Quando ele entrou na casa de Sônia, já começava a escurecer. Sônia o esperara o dia inteiro numa agitação terrível. Esperaram juntas, ela e Dúnia. Dúnia tinha vindo de manhã cedo, lembrando-se das palavras de Svidrigáilov na véspera, de que Sônia “sabia daquilo”. Não vamos relatar os detalhes da conversa e das lágrimas das duas mulheres, nem o quanto se aproximaram uma da outra. Desse encontro Dúnia tirou pelo menos um consolo: o irmão não ficaria sozinho. Fora a ela, a Sônia, que ele procurara primeiro com a sua confissão; nela buscara um ser humano quando precisou de um ser humano; e ela o seguiria aonde o destino o mandasse. Dúnia nem perguntou, mas sabia que seria assim. Olhava para Sônia até com uma espécie de veneração, e no começo quase a deixava encabulada com esse sentimento reverente com que a tratava. Sônia esteve a ponto de chorar: ela, ao contrário, se considerava indigna até de olhar para Dúnia. A bela imagem de Dúnia, quando esta se despedira dela com tanta atenção e respeito no primeiro encontro das duas, no quarto de Raskólnikov, ficara desde então para sempre em sua alma, como uma das visões mais belas e inalcançáveis de sua vida.
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Crime e Castigo · Parte seis
Capítulo VIII
Dúnietchka afinal não aguentou mais e deixou Sônia, para esperar o irmão no quarto dele; tinha sempre a impressão de que ele iria primeiro para lá. Assim que ficou sozinha, Sônia começou logo a se atormentar de medo, pensando que talvez ele realmente se suicidasse. Dúnia temia a mesma coisa. Mas as duas tinham passado o dia inteiro a convencer uma à outra, com todos os argumentos, de que isso não podia acontecer, e ficavam mais tranquilas enquanto estavam juntas. Agora, mal tinham se separado, cada uma só conseguia pensar nisso. Sônia se lembrava de que na véspera Svidrigáilov lhe dissera que Raskólnikov tinha dois caminhos: a estrada de Vladímir ou… Além disso, ela conhecia a vaidade dele, a arrogância, o amor-próprio e a descrença. “Será possível que só a covardia e o medo da morte possam fazê-lo viver?”, pensou ela por fim, desesperada. Enquanto isso, o sol já se punha. Ela estava parada diante da janela, triste, olhando fixamente através dela; mas pela janela só se via a parede mestra, sem caiação, do prédio vizinho. Por fim, quando ela já chegara à plena convicção da morte do infeliz, ele entrou no quarto dela.1Estrada de Vladímir: caminho pelo qual os condenados seguiam a pé de Moscou para os trabalhos forçados na Sibéria. A outra saída sugerida é o suicídio.
Um grito de alegria escapou do peito dela. Mas, olhando atentamente para o rosto dele, ela de repente empalideceu.
— Pois é! — disse Raskólnikov, com um sorriso torto. — Vim buscar as suas cruzes, Sônia. Foi você mesma que me mandou para a encruzilhada; e agora, que chegou a hora, ficou com medo?
Sônia olhava para ele, espantada. Aquele tom lhe pareceu estranho; um arrepio frio chegou a percorrer seu corpo, mas um minuto depois ela percebeu que tanto o tom como as palavras eram fingidos. Ele falava com ela olhando para um canto, como se evitasse encará-la de frente.
— Sabe, Sônia, eu concluí que assim talvez seja até mais vantajoso. Há uma circunstância… Bem, é longo para contar, e nem vale a pena. Sabe o que é que me irrita? Me dá raiva que todas essas caras estúpidas e bestiais vão me cercar daqui a pouco, arregalar os olhos para mim, me fazer as suas perguntas estúpidas, que vou ter de responder, apontar o dedo para mim… Pff! Sabe, não vou procurar o Porfíri; cansei dele. Prefiro ir ao meu amigo Pólvora; esse sim eu vou surpreender, vou causar um efeito daqueles, no seu gênero. Mas eu precisava ter mais sangue-frio; ando bilioso demais ultimamente. Acredita? Agora há pouco quase ameacei minha irmã de punho fechado, só porque ela se virou para me olhar pela última vez. Que porcaria, um estado desses! Eh, a que ponto eu cheguei! Bom, e então, onde estão as cruzes?
