Crime e CastigoParte seis · Capítulo IV

Modo de leitura

O capítulo inteiro numa página só. Durante a narração, a página rola sozinha e acompanha a palavra falada.

Comparar com

Tamanho do texto

100%

Atalhos de teclado

Espaço
Ouvir ou pausar a narração
← →
Voltar ou avançar 15 segundos
↑ ↓
Trecho anterior ou seguinte (no modo um trecho por vez)

Crime e Castigo · Parte seis

Capítulo IV

24 min de narração · 9 notas

ou clique numa palavra para começar dali

— O senhor talvez saiba (aliás, eu mesmo já lhe contei) — começou Svidrigáilov — que estive preso aqui por dívidas, por uma soma enorme e sem ter em vista o menor meio de pagá-la. Não há por que entrar em detalhes sobre como Marfa Petrovna me resgatou naquela ocasião; o senhor sabe a que grau de entorpecimento uma mulher às vezes pode chegar quando ama? Era uma mulher honesta, nada tola (embora completamente sem instrução). Imagine então que justamente essa mulher, ciumenta e honesta, resolveu condescender, depois de muitos acessos terríveis de fúria e de muitas recriminações, a uma espécie de contrato comigo, que cumpriu durante todo o nosso casamento. Acontece que ela era bem mais velha do que eu e, além disso, vivia com um cravinho na boca. Eu tinha porcaria suficiente na alma, e uma espécie de honestidade, para lhe declarar sem rodeios que não podia ser-lhe inteiramente fiel. Essa confissão a deixou fora de si, mas, ao que parece, minha franqueza grosseira de certo modo lhe agradou: “Quer dizer que ele mesmo não quer me enganar, já que avisa de antemão”; ora, para uma mulher ciumenta isso é o principal. Depois de muitas lágrimas, firmou-se entre nós um contrato verbal deste tipo: primeiro, eu nunca deixaria Marfa Petrovna e seria sempre seu marido; segundo, não me ausentaria para lugar nenhum sem a permissão dela; terceiro, nunca arranjaria uma amante fixa; quarto, em troca, Marfa Petrovna me permitia lançar de vez em quando um olhar às criadas da casa, mas só com o conhecimento secreto dela; quinto, Deus me livre de me apaixonar por uma mulher da nossa classe; sexto, se por acaso, Deus me livre, me visitasse alguma paixão grande e séria, eu deveria abrir-me com Marfa Petrovna. Quanto a este último ponto, aliás, Marfa Petrovna esteve o tempo todo bastante tranquila; era uma mulher inteligente e, por consequência, não podia me ver senão como um devasso e um mulherengo, incapaz de amar a sério. Mas mulher inteligente e mulher ciumenta são duas coisas diferentes, e é aí que está o problema. Aliás, para julgar certas pessoas com imparcialidade, é preciso renunciar de antemão a certas ideias preconcebidas e ao costume rotineiro das pessoas e das coisas que habitualmente nos cercam. No seu julgamento, mais que no de qualquer outro, tenho o direito de confiar. Talvez o senhor já tenha ouvido muita coisa ridícula e absurda sobre Marfa Petrovna. De fato, ela tinha alguns hábitos bem ridículos; mas lhe digo francamente que lamento de coração as inúmeras amarguras de que fui a causa. Bem, parece que basta, para uma oraison funèbre bastante decente da mais terna das esposas pelo mais terno dos maridos. Nas nossas brigas, eu na maior parte das vezes ficava calado e não me irritava, e esse cavalheirismo quase sempre atingia o objetivo; exercia influência sobre ela e até lhe agradava; houve ocasiões em que ela chegou a se orgulhar de mim. Mas a sua irmãzinha, ainda assim, ela não suportou. E como foi acontecer que ela se arriscasse a trazer uma beldade daquelas para dentro de casa, como governanta! Eu explico isso pelo fato de que Marfa Petrovna era uma mulher ardente e impressionável e de que, pura e simplesmente, ela mesma se apaixonou, literalmente se apaixonou, pela sua irmãzinha. E Avdótia Románovna, então! Percebi muito bem, desde o primeiro olhar, que a coisa ia mal e (o que o senhor acha?) resolvi nem sequer levantar os olhos para ela. Mas foi Avdótia Románovna quem deu o primeiro passo, acredita ou não? O senhor acredita também que Marfa Petrovna chegou ao ponto de, no começo, ficar zangada comigo pelo meu eterno silêncio sobre a sua irmã, por eu ser tão indiferente aos comentários incessantes e apaixonados dela sobre Avdótia Románovna? Eu mesmo não entendo o que ela queria! Bem, é claro que Marfa Petrovna contou a Avdótia Románovna tudo a meu respeito, tintim por tintim. Ela tinha um traço infeliz: contar a absolutamente todo mundo todos os nossos segredos de família e queixar-se de mim a todo mundo, sem parar; como deixaria escapar uma amiga nova e tão encantadora? Imagino que entre elas não houvesse outro assunto senão eu e, sem dúvida nenhuma, Avdótia Románovna ficou sabendo de todas aquelas histórias sombrias e misteriosas que me atribuem… Aposto que o senhor também já ouviu alguma coisa desse tipo?1oração fúnebre (francês).

