesperava de novo, amaldiçoava a tosse e até chorava. O que mais a tirava do sério era o choro e o medo de Kólia e Lênia. De fato, tinha havido uma tentativa de vestir as crianças com fantasias, como se vestem os cantores e cantoras de rua. No menino tinham posto um turbante feito de alguma coisa vermelha com branco, para que ele representasse um turco. Para Lênia não houve fantasia; tinham apenas posto na cabeça dela o gorrinho vermelho de lã de tricô (ou melhor dizendo, a touca) do falecido Semion Zakháritch, e no gorro tinham espetado um pedaço de pena branca de avestruz, que pertencera ainda à avó de Katerina Ivánovna e se conservara até então no baú, como uma relíquia de família. Polietchka estava com o seu vestidinho de sempre. Olhava para a mãe com timidez e desnorteada, não se afastava dela, escondia as lágrimas, adivinhava a loucura da mãe e olhava inquieta ao redor. A rua e a multidão a assustavam terrivelmente. Sônia seguia Katerina Ivánovna sem largá-la, chorando e implorando a cada minuto que voltasse para casa. Mas Katerina Ivánovna era inflexível.

— Pare, Sônia, pare! — gritava ela, atropelando as palavras, com pressa, ofegando e tossindo. — Você nem sabe o que está pedindo, parece uma criança! Já lhe disse que não volto para a casa daquela alemã bêbada. Que todos vejam, Petersburgo inteira, como pedem esmola os filhos de um pai nobre, que a vida toda serviu com lealdade e fé e, pode-se dizer, morreu no serviço. (Katerina Ivánovna já tinha conseguido criar para si essa fantasia e acreditar nela cegamente.) Que veja, que veja aquele generaleco imprestável. E você também é boba, Sônia: o que vamos comer agora, me diga? Já a martirizamos bastante, não quero mais! Ah, Rodion Románovitch, é o senhor! — gritou ela, ao ver Raskólnikov, lançando-se para ele. — Explique, por favor, a essa bobinha que não se pode fazer nada mais inteligente! Até os tocadores de realejo ganham alguma coisa, e nós todos vão logo distinguir, vão saber que somos uma pobre família nobre de órfãos reduzidos à miséria, e aquele generaleco ainda vai perder o posto, o senhor vai ver! Vamos todos os dias passar debaixo das janelas dele, e quando o imperador passar eu vou me pôr de joelhos, vou colocar todos estes aqui na frente e apontar para eles: “Proteja-nos, pai!” Ele é o pai dos órfãos, ele é misericordioso, vai nos proteger, o senhor vai ver, e aquele generaleco… Lênia! tenez-vous droite! Você, Kólia, vai dançar de novo já, já. Por que está choramingando? Choramingando outra vez! Ora, do que, do que você tem medo, seu bobinho? Meu Deus! O que eu faço com eles, Rodion Románovitch! Se o senhor soubesse como eles são desajeitados! O que se pode fazer com gente assim!…1Fique direita! (francês)

E ela, quase chorando também (o que não atrapalhava sua tagarelice ininterrupta e incessante), apontava para ele as crianças que choramingavam. Raskólnikov tentou convencê-la a voltar e chegou a dizer, pensando em mexer com o amor-próprio dela, que não lhe ficava bem andar pelas ruas como andam os tocadores de realejo, já que ela se preparava para ser diretora de um pensionato nobre para moças…

