A noite inteira, até as dez horas, ele passou por diversos botequins e antros, indo de um para outro. Em algum lugar apareceu também Kátia, que de novo cantava outra canção de lacaios, sobre como alguém, “canalha e tirano”,
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Crime e Castigo · Parte seis
Capítulo VI
Svidrigáilov dava de beber a Kátia, ao tocador de realejo, aos cantores, aos lacaios e a dois escrivãezinhos quaisquer. Com esses escrivãezinhos ele tinha se juntado, a bem dizer, porque os dois tinham o nariz torto: o de um entortava para a direita, o do outro para a esquerda. Isso impressionou Svidrigáilov. Por fim, eles o arrastaram para um jardim de diversões qualquer, onde ele pagou por eles e pela entrada. Nesse jardim havia um único pinheirinho fino, de três anos, e três arbustos. Além disso, tinham construído um “vauxhall”, que na verdade era uma taverna, mas onde também se podia tomar chá, e havia ainda algumas mesinhas e cadeiras verdes. Um coro de cantores ruins e um alemão bêbado de Munique, uma espécie de palhaço, de nariz vermelho, mas por algum motivo extremamente tristonho, divertiam o público. Os escrivãezinhos se desentenderam com outros escrivãezinhos quaisquer e quase começaram uma briga. Escolheram Svidrigáilov como juiz. Ele já os julgava havia um quarto de hora, mas eles gritavam tanto que não havia a menor possibilidade de entender alguma coisa. O mais provável era que um deles tinha roubado alguma coisa e até conseguira vendê-la ali mesmo a um judeu que aparecera por acaso; mas, depois de vender, não quis dividir com o companheiro. Descobriu-se, por fim, que o objeto vendido era uma colher de chá que pertencia ao vauxhall. No vauxhall deram pela falta dela, e o caso começou a tomar proporções complicadas. Svidrigáilov pagou a colher, levantou-se e saiu do jardim. Eram por volta das dez horas. Ele mesmo não bebera, durante todo esse tempo, uma só gota de vinho e só pedira um chá no vauxhall, e isso mais por formalidade. Enquanto isso, a noite estava abafada e sombria. Por volta das dez, nuvens terríveis avançaram de todos os lados; trovejou, e a chuva desabou como uma cachoeira. A água não caía em gotas: açoitava a terra em jorros inteiros. Os relâmpagos brilhavam a todo instante, e dava para contar até cinco durante cada clarão. Encharcado até os ossos, ele chegou em casa, trancou-se, abriu a escrivaninha, tirou todo o seu dinheiro e rasgou dois ou três papéis. Depois, enfiando o dinheiro no bolso, quis trocar de roupa, mas, olhando pela janela e escutando a tempestade e a chuva, fez um gesto de pouco caso, pegou o chapéu e saiu, sem trancar o apartamento. Foi direto à casa de Sônia. Ela estava em casa.1Nome que se dava na Rússia a pavilhões de diversão com música e bufê, à imitação dos jardins de Vauxhall, em Londres. Aqui o nome é pomposo demais para o lugar.
Não estava sozinha; à sua volta estavam os quatro filhos pequenos de Kapernaúmov. Sófia Semiónovna lhes servia chá. Recebeu Svidrigáilov em silêncio e com respeito, examinou com surpresa a roupa encharcada dele, mas não disse uma palavra. Já as crianças fugiram todas no mesmo instante, num pavor indescritível.
Svidrigáilov sentou-se à mesa e pediu a Sônia que se sentasse ao lado. Ela, tímida, preparou-se para ouvir.
— Eu, Sófia Semiónovna, talvez vá para a América — disse Svidrigáilov —, e, como provavelmente estamos nos vendo pela última vez, vim tomar algumas providências. Pois bem, a senhora viu aquela dama hoje? Sei o que ela lhe disse, não precisa contar. (Sônia fez menção de se mexer e corou.) Essa gente tem um feitio conhecido. Quanto às suas irmãzinhas e ao seu irmãozinho, eles estão de fato bem encaminhados, e o dinheiro que cabe a cada um foi entregue por mim, mediante recibo, a quem de direito, em mãos de confiança. A senhora, aliás, fique com esses recibos, assim, para qualquer eventualidade. Aqui, pegue! Pois bem, senhora, isso está resolvido. Aqui estão três títulos de cinco por cento, ao todo três mil rublos. Estes a senhora pega para si, só para si, e que isso fique entre nós, que ninguém fique sabendo, seja lá o que a senhora ouvir por aí. A senhora vai precisar deles, porque, Sófia Semiónovna, viver assim, como antes, é coisa ruim, e além disso a senhora não tem mais nenhuma necessidade.