— Ouvi. Lújin o acusou de ter sido até a causa da morte de uma criança. É verdade?

— Faça-me o favor, deixe em paz todas essas vulgaridades — esquivou-se Svidrigáilov, com repugnância e mau humor. — Se o senhor fizer questão absoluta de saber de todo esse absurdo, um dia eu lhe conto à parte, mas agora…

— Falaram também de um criado seu, na propriedade, e de que o senhor também teria sido a causa de alguma coisa.

— Faça-me o favor, chega! — interrompeu de novo Svidrigáilov, com evidente impaciência.

— Não seria aquele criado que, depois de morto, vinha encher o seu cachimbo… o senhor mesmo me contou? — irritava-se Raskólnikov cada vez mais.

Svidrigáilov olhou atentamente para Raskólnikov, e a este pareceu que naquele olhar faiscou por um instante, como um relâmpago, um sorriso maldoso; mas Svidrigáilov se conteve e respondeu com muita cortesia:

— É esse mesmo. Vejo que tudo isso também interessa extraordinariamente ao senhor, e considerarei meu dever satisfazer a sua curiosidade em todos os pontos, na primeira oportunidade. Diabos! Vejo que realmente posso parecer a alguém uma figura de romance. Julgue então o quanto devo agradecer, depois disso, à falecida Marfa Petrovna por ter contado à sua irmãzinha tantas coisas misteriosas e curiosas a meu respeito. Não ouso julgar a impressão; mas, em todo caso, aquilo me foi vantajoso. Apesar de toda a repulsa natural de Avdótia Románovna por mim e apesar do meu eterno ar sombrio e repelente, ela acabou tendo pena de mim, pena de um homem perdido. E quando o coração de uma moça sente pena, isso, é claro, é o que há de mais perigoso para ela. Aí ela vai querer, sem falta, “salvar”, e chamar à razão, e ressuscitar, e conclamar a fins mais nobres, e fazer renascer para uma nova vida e uma nova atividade… bem, sabe-se o que se pode sonhar nesse gênero. Percebi na hora que o passarinho estava voando sozinho para a rede e, por minha vez, me preparei. O senhor parece estar franzindo a testa, Rodion Románitch? Não é nada, senhor; a coisa, como o senhor sabe, deu em nada. (Diabos, quanto vinho estou bebendo!) Sabe, sempre lamentei, desde o início, que o destino não tenha feito a sua irmã nascer no segundo ou no terceiro século da nossa era, em algum lugar, filha de um principezinho soberano, ou de algum governante, ou de um procônsul na Ásia Menor. Sem dúvida ela seria uma daquelas que sofreram o martírio e, com certeza, sorriria enquanto lhe queimassem o peito com tenazes em brasa. Iria a isso de propósito, por conta própria, e nos séculos quarto e quinto partiria para o deserto do Egito e viveria lá trinta anos, alimentando-se de raízes, de êxtases e de visões. Ela própria só tem sede disso e só exige isso: sofrer o quanto antes algum tormento por alguém; e, se não lhe derem esse tormento, é capaz de se atirar pela janela. Ouvi falar alguma coisa de um certo senhor Razumíkhin. Dizem que é um rapaz ajuizado (o que o próprio sobrenome mostra; deve ser seminarista); pois então que ele proteja a sua irmã. Numa palavra, acho que a compreendi, e considero isso uma honra para mim. Mas naquela época, isto é, no começo do nosso convívio, o senhor mesmo sabe, a gente é sempre um tanto mais leviano e mais tolo, olha de modo errado, vê o que não é. Diabos, por que ela é tão bonita? A culpa não é minha! Numa palavra, comigo começou com um impulso voluptuoso dos mais incontroláveis. Avdótia Románovna é casta de um jeito terrível, inaudito e nunca visto. (Note bem: estou lhe comunicando isso sobre a sua irmã como um fato. Ela é casta talvez até a doença, apesar de toda a sua ampla inteligência, e isso vai prejudicá-la.) Naquela época apareceu lá em casa uma moça, Parácha, Parácha dos olhos negros, que tinham acabado de trazer de outra aldeia, criada da casa, e que eu nunca tinha visto antes: muito bonitinha, mas tola a ponto de não se acreditar; caiu no choro, pôs-se a berrar para o pátio inteiro ouvir, e deu-se o escândalo. Certa vez, depois do almoço, Avdótia Románovna me procurou de propósito, sozinho, numa alameda do jardim e, com os olhos faiscando, exigiu que eu deixasse a pobre Parácha em paz. Foi praticamente a nossa primeira conversa a sós. Eu, naturalmente, considerei uma honra satisfazer o desejo dela, procurei me fingir abalado, confuso; numa palavra, desempenhei bem o papel. Começaram as relações, as conversas misteriosas, as lições de moral, os sermões, as súplicas, os rogos, até as lágrimas… acredita? Até as lágrimas! A que ponto chega em certas moças a paixão pela propaganda! Eu, é claro, joguei tudo nas costas do meu destino, fingi-me faminto e sedento de luz e, por fim, pus em ação o meio supremo e infalível de conquistar o coração feminino, um meio que nunca engana ninguém e que age decididamente sobre todas, até a última, sem nenhuma exceção. Esse meio é conhecido: a lisonja. Não há