— Pensionato, ha-ha-ha! De longe tudo é bonito! — exclamou Katerina Ivánovna, desatando a tossir logo depois de rir. — Não, Rodion Románovitch, o sonho acabou! Todos nos abandonaram!… E aquele generaleco… Sabe, Rodion Románovitch, eu atirei um tinteiro nele: estava ali, na antessala dos criados, bem à mão, em cima da mesa, ao lado da folha em que as pessoas assinavam, e eu assinei, atirei e saí correndo. Oh, canalhas, canalhas. Mas pouco me importa; agora eu mesma vou alimentar estes aqui, não vou me curvar diante de ninguém! Já a martirizamos bastante! (Ela apontou para Sônia.) Polietchka, quanto vocês juntaram, mostre? Como? Só dois copeques? Oh, que gente infame! Não dão nada, só correm atrás de nós com a língua de fora! Do que esse imbecil está rindo? (Apontou para alguém na multidão.) É tudo porque esse Kólka é tão lerdo, dá um trabalho! O que você quer, Polietchka? Fale comigo em francês, parlez-moi français. Afinal eu ensinei você, você sabe algumas frases!… Senão como vão perceber que vocês são de família nobre, crianças bem-educadas, e nada parecidas com esses tocadores de realejo; não é um teatrinho de Petruchka que estamos apresentando na rua, vamos cantar uma romança nobre… Ah, sim! O que é que vamos cantar? Vocês ficam me interrompendo, e nós… veja, Rodion Románovitch, nós paramos aqui para escolher o que cantar, uma coisa que dê para Kólia dançar também… porque nós fazemos tudo isso, imagine, sem preparação; é preciso combinar, para ensaiar tudo direitinho, e depois vamos para a avenida Niévski, onde há muito mais gente da alta sociedade e logo vão reparar em nós. Lênia sabe “O Sitiozinho”… Só que é sempre “O Sitiozinho” e “O Sitiozinho”, e todo mundo canta essa! Nós precisamos cantar uma coisa muito mais nobre… E então, o que você inventou, Pólia? Se ao menos você ajudasse a sua mãe! Memória, eu não tenho memória, senão eu lembraria! Não vamos cantar “O hussardo apoiado no sabre”, não é mesmo? Ah, vamos cantar em francês “Cinq sous”! Eu ensinei vocês, ensinei, sim. E o principal: como é em francês, vão ver logo que vocês são filhos de nobres, e vai ser muito mais comovente… Daria até para cantar “Malborough s’en va-t-en guerre”, porque é uma cançãozinha bem de criança e se usa em todas as casas aristocráticas para fazer as crianças dormirem.2Fale comigo em francês (francês).3Primeiro verso do poema “Separação”, de Konstantin Bátiuchkov (1787–1855), musicado e cantado como romança nos salões da época.4“Cinco vinténs” (francês).

Malborough s’en va-t-en guerre,Ne sait quand reviendra… —5Malbrough vai para a guerra, / Sabe Deus quando voltará… (francês).

começou ela a cantar… — Mas não, melhor “Cinq sous”! Vamos, Kólia, mãos na cintura, depressa, e você, Lênia, gire também, para o lado contrário, e Polietchka e eu vamos cantar junto e bater palmas!

Cinq sous, cinq sous,Pour monter notre ménage…6Cinco vinténs, cinco vinténs, / Para montar a nossa casa… (francês).

Cof-cof-cof! (E ela desatou a tossir.) Arrume o vestidinho, Polietchka, as alcinhas caíram — observou ela em meio à tosse, recuperando o fôlego. — Agora vocês precisam especialmente se comportar com decoro e elegância, para que todos vejam que vocês são filhos de nobres. Eu disse naquela época que o corpete tinha de ser cortado mais comprido e, além disso, com duas peças de pano. Foi você, Sônia, com os seus conselhos: “Mais curto, mais curto”, e no fim deixamos a menina completamente desfigurada… Pronto, vocês estão todos chorando de novo! Mas por quê, seus bobos? Vamos, Kólia, comece logo, logo, logo… Ai, que criança insuportável!…

Cinq sous, cinq sous…

O soldado outra vez! Ora, o que é que você quer?

De fato, um guarda abria caminho pela multidão. Mas, ao mesmo tempo, um senhor de uniforme de serviço e capote, um funcionário respeitável de uns cinquenta anos, com uma condecoração no pescoço (este último detalhe agradou muito a Katerina Ivánovna e teve efeito sobre o guarda), aproximou-se e, em silêncio, entregou a Katerina Ivánovna uma nota verdinha de três rublos. No rosto dele se exprimia uma compaixão sincera. Katerina Ivánovna aceitou e fez-lhe uma reverência educada, até cerimoniosa.

— Agradeço-lhe, prezado senhor — começou ela, com altivez. — Os motivos que nos levaram… pegue o dinheiro, Polietchka. Está vendo, ainda existem pessoas nobres e generosas, sempre prontas a ajudar uma pobre dama nobre na desgraça. O senhor está vendo, prezado senhor, órfãos de família nobre, pode-se até dizer, com as relações mais aristocráticas… E aquele generaleco estava sentado comendo perdizes… bateu os pés porque eu o incomodei… “Vossa Excelência, eu disse, proteja os órfãos, já que conheceu tão bem, eu disse, o falecido Semion Zakháritch, e já que a própria filha dele foi caluniada pelo mais canalha dos canalhas no dia da morte dele…” Esse soldado outra vez! Proteja-nos! — gritou ela para o funcionário. — O que esse soldado quer comigo? Já fugimos de um, da rua Mechtchánskaia para cá… Ora, o que você tem com isso, imbecil?