— O senhor me fez tanto bem, senhor, a mim, aos órfãos, senhor, e à falecida — apressou-se Sônia —, que, se até agora eu lhe agradeci tão pouco, então… não leve a mal…
— Ora, chega, chega.
— E por este dinheiro, Arkádi Ivánovitch, eu lhe sou muito grata, mas é que agora eu não preciso dele. Eu, sozinha, sempre dou conta de me sustentar, não leve como ingratidão: se o senhor é tão caridoso assim, então esse dinheiro, senhor…
— É para a senhora, para a senhora, Sófia Semiónovna, e, por favor, sem muita conversa, porque eu nem tenho tempo. E a senhora vai precisar. Rodion Románovitch tem dois caminhos: ou uma bala na testa, ou a estrada de Vladímir. (Sônia olhou para ele com um olhar desvairado e começou a tremer.) Não se preocupe, eu sei de tudo, pelo próprio, e não sou linguarudo; não vou contar a ninguém. A senhora o ensinou bem daquela vez, a ir ele mesmo se entregar e contar. Para ele vai ser muito mais vantajoso. Pois bem, quando sair a estrada de Vladímir, ele vai por ela, e a senhora vai atrás dele, não é? Não é assim? Não é assim? Pois, se é assim, então é aí que o dinheiro vai fazer falta. Vai fazer falta justamente para ele, entende? Dando à senhora, é como se eu desse a ele. Além disso, a senhora prometeu pagar também a dívida com Amália Ivánovna; eu ouvi. Por que é, Sófia Semiónovna, que a senhora assume assim, sem pensar, todos esses contratos e obrigações? Quem ficou devendo àquela alemã foi Katerina Ivánovna, e não a senhora, então a senhora devia era não ligar a mínima para a alemã. Assim não se vive neste mundo. Pois bem, senhora, se algum dia alguém lhe perguntar, digamos amanhã ou depois de amanhã, sobre mim ou a meu respeito (e vão lhe perguntar), não mencione que estive aqui agora, e de modo algum mostre o dinheiro nem conte a ninguém que fui eu que dei. Bem, agora, até logo. (Levantou-se da cadeira.) Lembranças a Rodion Románitch. A propósito: guarde esse dinheiro por enquanto, quem sabe, com o senhor Razumíkhin. Conhece o senhor Razumíkhin? Claro que conhece. É um rapaz razoável. Leve a ele amanhã ou… quando chegar a hora. E, até lá, esconda bem.2Estrada de Vladímir: caminho pelo qual os condenados seguiam a pé de Moscou para os trabalhos forçados na Sibéria.
Sônia também se levantou de um salto e olhava para ele assustada. Queria muito dizer alguma coisa, perguntar alguma coisa, mas nos primeiros minutos não se atrevia, e nem sabia por onde começar.
— Mas como o senhor… como o senhor vai sair, senhor, agora, com uma chuva destas?
— Ora, quem se prepara para a América não vai ter medo de chuva, he-he! Adeus, minha querida Sófia Semiónovna! Viva, e viva muito, a senhora ainda vai ser útil aos outros. A propósito… diga ao senhor Razumíkhin que mandei lembranças. Transmita assim mesmo: Arkádi Ivánovitch Svidrigáilov, diga, manda lembranças. E sem falta.
Ele saiu, deixando Sônia perplexa, assustada e tomada por uma suspeita vaga e pesada.