nada no mundo mais difícil que a franqueza, e não há nada mais fácil que a lisonja. Se na franqueza houver uma só centésima parte de uma nota falsa, logo se produz uma dissonância e, depois dela, o escândalo. Já na lisonja, mesmo que tudo seja falso até a última nota, ainda assim ela é agradável e é ouvida não sem prazer; ainda que seja um prazer grosseiro, mas mesmo assim é prazer. E por mais grosseira que seja a lisonja, nela sem falta pelo menos a metade parece verdade. E isso vale para todos os níveis de instrução e todas as camadas da sociedade. Até uma vestal pode ser seduzida pela lisonja. E das pessoas comuns nem é preciso falar. Não consigo me lembrar sem rir de como uma vez seduzi uma senhora dedicada ao marido, aos filhos e às suas virtudes. Como foi divertido, e como deu pouco trabalho! E a senhora era de fato virtuosa, pelo menos a seu modo. Toda a minha tática consistia simplesmente em estar, a cada minuto, esmagado e prostrado diante da castidade dela. Eu a lisonjeava descaradamente e, mal conseguia, às vezes, um aperto de mão, até um olhar, logo me censurava por tê-lo arrancado dela à força, por ela ter resistido, ter resistido tanto que eu certamente nunca teria obtido nada se eu mesmo não fosse tão depravado; por ela, na sua inocência, não ter previsto a perfídia e ter cedido sem querer, sem saber, sem perceber, e assim por diante, e assim por diante. Numa palavra, consegui tudo, e a minha senhora continuava convictíssima de que era inocente e casta, de que cumpria todos os deveres e obrigações e de que tinha se perdido por puro acaso. E como ela ficou zangada comigo quando eu lhe declarei, no fim das contas, que, na minha sincera convicção, ela tinha buscado o prazer tanto quanto eu! A pobre Marfa Petrovna também se deixava levar terrivelmente pela lisonja e, se eu tivesse querido, é claro que teria passado toda a propriedade dela para o meu nome ainda em vida. (Mas estou bebendo vinho demais e tagarelando.) Espero que o senhor não se zangue se eu mencionar agora que o mesmo efeito começou a se produzir também com Avdótia Románovna. Mas eu mesmo fui tolo e impaciente e estraguei tudo. Já antes, algumas vezes (e uma vez de modo especial), a expressão dos meus olhos desagradou terrivelmente a Avdótia Románovna, o senhor acredita? Numa palavra, neles se acendia, cada vez mais forte e mais imprudente, um certo fogo que a assustava e que por fim se tornou odioso para ela. Não vale a pena contar os detalhes, mas nós nos separamos. Aí fiz besteira de novo. Pus-me a zombar da maneira mais grosseira de toda aquela propaganda e daquelas conversões; Parácha voltou à cena, e não só ela; numa palavra, aquilo virou uma Sodoma. Ah, se o senhor visse, Rodion Románitch, uma vez que fosse na vida, os olhinhos da sua irmãzinha, como às vezes sabem faiscar! Não importa que eu agora esteja bêbado e já tenha tomado um copo inteiro de vinho; estou dizendo a verdade; garanto-lhe que eu sonhava com esse olhar; o farfalhar do vestido dela, no fim, eu já não conseguia suportar. Palavra, cheguei a pensar que ia ter um ataque de epilepsia; nunca imaginei que pudesse chegar a tamanho desvario. Numa palavra, era preciso fazer as pazes; mas isso já era impossível. E imagine o que eu fiz então? A que grau de estupidez a fúria pode levar um homem! Nunca empreenda nada com fúria, Rodion Románitch. Calculando que Avdótia Románovna, no fundo, é uma mendiga (ah, desculpe, não era isso que eu queria dizer… mas não dá no mesmo, se a ideia expressa é a mesma?), numa palavra, vive do trabalho das próprias mãos e tem a seu cargo o sustento da mãe e o seu (ah, diabo, franzindo a testa de novo…), resolvi oferecer-lhe todo o meu dinheiro (uns trinta mil eu já podia levantar naquela época) para que ela fugisse comigo, nem que fosse para cá, para Petersburgo. Naturalmente, eu juraria ali amor eterno, felicidade e assim por diante, e assim por diante. Acredita que eu estava tão caído por ela naquela época que, se ela me dissesse: degole ou envenene Marfa Petrovna e case-se comigo, isso seria feito na mesma hora! Mas tudo acabou na catástrofe que o senhor já conhece, e o senhor mesmo pode julgar o grau de fúria a que eu podia chegar ao saber que Marfa Petrovna tinha arranjado então aquele burocratazinho vil, o Lújin, e por pouco não armara o casamento… o que, no fundo, seria a mesma coisa que eu propunha. Não é? Não é? Não é verdade? Noto que o senhor passou a escutar com muita atenção… jovem interessante…2Nos primeiros séculos do cristianismo, muitos ascetas se retiravam para os desertos do Egito para viver como eremitas, em oração, jejum e penitência; são os chamados Padres do Deserto.3O sobrenome Razumíkhin vem de razum, que em russo quer dizer “razão, juízo”. Nos seminários, era comum os alunos receberem sobrenomes formados a partir de palavras assim.