Ele parecia fora de si. Não conseguia ficar parado nem um minuto, nem concentrar a atenção em coisa nenhuma; os pensamentos saltavam uns por cima dos outros, ele se atrapalhava ao falar; as mãos tremiam levemente.
Sônia tirou da gaveta, em silêncio, duas cruzes, uma de cipreste e uma de cobre, fez o sinal da cruz, benzeu-o e pendurou no peito dele a cruzinha de cipreste.
— Quer dizer que isto é o símbolo de que tomo a cruz sobre mim, he-he! E é verdade, até agora sofri pouco! A de cipreste, isto é, a do povo simples; a de cobre é a da Lizavieta, essa você fica para si… mostre aqui? Então ela estava com esta… naquele momento? Também conheço duas cruzes parecidas, uma de prata e uma imagenzinha de santo. Naquela vez eu as joguei sobre o peito da velhota. Essas é que viriam a calhar agora, palavra, essas é que eu devia pôr… Aliás, estou dizendo bobagem, vou acabar esquecendo o principal; ando meio distraído!… Veja, Sônia, eu vim propriamente para avisar você, para você saber… Bem, é só isso… Vim só para isso. (Hum, mas eu achava que ia dizer mais.) Pois você mesma queria que eu fosse; então vou ficar na prisão e o seu desejo vai se cumprir; por que é que está chorando? Você também? Pare, chega; ah, como tudo isso é pesado para mim!
Um sentimento, porém, nasceu nele; seu coração se apertou ao olhar para ela. “Essa aí, essa aí, por que é que ela…? — pensava ele consigo. — O que sou eu para ela? Por que chora, por que me apronta para a partida, como a mãe ou a Dúnia? Vai ser a minha babá!”
— Faça o sinal da cruz, reze ao menos uma vez — pediu Sônia, com a voz trêmula e tímida.
— Oh, pois não, quantas vezes você quiser! E de coração sincero, Sônia, de coração sincero…
Ele queria, aliás, dizer outra coisa.
Ele se benzeu várias vezes. Sônia pegou o seu xale e o jogou sobre a cabeça. Era um xale verde de drap-de-dames, provavelmente aquele mesmo que Marmeládov mencionara naquela vez, o “da família”. Raskólnikov pensou nisso de passagem, mas não perguntou. De fato, ele próprio já começava a sentir que estava terrivelmente distraído e numa agitação meio disforme. Isso o assustou. Também o impressionou, de repente, que Sônia quisesse sair junto com ele.
— O que é isso! Aonde você vai? Fique, fique! Vou sozinho — exclamou ele, num despeito covarde, e, quase com raiva, foi para a porta. — Para que um séquito inteiro! — resmungava ele, saindo.
Sônia ficou no meio do quarto. Ele nem se despediu dela, já tinha se esquecido dela; uma dúvida mordaz e rebelde ferveu em sua alma.
“Mas será mesmo assim, será mesmo assim tudo isso? — pensou ele de novo, descendo a escada. — Será que não dá mais para parar e consertar tudo outra vez… e não ir?”
Mas mesmo assim ele ia. Sentiu de repente, de forma definitiva, que não adiantava ficar se fazendo perguntas. Ao sair para a rua, lembrou-se de que não se despedira de Sônia, de que ela ficara no meio do quarto, com o seu xale verde, sem ousar se mexer depois do grito dele, e parou por um instante. Nesse mesmo instante, um pensamento o iluminou com toda a clareza, como se estivesse à espera para atingi-lo de vez.