Soube-se depois que nessa mesma noite, entre as onze e a meia-noite, ele fez ainda outra visita, muito excêntrica e inesperada. A chuva continuava sem parar. Todo molhado, entrou, às onze e vinte, no apartamentinho apertado dos pais da noiva, na ilha Vassílievski, na Terceira Linha, na Pequena Avenida. Custou a conseguir que lhe abrissem a porta e, no início, causou um grande alvoroço; mas Arkádi Ivánovitch, quando queria, era um homem de maneiras muito encantadoras, de modo que a suposição inicial (aliás, bastante perspicaz) dos sensatos pais da noiva, de que Arkádi Ivánovitch provavelmente tinha se embebedado em algum lugar a ponto de já não saber quem era, caiu por terra no mesmo instante, por si só. O pai, entrevado, foi trazido na cadeira de rodas até Arkádi Ivánovitch pela compassiva e sensata mãe da noiva, que, como de costume, logo começou com umas perguntas indiretas. (Essa mulher nunca fazia perguntas diretas: sempre punha em ação primeiro sorrisos e esfregar de mãos e depois, se era preciso saber alguma coisa sem falta e com certeza, por exemplo, quando seria do agrado de Arkádi Ivánovitch marcar o casamento, começava com perguntas curiosíssimas e quase ávidas sobre Paris e a vida da corte de lá, e só depois, talvez, ia chegando, por ordem, até a Terceira Linha da ilha Vassílievski.) Em outra ocasião tudo isso, é claro, inspirava muito respeito, mas dessa vez Arkádi Ivánovitch mostrou-se especialmente impaciente e quis de todo jeito ver a noiva, embora logo de início lhe tivessem avisado que a noiva já tinha ido dormir. É claro que a noiva apareceu. Arkádi Ivánovitch comunicou-lhe sem rodeios que, por uma circunstância muito importante, precisava deixar Petersburgo por algum tempo e, por isso, lhe trouxera quinze mil rublos de prata, em notas variadas, pedindo que os aceitasse como presente, já que fazia tempo que pretendia lhe dar essa ninharia antes do casamento. Nenhuma ligação lógica especial entre o presente e a partida imediata, e a necessidade absoluta de vir para isso debaixo de chuva e à meia-noite, ficava evidente com essas explicações, é claro; mas a coisa, ainda assim, correu muito bem. Até os inevitáveis ais e uis, as perguntas e os espantos ficaram de repente extraordinariamente moderados e contidos; em compensação, a gratidão foi expressa da forma mais ardente e reforçada até pelas lágrimas da sensatíssima mãe. Arkádi Ivánovitch levantou-se, riu, beijou a noiva, deu-lhe um tapinha na bochecha, confirmou que voltaria logo e, notando nos olhinhos dela, junto com uma curiosidade infantil, também uma pergunta muda e muito séria, pensou um pouco, beijou-a uma segunda vez e ali mesmo lamentou sinceramente, no fundo da alma, que o presente fosse logo guardado a sete chaves pela mais sensata das mães. Saiu, deixando todos num estado de agitação extraordinária. Mas a compassiva mamãe, no mesmo instante, a meia-voz e às pressas, resolveu algumas das dúvidas mais importantes, a saber: que Arkádi Ivánovitch era um homem importante, um homem de negócios e de relações, um ricaço; sabe Deus o que se passava na cabeça dele: deu-lhe na veneta e viajou, deu-lhe na veneta e deu o dinheiro, e portanto não havia do que se admirar. Claro, era estranho que estivesse todo molhado, mas os ingleses, por exemplo, são ainda mais excêntricos, e toda essa gente da alta sociedade não liga para o que vão dizer dela e não faz cerimônia. Talvez até ande assim de propósito, para mostrar que não tem medo de ninguém. E o principal: não dizer uma palavra sobre isso a ninguém, porque sabe Deus o que ainda pode sair disso, e guardar o dinheiro a sete chaves o quanto antes, e, claro, o melhor de tudo foi que Fedóssia ficou na cozinha, e o principal: de jeito nenhum, de jeito nenhum, de jeito nenhum contar nada àquela espertalhona da Resslich, e assim por diante, e assim por diante. Ficaram cochichando até umas duas horas. A noiva, aliás, foi dormir bem mais cedo, surpresa e um pouco triste.
Enquanto isso, Svidrigáilov, exatamente à meia-noite, atravessava a ponte… em direção ao Lado de Petersburgo. A chuva tinha parado, mas o vento zunia. Ele começava a tremer e, por um minuto, olhou com uma curiosidade especial, e até com uma pergunta, para a água negra do Pequeno Nevá. Mas logo achou muito frio ficar ali parado sobre a água; deu meia-volta e tomou a avenida… Já fazia muito tempo, quase meia hora, que caminhava por aquela avenida interminável, tropeçando mais de uma vez no escuro no calçamento de madeira, mas sem parar de procurar com curiosidade alguma coisa do lado direito da avenida. Por ali, já perto do fim da avenida, ele tinha reparado, ao passar de carruagem havia pouco tempo, numa hospedaria de madeira, mas espaçosa, e o nome dela, até onde se lembrava, era algo como Adrianópolis. Não se enganou em seus cálculos: aquela hospedaria, num fim de mundo daqueles, era um ponto tão visível que não havia como não encontrá-la, mesmo no escuro. Era um prédio de madeira comprido e enegrecido, onde, apesar da hora avançada, ainda havia luzes acesas e se notava certo movimento. Ele entrou e pediu um quarto a um maltrapilho que encontrou no corredor. O maltrapilho, depois de medir Svidrigáilov com o olhar, se aprumou e logo o levou a um quarto afastado, abafado e apertado, lá no fim do corredor, num canto, debaixo da escada. Mas não havia outro; estavam todos ocupados. O maltrapilho olhava com ar interrogativo.3Bairro de Petersburgo na margem norte do Nevá, então afastado e pobre, com muitas casas de madeira.