Svidrigáilov, impaciente, deu um murro na mesa. Estava todo vermelho. Raskólnikov via claramente que o copo, ou copo e meio, de champanhe que ele tinha bebido, sorvendo-o sem que se notasse, aos golinhos, tinha agido sobre ele de modo doentio, e resolveu aproveitar a ocasião. Svidrigáilov lhe parecia muito suspeito.

— Bem, depois disso estou plenamente convencido de que o senhor veio para cá tendo em vista a minha irmã — disse ele a Svidrigáilov, direto e sem disfarçar, para irritá-lo ainda mais.

— Ora, deixe disso — Svidrigáilov como que caiu em si de repente —, eu já lhe disse… e, além do mais, a sua irmã não me suporta.

— Disso eu também estou convencido, de que ela não suporta; mas não é disso que se trata agora.

— E o senhor está convencido de que ela não suporta? (Svidrigáilov apertou os olhos e sorriu com ar zombeteiro.) O senhor tem razão, ela não me ama; mas nunca ponha a mão no fogo pelo que se passou entre marido e mulher, ou entre um amante e a sua amante. Ali há sempre um cantinho que fica sempre desconhecido do mundo inteiro e que só os dois conhecem. O senhor garante que Avdótia Románovna olhava para mim com repulsa?

— Por certas palavras e palavrinhas suas durante o seu relato, noto que o senhor ainda agora tem lá os seus planos e as intenções mais urgentes em relação a Dúnia; ignóbeis, naturalmente.