— É que nas ruas é proibido, senhora. Faça o favor de não fazer desordem.

— Desordeiro é você! Eu estou fazendo como quem anda com um realejo, o que você tem com isso?

— Para o realejo é preciso ter licença, e a senhora está por conta própria, senhora, e desse jeito ajunta gente. Onde a senhora mora?

— Como assim, licença! — berrou Katerina Ivánovna. — Hoje eu enterrei o meu marido, que licença que nada!

— Minha senhora, minha senhora, acalme-se — começou o funcionário. — Venha, eu a acompanho… Aqui na multidão não fica bem… a senhora não está bem de saúde…

— Prezado senhor, prezado senhor, o senhor não sabe de nada! — gritava Katerina Ivánovna. — Nós vamos para a Niévski… Sônia, Sônia! Mas onde ela está? Chorando também! Mas o que é que vocês todos têm!… Kólia, Lênia, aonde vocês vão? — gritou ela de repente, assustada. — Oh, crianças bobas! Kólia, Lênia, mas aonde eles vão!…

Aconteceu que Kólia e Lênia, apavorados até o último grau com a multidão da rua e com as extravagâncias da mãe louca, ao verem, por fim, o soldado que queria pegá-los e levá-los para algum lugar, de repente, como se tivessem combinado, deram as mãos um ao outro e saíram correndo. Com gritos e choro, a pobre Katerina Ivánovna precipitou-se atrás deles. Era um espetáculo feio e lastimável vê-la correndo, chorando, sufocando. Sônia e Polietchka correram atrás dela.

— Traga-os de volta, traga-os de volta, Sônia! Oh, crianças bobas e ingratas!… Pólia! Pegue-os… É por vocês mesmos que eu…

Ela tropeçou em plena corrida e caiu.

— Ela se machucou, está sangrando! Oh, meu Deus! — gritou Sônia, inclinando-se sobre ela.

Todos acudiram, todos se apertaram em volta. Raskólnikov e Lebeziátnikov chegaram correndo entre os primeiros; o funcionário também se apressou, e atrás dele o guarda, resmungando: “Eh, essa agora!” e fazendo um gesto com a mão, pressentindo que o caso ia dar trabalho.

— Circulando! Circulando! — dispersava ele as pessoas que se apertavam em volta.

— Está morrendo! — gritou alguém.

— Ficou louca! — disse outro.

— Deus nos livre! — disse uma mulher, fazendo o sinal da cruz. — E a menininha com o garotinho, pegaram? Olha lá, estão trazendo, a mais velha pegou… Vê só, que cabecinhas de vento!

Mas quando olharam bem para Katerina Ivánovna, viram que ela não tinha se machucado nas pedras, como Sônia pensara, mas que o sangue que tingira de vermelho o calçamento tinha jorrado do peito dela pela garganta.

— Isso eu conheço, já vi — murmurava o funcionário para Raskólnikov e Lebeziátnikov —, é a tísica, senhor; o sangue jorra assim e sufoca. Com uma parente minha, ainda há pouco fui testemunha, assim, um copo e meio… de repente, senhor… Mas o que fazer, afinal? Ela vai morrer agora?

— Para cá, para cá, para minha casa! — implorava Sônia. — É aqui que eu moro!… Este prédio, o segundo daqui… Para minha casa, depressa, depressa!… — Ela se voltava aflita para todos. — Mandem buscar um médico… Oh, meu Deus!

Graças aos esforços do funcionário, a coisa se arranjou; até o guarda ajudou a carregar Katerina Ivánovna. Levaram-na para o quarto de Sônia quase morta e a deitaram na cama. A hemorragia ainda continuava, mas ela parecia começar a voltar a si. No quarto entraram de uma vez, além de Sônia, Raskólnikov e Lebeziátnikov, o funcionário e o guarda, que antes tinha dispersado a multidão, da qual alguns os acompanharam até a porta. Polietchka trouxe pela mão Kólia e Lênia, que tremiam e choravam. Vieram também os Kapernaúmov: ele próprio, coxo e caolho, um homem de aparência estranha, com cabelos e suíças eriçados, espetados para cima; a mulher, que tinha um ar assustado de uma vez para sempre, e alguns dos filhos, com os rostos petrificados de espanto permanente e as bocas abertas. No meio de todo esse público apareceu de repente também Svidrigáilov. Raskólnikov olhou para ele com surpresa, sem entender de onde tinha surgido e sem se lembrar de tê-lo visto na multidão.