“Mas para quê, por que fui à casa dela agora? Disse a ela: por um assunto; mas que assunto? Não havia assunto nenhum! Anunciar que vou; e daí? Grande necessidade! Será que eu a amo? Não, não é? Pois acabei de enxotá-la como a um cachorro. Será que eu precisava mesmo das cruzes dela? Oh, como desci baixo! Não: eu precisava das lágrimas dela, precisava ver o susto dela, ver o coração dela doer e se dilacerar! Precisava me agarrar em alguma coisa, ganhar tempo, olhar para um ser humano! E eu ousei ter tanta confiança em mim, sonhar tanto comigo mesmo, eu, um mendigo, eu, um nada, um canalha, um canalha!”
Ia pela margem do canal, e já não lhe faltava muito. Mas, chegando à ponte, parou um pouco e de repente entrou na ponte, desviando-se do caminho, e foi para a praça Sennaia.
Olhava com avidez para a direita e para a esquerda, examinava com esforço cada objeto e não conseguia fixar a atenção em nada; tudo escapava. “Daqui a uma semana, daqui a um mês, vão me levar para algum lugar num desses carros de presos, por esta ponte; como será que vou olhar então para este canal? Será que devo guardar isto na memória? — passou-lhe pela cabeça. — Esta tabuleta aqui: como será que vou ler então estas mesmas letras? Aqui está escrito: ‘Cumpanhia’; pois então guardar esse u, a letra u, e olhar para ela daqui a um mês, para este mesmo u: como será que vou olhar então? O que será que vou sentir e pensar?… Meu Deus, como tudo isso deve ser baixo, todas essas minhas… preocupações de agora! Claro que tudo isso deve ser curioso… no seu gênero… (ha-ha-ha! no que estou pensando!) estou virando criança, estou me exibindo para mim mesmo; por que é que estou me envergonhando? Ufa, como empurram! Esse gordo aí, um alemão, deve ser, que me deu um empurrão: será que ele sabe em quem esbarrou? Uma mulher com uma criança pede esmola; curioso que ela me ache mais feliz do que ela. E que tal dar uma esmola, por curiosidade? Ora, sobrou uma moeda de cinco copeques no bolso, de onde veio? Tome, tome… pegue, minha senhora!”
— Deus te guarde! — ouviu-se a voz chorosa da mendiga.
Ele entrou na praça Sennaia. Era-lhe desagradável, muito desagradável, se ver no meio do povo, mas ia justamente para onde se via mais gente. Teria dado tudo no mundo para ficar sozinho; mas sentia ele mesmo que não ficaria sozinho nem um minuto. No meio da multidão, um bêbado fazia arruaça: queria dançar o tempo todo, mas o tempo todo tombava de lado. Tinham-no cercado. Raskólnikov se espremeu pela multidão, ficou alguns minutos olhando o bêbado e de repente soltou uma gargalhada curta e seca. Um minuto depois já tinha se esquecido dele, nem o via, embora olhasse para ele. Afastou-se por fim, sem nem lembrar onde estava; mas, quando chegou ao meio da praça, de repente se deu nele um movimento, uma sensação se apoderou dele de uma vez, tomou-o por inteiro, de corpo e pensamento.
Lembrou-se de repente das palavras de Sônia: “Vá até a encruzilhada, faça uma reverência ao povo, beije a terra, porque você pecou também contra ela, e diga ao mundo inteiro, em voz alta: ‘Eu sou um assassino!’”. Pôs-se a tremer todo ao se lembrar disso. E a angústia sem saída e a inquietação de todo aquele tempo, mas sobretudo das últimas horas, já o tinham esmagado a tal ponto que ele simplesmente se lançou à possibilidade dessa sensação inteira, nova, plena. Ela lhe sobreveio de repente, como um ataque: acendeu-se na alma como uma única faísca e de repente, como fogo, tomou-o todo. Tudo nele se amoleceu de uma vez, e as lágrimas jorraram. Do jeito que estava, caiu no chão…
Ajoelhou-se no meio da praça, inclinou-se até o chão e beijou aquela terra suja, com deleite e felicidade. Levantou-se e inclinou-se uma segunda vez.
— Olha só como encheu a cara! — observou um rapaz ao lado dele.
Ouviram-se risadas.