— Como! Escaparam-me palavras e palavrinhas assim? — assustou-se de repente Svidrigáilov, com a maior ingenuidade, sem dar a menor atenção ao epíteto atribuído às suas intenções.

— Pois ainda agora estão escapando. Ora, por exemplo, de que o senhor tem tanto medo? Por que se assustou de repente, agora?

— Eu, com medo? Assustado? Assustado com o senhor? É mais o senhor que deve ter medo de mim, cher ami. Mas que disparate, afinal… Aliás, fiquei embriagado, estou vendo; por pouco não deixei escapar de novo. Para o diabo com o vinho! Ei, água!4caro amigo (francês).

Agarrou a garrafa e, sem cerimônia, atirou-a pela janela. Filipp trouxe água.

— Tudo isso é bobagem — disse Svidrigáilov, molhando uma toalha e aplicando-a na cabeça —, e eu posso pô-lo no seu lugar com uma só palavra e reduzir a pó todas as suas suspeitas. Sabe, por exemplo, que vou me casar?

— O senhor já me disse isso antes.

— Disse? Esqueci. Mas naquela hora não podia afirmar com certeza, porque ainda nem tinha visto a noiva; só tinha a intenção. Mas agora já tenho noiva, e o negócio está feito, e se não fossem uns assuntos, urgentes, eu sem falta o levaria agora mesmo à casa deles, porque quero pedir o seu conselho. Ei, diabo! Só restam dez minutos. Está vendo, olhe o relógio; mas, enfim, vou lhe contar, porque é uma coisinha interessante, o meu casamento, quer dizer, no seu gênero… aonde o senhor vai? Vai embora de novo?

— Não, agora eu não vou mais embora.

— Não vai embora de jeito nenhum? Veremos! Eu o levarei lá, é verdade, vou lhe mostrar a noiva, só que não agora; agora logo vai ser hora de o senhor ir. O senhor para a direita, eu para a esquerda. O senhor conhece essa Resslich? Essa mesma Resslich, em cuja casa estou morando agora… hein? Está ouvindo? Não, o que o senhor está pensando? É aquela mesma de quem dizem que a menina, na água, no inverno… então, está ouvindo? Está ouvindo? Pois foi ela que me arranjou tudo isso; você, diz ela, anda tão entediado, vá se distrair um pouco. E eu sou um homem sombrio, maçante. O senhor acha que sou alegre? Não, sombrio: não faço mal a ninguém, mas fico sentado no meu canto; às vezes passo três dias sem que ninguém me arranque uma palavra. E essa Resslich é uma espertalhona, vou lhe dizer; sabe o que ela tem em mente? Que eu vou me entediar, largar a mulher e ir embora, e a mulher vai ficar para ela, e ela vai pô-la para render; na nossa camada social, quer dizer, e até mais acima. Há, diz ela, um pai inválido, funcionário aposentado, que vive sentado numa poltrona e há três anos não mexe as pernas. Há, diz ela, também a mãe, uma senhora sensata, a mamãe. O filho serve em algum lugar na província, não ajuda. A filha se casou e não os visita, e eles têm nas costas dois sobrinhos pequenos (como se os próprios não bastassem), e tiraram do ginásio, sem terminar o curso, a menina, a filha caçula; daqui a um mês ela faz dezesseis anos, o que quer dizer que daqui a um mês já se pode casá-la. Comigo, no caso. Fomos lá; como é engraçado na casa deles! Eu me apresento: proprietário de terras, viúvo, de família conhecida, com tais