Falavam em médico e em padre. O funcionário, embora tivesse sussurrado a Raskólnikov que um médico, ao que parecia, agora já era desnecessário, deu ordem de mandar buscá-lo. Foi correndo o próprio Kapernaúmov.

Enquanto isso, Katerina Ivánovna recuperou o fôlego, e o sangue parou por um tempo. Olhava com um olhar doentio, mas fixo e penetrante, para Sônia, pálida e trêmula, que lhe enxugava com um lenço as gotas de suor da testa; por fim, pediu que a erguessem. Sentaram-na na cama, segurando-a dos dois lados.

— Onde estão as crianças? — perguntou ela, com voz fraca. — Você as trouxe, Pólia? Oh, seus bobos!… Por que vocês fugiram… Ai!

O sangue ainda cobria seus lábios ressecados. Ela correu os olhos em volta, examinando o lugar:

— Então é assim que você vive, Sônia! Nem uma vez eu vim à sua casa… e agora calhou…

Olhou para ela com sofrimento:

— Nós sugamos você até o fim, Sônia… Pólia, Lênia, Kólia, venham cá… Pronto, aqui estão eles, Sônia, todos, pegue-os… passo-os das minhas mãos para as suas… e para mim chega!… Acabou-se o baile! Hrá!… Deitem-me, deixem-me ao menos morrer em paz…

Deitaram-na de novo no travesseiro.

— O quê? Um padre?… Não precisa… Onde é que vocês têm um rublo de prata sobrando?… Eu não tenho pecados!… Deus tem de me perdoar mesmo assim… Ele sabe quanto eu sofri!… E se não perdoar, que não perdoe!…

Um delírio inquieto foi se apoderando dela cada vez mais. Às vezes estremecia, corria os olhos em volta, reconhecia todos por um minuto; mas logo a consciência dava lugar de novo ao delírio. Respirava com dificuldade, roufenha, algo parecia borbulhar na sua garganta.

— Eu digo a ele: “Vossa Excelência!…” — gritava ela, tomando fôlego depois de cada palavra. — Essa Amália Liúdvigovna… ah! Lênia, Kólia! Mãos na cintura, depressa, depressa, glissé, glissé, pas de basque! Batam os pezinhos… Seja uma criança graciosa.

Du hast Diamanten und Perlen…7Você tem diamantes e pérolas (alemão).

Como é que continua? Isso é que seria bom cantar…

Du hast die schönsten Augen,Mädchen, was willst du mehr?8Você tem os olhos mais lindos, / Menina, o que mais você quer? (alemão).

Pois sim, até parece! was willst du mehr, cada uma que esse imbecil inventa!… Ah, sim, tem mais esta:

No calor do meio-dia, num vale do Daguestão…9Primeiro verso do poema “O sonho” (1841), de Mikhail Liérmontov, em que um homem jaz num vale do Daguestão com uma bala no peito e sonha com sua terra. O poema foi musicado por vários compositores.

Ah, como eu amava… Eu adorava essa romança, Polietchka!… Sabe, o seu pai… cantava quando ainda era meu noivo… Oh, aqueles dias!… Isso é que seria bom, isso é que seria bom nós cantarmos! Mas como é, como é… pronto, esqueci… mas me lembrem, como é? — Ela estava numa agitação extraordinária e se esforçava para se erguer. Por fim, com uma voz terrível, rouca, dilacerada, começou, gritando e sufocando a cada palavra, com uma espécie de pavor crescente:

No calor do meio-dia!… num vale!… do Daguestão!…Com chumbo no peito!…

Vossa Excelência! — berrou ela de repente, num grito dilacerante, desfazendo-se em lágrimas. — Proteja os órfãos! Pela hospitalidade que recebeu do falecido Semion Zakháritch!… Pode-se até dizer aristocrático!… Hrá! — estremeceu ela de repente, voltando a si e examinando todos com uma espécie de horror, mas logo reconheceu Sônia. — Sônia, Sônia! — disse ela, mansa e carinhosa, como que surpresa por vê-la diante de si. — Sônia, querida, você também está aqui?