— Tem chá? — perguntou Svidrigáilov.
— Pode-se arranjar, senhor.
— Que mais tem?
— Vitela, senhor, vodca, senhor, tira-gosto, senhor.
— Traga vitela e chá.
— E não vai precisar de mais nada? — perguntou o maltrapilho, até com certa perplexidade.
— Nada, nada!
O maltrapilho se retirou, completamente decepcionado.
“Deve ser um bom lugar”, pensou Svidrigáilov, “como é que eu não sabia? Eu também devo ter a cara de quem está voltando de algum café-concerto e já arrumou alguma encrenca no caminho. Mas é curioso: quem será que se hospeda e passa a noite aqui?”
Acendeu a vela e examinou o quarto com mais atenção. Era um cubículo tão pequeno que quase não dava para a altura de Svidrigáilov, com uma janela só; uma cama muito suja, uma mesa simples pintada e uma cadeira ocupavam quase todo o espaço. As paredes pareciam feitas de tábuas pregadas, com um papel de parede gasto, tão empoeirado e rasgado que a cor (amarela) ainda dava para adivinhar, mas o desenho já não se podia distinguir de jeito nenhum. Uma parte da parede e do teto era cortada em diagonal, como costuma ser nas mansardas, mas ali, por cima dessa inclinação, passava a escada. Svidrigáilov pousou a vela, sentou-se na cama e ficou pensativo. Mas um cochicho estranho e ininterrupto no cubículo vizinho, que às vezes subia quase até virar grito, acabou chamando sua atenção. Esse cochicho não tinha parado desde que ele entrara. Ele apurou o ouvido: alguém xingava e, quase chorando, censurava outro, mas só se ouvia uma voz. Svidrigáilov levantou-se, tapou a vela com a mão, e na parede logo brilhou uma frestinha; ele se aproximou e pôs-se a olhar. No quarto, um pouco maior que o seu, havia dois hóspedes. Um deles, sem sobrecasaca, com a cabeça extremamente encaracolada e o rosto vermelho, inflamado, estava de pé numa pose de orador, de pernas abertas para manter o equilíbrio, e, batendo com a mão no peito, censurava pateticamente o outro por ser um mendigo e por não ter sequer um posto, dizia que o tinha tirado da lama e que, quando quisesse, podia pô-lo para fora, e que tudo isso só o dedo do Altíssimo vê. O amigo censurado estava sentado numa cadeira e tinha o ar de um homem com uma vontade enorme de espirrar, mas que não consegue de jeito nenhum. De vez em quando, com um olhar turvo de carneiro, olhava para o orador, mas, evidentemente, não fazia a menor ideia do que se tratava e mal devia estar ouvindo alguma coisa. Na mesa, uma vela se acabava, e havia uma garrafa de vodca quase vazia, cálices, pão, copos, pepinos e a louça de um chá bebido havia muito tempo. Depois de examinar atentamente essa cena, Svidrigáilov afastou-se da frestinha com indiferença e sentou-se na cama.
O maltrapilho, ao voltar com o chá e a vitela, não conseguiu se conter e perguntou mais uma vez: “Não precisa de mais alguma coisa?”, e, ouvindo outra vez a resposta negativa, retirou-se de vez. Svidrigáilov atirou-se ao chá para se aquecer e bebeu um copo, mas não conseguiu comer um só pedaço, por completa falta de apetite. Ao que parecia, a febre começava. Tirou o sobretudo e o paletó, enrolou-se no cobertor e deitou-se na cama. Estava aborrecido: “Dessa vez seria melhor estar com saúde”, pensou, e deu um sorriso irônico. O quarto estava abafado, a vela ardia fraca, lá fora o vento zunia, num canto um camundongo arranhava, e o quarto inteiro parecia cheirar a camundongo e a alguma coisa de couro. Estava deitado e como que sonhava acordado: um pensamento sucedia outro, e parecia que ele gostaria muito de se agarrar com a imaginação a alguma coisa, fosse o que fosse. “Debaixo da janela deve haver algum jardim”, pensou, “as árvores estão fazendo barulho; como eu não gosto do barulho das árvores à noite, na tempestade e no escuro, sensação ruim!” E lembrou que, ao passar havia pouco perto do parque Petróvski, chegara a pensar