e tais relações, com capital… ora, que importa que eu tenha cinquenta e ela nem dezesseis? Quem é que repara nisso? Mas é tentador, hein? É tentador, ha-ha! O senhor precisava ver como eu me soltei na conversa com o papai e a mamãe! Valia a pena pagar só para me ver naquela hora. Ela entra, faz uma reverência, imagine só, ainda de vestidinho curto, um botãozinho que ainda não desabrochou, cora, fica vermelha como a aurora (já lhe tinham contado, é claro). Não sei o que o senhor acha de rostinhos femininos, mas, para mim, esses dezesseis anos, esses olhinhos ainda de criança, essa timidez e essas lagrimazinhas de pudor… para mim, isso é melhor que a beleza, e ela ainda por cima é bonita como um quadro. Cabelinhos claros, em cachinhos miúdos, encrespados como lã de carneiro, os labiozinhos cheinhos, vermelhinhos, os pezinhos… uma graça!… Bem, fomos apresentados, eu declarei que estava com pressa por assuntos de família e, já no dia seguinte, isto é, anteontem, nos deram a bênção. Desde então, assim que chego, ponho-a logo no colo e não a deixo mais descer… Ela fica vermelha como a aurora, e eu a beijo a todo instante; a mamãe, naturalmente, lhe incute que esse é o marido dela e que é assim que tem de ser; numa palavra, uma delícia! E esse estado atual, de noivo, palavra, talvez seja até melhor que o de marido. Aí está o que se chama La nature et la vérité! Ha-ha! Conversei com ela umas duas vezes: a menina não tem nada de tola; às vezes me lança um olhar assim, às escondidas, que chega a queimar. E sabe, ela tem um rostinho parecido com o da Madona de Rafael. Pois a Madona Sistina tem um rosto fantástico, o rosto triste de uma santa louca; isso não lhe saltou aos olhos? Pois bem, nesse gênero. Mal nos deram a bênção, no dia seguinte levei presentes no valor de mil e quinhentos rublos: um conjunto de brilhantes, outro de pérolas e uma caixinha de toucador de prata para senhora, deste tamanho, com toda espécie de coisinhas, que até o rostinho dela, da madona, ficou corado. Ontem eu a pus no colo, e decerto sem cerimônia demais; ficou toda vermelha e as lagrimazinhas saltaram, mas não quer deixar transparecer, e arde inteira. Saíram todos por um minuto, ficamos ela e eu completamente sozinhos; de repente ela se atira ao meu pescoço (pela primeira vez, por conta própria), me abraça com os dois bracinhos, me beija e jura que vai ser para mim uma esposa obediente, fiel e boa, que vai me fazer feliz, que vai empregar a vida inteira, cada minuto da sua vida, que vai sacrificar tudo, tudo, e que em troca de tudo isso só deseja ter de mim o meu respeito, e mais nada, diz ela, “nada, eu não preciso de nada, nenhum presente!”. Há de concordar que ouvir uma confissão dessas a sós, de um anjinho assim de dezesseis anos, num vestidinho de tule, com os cachinhos encrespados, com o rubor do pudor de donzela e com lagrimazinhas de entusiasmo nos olhos… há de concordar que é bastante tentador. Não é tentador? Não vale alguma coisa, hein? Ora, não vale? Bem… bem, escute… bem, vamos à casa da minha noiva… só que não agora!5A natureza e a verdade (francês).