Ergueram-na de novo.

— Chega!… Está na hora!… Adeus, pobre coitada!… Acabaram com o pangaré!… Estou arrebenta-a-ada! — gritou ela, com desespero e ódio, e desabou com a cabeça no travesseiro.

Perdeu os sentidos outra vez, mas esse último desfalecimento não durou muito. O rosto amarelo-pálido e ressecado tombou para trás, a boca se abriu, as pernas se esticaram convulsivamente. Ela suspirou fundo, bem fundo, e morreu.

Sônia caiu sobre o cadáver, envolveu-o nos braços e ficou assim imóvel, com a cabeça colada ao peito ressecado da morta. Polietchka se lançou aos pés da mãe e os beijava, soluçando. Kólia e Lênia, sem ter entendido ainda o que tinha acontecido, mas pressentindo algo muito terrível, agarraram-se um ao outro pelos ombrinhos com as duas mãos e, cravando os olhos um no outro, de repente, juntos, ao mesmo tempo, abriram a boca e começaram a gritar. Os dois ainda estavam fantasiados: um de turbante, a outra de gorro com pena de avestruz.

E como é que aquele “diploma de honra” foi parar de repente na cama, ao lado de Katerina Ivánovna? Estava ali mesmo, junto do travesseiro; Raskólnikov o viu.

Ele se afastou para a janela. Lebeziátnikov foi até ele num pulo.

— Morreu! — disse Lebeziátnikov.

— Rodion Románovitch, tenho duas palavrinhas necessárias para lhe dizer — aproximou-se Svidrigáilov. Lebeziátnikov imediatamente cedeu o lugar e se eclipsou com delicadeza. Svidrigáilov levou Raskólnikov, surpreso, mais para o fundo do canto.

— Toda essa trabalheira, quer dizer, o enterro e o resto, eu tomo por minha conta. Sabe, basta haver dinheiro, e eu já lhe disse que tenho dinheiro sobrando. Esses dois passarinhos e essa Polietchka eu vou colocar em algum orfanato dos melhores e deixar para cada um, até a maioridade, um capital de mil e quinhentos rublos, para que Sófia Semiónovna fique de todo tranquila. E a ela também vou tirar do atoleiro, porque é uma boa moça, não é mesmo? Pois bem, senhor, diga então a Avdótia Románovna que os dez mil dela eu empreguei justamente assim.

— Com que objetivos o senhor resolveu ficar tão caridoso? — perguntou Raskólnikov.

— Ê-eh! Que homem desconfiado! — riu Svidrigáilov. — Eu já disse que esse dinheiro está sobrando. E, simplesmente por humanidade, o senhor não admite, é? Afinal, ela não era um “piolho” (ele apontou com o dedo para o canto onde estava a falecida), como alguma velhota usurária. Ora, convenha, ora: “Será Lújin, de fato, que deve viver e cometer infâmias, ou ela que deve morrer?” E, se eu não ajudar, então “Polietchka, por exemplo, vai pelo mesmo caminho…”

Ele disse isso com um ar de uma espécie de malícia alegre, piscando o olho, sem tirar os olhos de Raskólnikov. Raskólnikov empalideceu e gelou, ao ouvir suas próprias expressões, ditas a Sônia. Recuou depressa e olhou para Svidrigáilov com um olhar selvagem.

— Co-como… o senhor sabe? — sussurrou ele, quase sem conseguir respirar.

— Ora, eu estou hospedado aqui, do outro lado da parede, na casa de madame Resslich. Aqui é Kapernaúmov, e ali, madame Resslich, uma velha e devotadíssima amiga. Sou vizinho, senhor.

— O senhor?

— Eu — continuou Svidrigáilov, sacudindo-se de rir —, e posso lhe assegurar por minha honra, caríssimo Rodion Románovitch, que o senhor despertou em mim um interesse espantoso. Afinal, eu disse que nós iríamos nos entender, eu lhe previ isso, pois bem, aí está, nos entendemos. E o senhor vai ver como eu sou um homem acomodatício. Vai ver que comigo ainda dá para conviver…