nele com repulsa. Então, a propósito, lembrou-se também da ponte… e do Pequeno Nevá, e de novo sentiu como que frio, como havia pouco, quando estava parado sobre a água. “Nunca na vida gostei de água, nem mesmo em paisagens”, pensou de novo, e de repente sorriu outra vez de uma ideia estranha: “Ora, parece que agora tudo isso devia me ser indiferente, toda essa estética e esse conforto, e justamente agora fiquei exigente, feito um animal que sempre escolhe o seu lugar… num caso parecido. Justamente, eu devia ter virado para a ilha Petróvski! Na certa achei escuro, frio, he-he! Quase que precisei de sensações agradáveis!… A propósito, por que não apago a vela? (Soprou-a.) Os vizinhos foram dormir”, pensou, não vendo luz na frestinha de antes. “Pois bem, Marfa Petrovna, agora é que a senhora devia aparecer: está escuro, o lugar é apropriado, e o momento é original. Mas é justamente agora que a senhora não vem…”
De repente, não se sabe por quê, lembrou-se de que, horas antes, uma hora antes de executar seu plano contra Dúnietchka, recomendara a Raskólnikov que a confiasse à proteção de Razumíkhin. “De fato, eu talvez tenha dito aquilo mais por provocação minha, como Raskólnikov adivinhou. Mas que velhaco, esse Raskólnikov! Já carregou muita coisa nas costas. Pode virar um grande velhaco com o tempo, quando lhe passarem as bobagens, mas agora ele quer viver demais! Nesse ponto essa gente é canalha. Ora, que vá para o diabo, que faça como quiser, que me importa.”
Continuava sem conseguir dormir. Pouco a pouco, a imagem de Dúnietchka, como estava horas antes, começou a surgir diante dele, e de repente um tremor percorreu seu corpo. “Não, agora é preciso largar isso”, pensou, voltando a si, “é preciso pensar em outra coisa. Estranho e engraçado: nunca tive grande ódio de ninguém, nunca tive nem muita vontade de me vingar, e isso é mau sinal, mau sinal! Discutir eu também não gostava, nem me exaltava: também mau sinal! E quanta coisa eu lhe prometi há pouco… pff, diabo! E, quem sabe, ela até me teria moído e refeito de algum jeito…” De novo se calou e cerrou os dentes: de novo a imagem de Dúnietchka surgiu diante dele, exatamente como ela estava quando, depois de disparar a primeira vez, se assustou terrivelmente, baixou o revólver e, branca como uma morta, ficou olhando para ele, de modo que ele teria tido tempo de agarrá-la duas vezes, e ela não teria nem erguido a mão para se defender, se ele mesmo não a tivesse lembrado. Lembrou-se de como, naquele instante, sentiu como que pena dela, como se algo lhe apertasse o coração… “Eh! Para o diabo! Outra vez esses pensamentos, é preciso largar tudo isso, largar!…”
Já ia pegando no sono; o tremor da febre se acalmava, quando de repente alguma coisa pareceu correr por baixo do cobertor, pelo seu braço e pela perna. Ele estremeceu: “Pff, diabo, parece até um camundongo!”, pensou. “Fui eu que deixei a vitela na mesa…” Não tinha a menor vontade de se descobrir, levantar, passar frio, mas de repente alguma coisa de novo roçou desagradavelmente sua perna; ele arrancou o cobertor e acendeu a vela. Tremendo com o frio da febre, curvou-se para examinar a cama: não havia nada; sacudiu o cobertor, e de repente um camundongo saltou sobre o lençol. Ele se lançou para apanhá-lo; mas o camundongo não fugia da cama: corria em ziguezague para todos os lados, escapava por entre os dedos dele, passava correndo pelo braço e, de repente, se enfiou debaixo do travesseiro; ele jogou o travesseiro longe, mas num instante sentiu que alguma coisa pulou para dentro da sua camisa, roçava pelo corpo e já estava nas costas, debaixo da camisa. Ele tremeu nervosamente e acordou. O quarto estava escuro, ele estava deitado na cama, enrolado no cobertor como antes, e debaixo da janela o vento uivava. “Que coisa nojenta!”, pensou, aborrecido.