— Numa palavra, é essa monstruosa diferença de idade e de formação que desperta a volúpia no senhor! E será possível que o senhor vá mesmo se casar assim?

— E por que não? Sem falta. Cada um cuida de si, e vive mais alegre aquele que melhor souber enganar a si mesmo. Ha-ha! Mas por que o senhor se atirou de cabeça na virtude desse jeito? Tenha piedade, meu caro, sou um homem pecador. He-he-he!

— O senhor, no entanto, arranjou a vida dos filhos de Katerina Ivánovna. Aliás… aliás, o senhor tinha lá os seus motivos para isso… agora entendo tudo.

— Das crianças em geral eu gosto, gosto muito de crianças — gargalhou Svidrigáilov. — A esse respeito posso até lhe contar um episódio curiosíssimo, que continua até hoje. Logo no primeiro dia depois que cheguei, saí rondando todas essas cloacas; bem, depois de sete anos, me atirei sobre elas. O senhor provavelmente nota que não tenho pressa de me juntar à minha turma, aos antigos amigos e camaradas. E vou passar sem eles o máximo que puder. Sabe: lá na aldeia, com Marfa Petrovna, as lembranças de todos esses lugares e lugarezinhos misteriosos, onde quem conhece pode encontrar muita coisa, me atormentavam até a morte. Diabos! O povo se embriaga, a juventude instruída se consome na inércia, em sonhos e devaneios irrealizáveis, deforma-se em teorias; de algum lugar chegaram judeus que escondem dinheiro, e todo o resto vive na devassidão. Desde as primeiras horas esta cidade me soprou aquele cheiro conhecido. Fui parar num desses ditos bailes: uma cloaca medonha (e eu gosto de cloacas justamente com uma sujeirinha); bem, naturalmente, cancã, como não existe e como no meu tempo nem existia. Sim, senhor, nisso há progresso. De repente, vejo uma menina de uns treze anos, vestida com muito capricho, dançando com um virtuose; outro está de frente para ela, em vis-à-vis. Junto à parede, numa cadeira, está sentada a mãe dela. Bem, imagine que cancã! A menina se encabula, fica vermelha, por fim se sente ofendida e começa a chorar. O virtuose a agarra, começa a rodopiá-la e a fazer palhaçadas diante dela, todos em volta gargalham e (adoro o nosso público nesses momentos, mesmo o de cancã) gargalham e gritam: “Bem feito, é assim mesmo! Que não tragam crianças!” Bem, para mim tanto faz, nem é da minha conta se eles se consolam de um jeito lógico ou não! Na mesma hora escolhi o meu lugar, sentei-me ao lado da mãe e começo a dizer que eu também sou de fora, que ali são todos uns grosseirões, que não sabem distinguir os verdadeiros méritos nem ter o devido respeito; dei a entender que tinha muito dinheiro; ofereci-me para levá-las na minha carruagem; levei-as para casa, travei conhecimento (estão num cubículo alugado de outros inquilinos, tinham acabado de chegar). Declararam-me que tanto ela quanto a filha só podiam considerar uma honra o meu conhecimento; fico sabendo que elas não têm onde cair mortas e que vieram cuidar de algum assunto numa repartição qualquer; ofereço meus serviços, dinheiro; fico sabendo que foram àquele baile por engano, pensando que ali realmente se ensinava a dançar; ofereço-me para contribuir, de minha parte, para a educação da mocinha, com francês e dança. Aceitam com entusiasmo, consideram uma honra, e até hoje mantenho relações… Se quiser, vamos lá; só que não agora.

— Chega, chega das suas anedotas ignóbeis e baixas, homem depravado, baixo, lascivo!

— Olhe só o nosso Schiller, o nosso Schiller, o Schiller! Où va-t-elle la vertu se nicher? Pois sabe, vou lhe contar coisas assim de propósito, para ouvir as suas exclamações. Que prazer!6Friedrich Schiller (1759–1805), poeta alemão. Na Rússia da época, seu nome era sinônimo de idealismo nobre e ingênuo.7Onde é que a virtude não vai se aninhar? (francês)

— Pudera! Por acaso eu mesmo não sou ridículo para mim mesmo neste momento? — murmurou Raskólnikov com raiva.

Svidrigáilov gargalhava a plenos pulmões; por fim chamou Filipp, pagou a conta e começou a se levantar.

— Mas como estou bêbado, assez causé! — disse ele. — Que prazer!8chega de conversa (francês)

— Pudera o senhor não sentir prazer — exclamou Raskólnikov, levantando-se também. — Por acaso, para um devasso gasto, contar aventuras assim, tendo em vista alguma intenção monstruosa do mesmo gênero, não é um prazer, ainda mais nessas circunstâncias e a um homem como eu… Atiça.

— Bem, se é assim — respondeu Svidrigáilov, até com certa surpresa, examinando Raskólnikov —, se é assim, o senhor mesmo é um belo de um cínico. Pelo menos, material o senhor tem em si, e enorme. Pode compreender muito, muito… bem, e fazer também pode muito. Bem, mas chega. Lamento sinceramente ter conversado pouco com o senhor, mas o senhor não me escapa… Espere só…

Svidrigáilov saiu do botequim. Raskólnikov foi atrás dele. Svidrigáilov, no entanto, não estava muito embriagado; o vinho só lhe subira à cabeça por um instante, e a embriaguez ia passando a cada minuto. Estava muito preocupado com alguma coisa, algo extremamente importante, e franzia a testa. Uma espécie de expectativa, visivelmente, o agitava e o inquietava. Com Raskólnikov, nos últimos minutos, ele de repente tinha mudado e a cada minuto ficava mais grosseiro e mais zombeteiro. Raskólnikov notou tudo isso e também estava alarmado. Svidrigáilov lhe parecia muito suspeito; resolveu segui-lo.

Desceram para a calçada.

— O senhor vai para a direita, e eu para a esquerda, ou, se preferir, o contrário; só que… adieu, mon plaisir, até um alegre reencontro!9adeus, minha alegria (francês).

E foi para a direita, rumo à praça Sennaia.