Levantou-se e sentou-se na beira da cama, de costas para a janela. “Melhor nem dormir”, decidiu. Da janela, porém, vinha frio e umidade; sem sair do lugar, puxou o cobertor para cima de si e se enrolou nele. Não acendeu a vela. Não pensava em nada, nem queria pensar; mas os devaneios surgiam um atrás do outro, passavam fragmentos de pensamentos, sem começo nem fim e sem ligação. Era como se caísse num meio sono. Se foi o frio, a escuridão, a umidade ou o vento que uivava debaixo da janela e balançava as árvores que despertou nele uma inclinação e um desejo obstinados e fantásticos, não se sabe, mas só lhe vinham à mente flores. Imaginou uma paisagem encantadora; um dia claro, quase quente, um dia de festa, o dia da Santíssima Trindade. Uma casa de campo rica, luxuosa, ao gosto inglês, toda cercada de canteiros de flores perfumadas, rodeada de leiras que corriam em volta da casa inteira; uma varanda de entrada envolta em trepadeiras, tomada por canteiros de rosas; uma escada clara e fresca, forrada de um tapete luxuoso, enfeitada com flores raras em vasos chineses. Reparou sobretudo, nos vasos com água junto às janelas, em ramos de narcisos brancos e delicados, que se inclinavam sobre seus caules verde-vivos, grossos e longos, com um perfume forte. Não tinha vontade nem de se afastar deles, mas subiu a escada e entrou num salão grande e alto, e ali também, por toda parte, junto às janelas, perto das portas abertas para o terraço, no próprio terraço, por toda parte havia flores. O chão estava coberto de capim fresco, recém-cortado e perfumado, as janelas estavam abertas, um ar fresco, leve, frio entrava no salão, passarinhos chilreavam debaixo das janelas, e no meio do salão, sobre mesas cobertas de panos de cetim branco, estava um caixão. Esse caixão era forrado de gros de Naples branco e debruado com um babado branco e espesso. Guirlandas de flores o envolviam de todos os lados. Toda coberta de flores, jazia nele uma menina, num vestido branco de tule, com as mãos cruzadas e apertadas sobre o peito, como se esculpidas em mármore. Mas seus cabelos soltos, cabelos de um louro claro, estavam molhados; uma coroa de rosas cingia sua cabeça. O perfil severo e já enrijecido de seu rosto também parecia esculpido em mármore, mas o sorriso nos lábios pálidos estava cheio de uma dor sem limites, nada infantil, e de uma grande queixa. Svidrigáilov conhecia essa menina; não havia ícone nem velas acesas junto àquele caixão, e não se ouviam orações. Essa menina era uma suicida: uma afogada. Tinha só catorze anos, mas aquele já era um coração partido, e ele se destruíra, ofendido por uma afronta que horrorizara e espantara aquela consciência jovem, infantil, que cobrira de uma vergonha imerecida sua alma de pureza angelical e lhe arrancara o último grito de desespero, não ouvido, mas insolentemente ultrajado numa noite escura, nas trevas, no frio, no degelo úmido, quando o vento uivava…
Svidrigáilov voltou a si, levantou-se da cama e deu um passo até a janela. Achou o trinco às apalpadelas e abriu a janela. O vento irrompeu furioso no seu cubículo apertado e como que lhe cobriu de geada o rosto e o peito, protegido só pela camisa. Debaixo da janela devia mesmo haver uma espécie de jardim e, ao que parece, também de diversões; provavelmente, de dia, ali também cantavam cantores e levavam chá para as mesinhas. Agora, porém, das árvores e dos arbustos voavam respingos pela janela, estava escuro como num porão, tanto que mal e mal se distinguiam umas manchas escuras que indicavam os objetos. Svidrigáilov, curvado, com os cotovelos apoiados no peitoril, já olhava havia uns cinco minutos, sem desviar os olhos, para aquela escuridão enevoada. Em meio às trevas e à noite soou um tiro de canhão, depois outro.4Em Petersburgo, quando as águas do Nevá subiam acima de certo nível, disparavam-se tiros de canhão para avisar a população do risco de enchente. As partes baixas da cidade eram as primeiras a ser inundadas.
“Ah, o sinal! A água está subindo”, pensou, “de manhã vai transbordar para as ruas, onde o terreno é mais baixo, vai inundar os porões e as adegas, os ratos dos porões vão boiar, e no meio da chuva e do vento as pessoas, praguejando, molhadas, vão começar a carregar seus trastes para os andares de cima… E que horas serão agora?” E mal pensou isso, em algum lugar ali perto, tiquetaqueando e como que se apressando com todas as forças, um relógio de parede bateu três horas. “Ora, daqui a uma hora já vai clarear! Esperar o quê? Vou sair agora, vou direto para a ilha Petróvski: lá escolho em algum lugar um arbusto grande, todo encharcado de chuva, de modo que basta roçar com o ombro e milhões de respingos molham a cabeça inteira…” Afastou-se da janela, fechou-a, acendeu a vela, vestiu o colete e o sobretudo, pôs o chapéu e saiu com a vela para o corredor, para encontrar o maltrapilho, que dormia em algum cubículo entre trastes e tocos de vela, pagar-lhe o quarto e sair da hospedaria. “O melhor momento, não se podia escolher melhor!”
Andou muito tempo por todo o corredor comprido e estreito sem encontrar ninguém, e já ia chamar em voz alta quando, de repente, num canto escuro, entre um armário velho e uma porta, distinguiu um objeto estranho, uma coisa que parecia viva. Abaixou-se com a vela e viu uma criança: uma menina de uns cinco anos, não mais, num vestidinho encharcado como um pano de chão, tremendo e chorando. Parecia nem ter se assustado com Svidrigáilov, mas olhava para ele com um espanto apático, com seus grandes olhinhos pretos, e de vez em quando soluçava, como as crianças que choraram muito tempo, mas já pararam e até se consolaram, e no entanto, volta e meia, de repente soluçam outra vez. O rostinho da menina era pálido e esgotado; estava enregelada de frio, mas “como foi que ela veio parar aqui? Então se escondeu aqui e não dormiu a noite inteira”. Ele começou a interrogá-la. A menina de repente se animou e, depressa, depressa, se pôs a balbuciar alguma coisa na sua língua de criança. Era alguma coisa sobre a “mamã” e que a “mamã vai batê”, sobre uma xícara que ela “quebô” (quebrou). A menina falava sem parar; de algum modo se podia adivinhar, por todas aquelas histórias, que era uma criança mal-amada, que a mãe, alguma cozinheira sempre bêbada, provavelmente da própria hospedaria, espancava e aterrorizava; que a menina quebrara a xícara da mamãe e se assustara tanto que fugira ainda à noitinha; provavelmente ficara muito tempo escondida em algum canto do pátio, debaixo da chuva, e por fim se esgueirara até ali, se escondera atrás do armário e passara a noite inteira naquele canto, chorando, tremendo de umidade, de escuridão e de medo de que agora apanharia muito por tudo aquilo. Ele a pegou no colo, foi para o seu quarto, sentou-a na cama e começou a despi-la. Os sapatinhos furados dela, calçados sem meia, estavam tão molhados como se tivessem passado a noite inteira numa poça. Depois de despi-la, deitou-a na cama, cobriu-a e enrolou-a inteira no cobertor, com cabeça e tudo. Ela adormeceu imediatamente. Terminado tudo, ele de novo ficou pensativo e sombrio.
“Que ideia, me meter nisso!”, decidiu de repente, com uma sensação pesada e raivosa. “Que bobagem!” Irritado, pegou a vela para ir procurar o maltrapilho a todo custo e ir embora dali o quanto antes. “Eh, menina!”, pensou, praguejando, já abrindo a porta, mas voltou mais uma vez para olhar a menina: estaria dormindo, e como dormia? Levantou o cobertor com cuidado. A menina dormia um sono profundo e feliz. Tinha se aquecido debaixo do cobertor, e a cor já se espalhava pelas suas faces pálidas. Mas, estranho: essa cor parecia mais viva e mais forte do que poderia ser o rubor comum de uma criança. “É rubor de febre”, pensou Svidrigáilov; é como rubor de vinho, como se lhe tivessem dado de beber um copo inteiro. Os labiozinhos vermelhos parecem arder, queimar; mas o que é isso? De repente lhe pareceu que os cílios longos e negros dela estremeciam e piscavam, como se se erguessem, e por baixo deles espiava um olhinho astuto, agudo, de uma piscadela nada infantil, como se a menina não estivesse dormindo e fingisse. Sim, é isso mesmo: os labiozinhos se abrem num sorriso; os cantinhos da boca tremem, como se ainda se contivessem. Mas eis que ela já deixou de se conter de todo; já é riso, riso declarado; algo de insolente, de provocante brilha nesse rosto nada infantil; é devassidão, é o rosto de uma camélia, o rosto insolente de uma camélia venal, dessas francesas. Eis que, já sem nenhum disfarce, os dois olhos se abrem: envolvem-no com um olhar ardente e despudorado, chamam-no, riem… Havia algo de infinitamente monstruoso e ultrajante naquele riso, naqueles olhos, em toda aquela torpeza no rosto de uma criança. “O quê! Com cinco anos!”, sussurrou Svidrigáilov, com verdadeiro horror. “Isso… o que é isso?” Mas eis que ela já se vira inteiramente para ele, com todo o rostinho em fogo, e estende os braços… “Ah, maldita!”, gritou Svidrigáilov, horrorizado, erguendo a mão sobre ela… Mas no mesmo instante acordou.5“Camélia” era um eufemismo da época para cortesã, prostituta de luxo, por causa do romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho.
Está na mesma cama, enrolado do mesmo jeito no cobertor; a vela não está acesa, e nas janelas já clareia o dia pleno.
“Pesadelo a noite inteira!” Ergueu-se com raiva, sentindo-se todo moído; os ossos doíam. Lá fora, uma neblina completamente densa, e não se consegue distinguir nada. Já são quase cinco horas; dormiu demais! Levantou-se e vestiu o paletó e o sobretudo, ainda úmidos. Apalpando o revólver no bolso, tirou-o e ajeitou a espoleta; depois sentou-se, tirou do bolso uma caderneta e, na primeira folha, a mais visível, escreveu algumas linhas em letras grandes. Depois de relê-las, ficou pensativo, com o cotovelo apoiado na mesa. O revólver e a caderneta estavam ali mesmo, junto do cotovelo. Moscas despertadas grudavam na porção intocada de vitela, que estava ali mesmo, na mesa. Ele ficou muito tempo olhando para elas e por fim, com a mão direita, que estava livre, começou a tentar pegar uma mosca. Esgotou-se muito tempo em esforços, mas não conseguiu pegá-la de jeito nenhum. Por fim, surpreendendo-se nessa ocupação interessante, voltou a si, estremeceu, levantou-se e saiu do quarto com decisão. Um minuto depois estava na rua.
Uma neblina densa, leitosa, pairava sobre a cidade. Svidrigáilov seguiu pelo calçamento de madeira, escorregadio e sujo, em direção ao Pequeno Nevá. Vinham-lhe à imaginação a água do Pequeno Nevá, que subira muito durante a noite, a ilha Petróvski, as trilhas molhadas, a grama molhada, as árvores e os arbustos molhados e, por fim, aquele mesmo arbusto… Com irritação, pôs-se a examinar as casas, para pensar em outra coisa. Não cruzava com nenhum transeunte, com nenhum cocheiro pela avenida. As casinhas de madeira, de um amarelo vivo, com as venezianas fechadas, tinham um ar tristonho e sujo. O frio e a umidade lhe penetravam o corpo todo, e ele começou a ter calafrios. De vez em quando dava com tabuletas de lojas e de quitandas e lia cada uma com cuidado. Pronto, o calçamento de madeira já tinha acabado. Já estava na altura de um grande prédio de pedra. Um cachorrinho sujo, tiritando, de rabo entre as pernas, cruzou o seu caminho. Um sujeito bêbado feito um morto, de capote, estava estendido de bruços, atravessado na calçada. Ele o olhou e seguiu adiante. Uma alta torre de vigia dos bombeiros surgiu à sua esquerda. “Ora!”, pensou, “eis aqui um lugar, para que ir à ilha Petróvski? Pelo menos diante de uma testemunha oficial…” Quase sorriu desse novo pensamento e virou na rua… Era ali que ficava o grande prédio com a torre. Junto ao grande portão fechado do prédio, encostado nele com o ombro, estava um homenzinho miúdo, enrolado num capote cinzento de soldado e com um capacete de cobre à moda de Aquiles. Com um olhar sonolento, olhou de esguelha, com frieza, para Svidrigáilov, que se aproximava. No seu rosto via-se aquela eterna tristeza rabugenta que se imprimiu de modo tão azedo em todos os rostos da raça judaica, sem exceção. Os dois, Svidrigáilov e Aquiles, ficaram algum tempo examinando um ao outro em silêncio. Por fim, pareceu a Aquiles uma irregularidade que um homem que não estava bêbado estivesse parado diante dele, a três passos, olhando-o fixamente sem dizer nada.
— A-zi, o que-zi o senhor qué por aqui-i-i? — disse ele, ainda sem se mexer nem mudar de posição.
— Nada, irmão, bom dia! — respondeu Svidrigáilov.
— Aqui num é lugar.
— Eu, irmão, estou indo para o estrangeiro.
— Pro estrangeiro?
— Para a América.
— Pra América?
Svidrigáilov tirou o revólver e engatilhou. Aquiles ergueu as sobrancelhas.
— A-zi, o que-zi, essas brincazeiras (brincadeiras) aqui num é lugar!
— E por que não seria lugar?
— Porque-zi num é lugar, ora.
— Bem, irmão, tanto faz. O lugar é bom; se te perguntarem, é só responder que ele foi, assim, para a América.
Encostou o revólver na própria têmpora direita.
— A-zi, aqui num pode, aqui num é lugar! — sobressaltou-se Aquiles, arregalando cada vez mais as pupilas.
Svidrigáilov puxou o gatilho.