— É que ele vai para Jerusalém, irmãos, está se despedindo dos filhos, da terra natal, faz reverência ao mundo inteiro, beija a capital, a cidade de São Petersburgo, e o chão dela — acrescentou um pequeno-burguês meio embriagado.
— É um rapazinho ainda! — emendou um terceiro.
— É de família nobre! — observou alguém, com voz grave.
— Hoje em dia não dá para distinguir quem é nobre e quem não é.
Todos esses comentários e conversas contiveram Raskólnikov, e as palavras “eu matei”, que talvez estivessem prestes a lhe escapar da língua, morreram dentro dele. Ele, no entanto, suportou calmamente toda aquela gritaria e, sem olhar em volta, seguiu direto pela travessa em direção à delegacia. No caminho, uma visão passou diante dele, mas não o espantou; já pressentia que tinha de ser assim. Quando, na praça Sennaia, ele se inclinara até o chão pela segunda vez, virando-se para a esquerda, viu Sônia a uns cinquenta passos de distância. Ela se escondia dele atrás de uma das barracas de madeira que havia na praça; então ela o acompanhara em toda a sua procissão dolorosa! Raskólnikov sentiu e compreendeu naquele momento, de uma vez por todas, que Sônia agora estava com ele para sempre e o seguiria nem que fosse até o fim do mundo, aonde quer que o destino o levasse. Seu coração revirou-se todo… mas eis que ele já chegara ao lugar fatal…
Entrou no pátio com bastante ânimo. Era preciso subir ao terceiro andar. “Enquanto isso, ainda vou subir”, pensou ele. De modo geral, tinha a impressão de que o minuto fatal ainda estava longe, de que ainda restava muito tempo, de que ainda se podia repensar muita coisa.
De novo o mesmo lixo, as mesmas cascas na escada em caracol, de novo as portas dos apartamentos escancaradas, de novo as mesmas cozinhas, de onde vinham fumaça e fedor. Raskólnikov não voltara ali desde aquela vez. As pernas dele ficavam dormentes e se dobravam, mas andavam. Parou por um instante para tomar fôlego, para se recompor, para entrar como gente. “Mas para quê? Por quê? — pensou de repente, dando-se conta do próprio gesto. — Se é preciso mesmo beber este cálice, não dá tudo na mesma? Quanto pior, melhor. — Na imaginação dele passou nesse instante a figura de Iliá Petróvitch Pólvora. — Será mesmo que vou falar com ele? E não daria para falar com outro? Não daria para ir a Nikodim Fomitch? Dar meia-volta agora e ir à casa do próprio comissário? Pelo menos tudo se resolveria de modo doméstico… Não, não! Ao Pólvora, ao Pólvora! Se é para beber, que seja tudo de uma vez…”
Gelado e mal se dando conta de si, abriu a porta da delegacia. Dessa vez havia muito pouca gente; estavam lá um porteiro e mais um homem do povo. O guarda nem espiou da sua divisória. Raskólnikov passou para a sala seguinte. “Talvez ainda dê para não dizer nada”, passava-lhe pela cabeça. Ali, um sujeito qualquer, dos escreventes, de sobrecasaca à paisana, se ajeitava para escrever alguma coisa numa escrivaninha. Num canto, outro escrevente se acomodava. Zamiótov não estava. Nikodim Fomitch, claro, também não.
— Não há ninguém? — Raskólnikov ia perguntando ao sujeito da escrivaninha.
— E quem o senhor procura?
— A-a-ah! Nem se ouvia, nem se via, e eis que cheira a espírito russo… como é mesmo que diz o conto… esqueci! M-meus r-res-peitos! — exclamou de repente uma voz conhecida.2Paródia de uma fórmula dos contos populares russos, em que a bruxa Baba-Iagá, ao farejar um visitante, diz que sente “cheiro de espírito russo”.
Raskólnikov estremeceu. Diante dele estava o Pólvora; tinha saído de repente da terceira sala. “É o próprio destino — pensou Raskólnikov. — Por que ele está aqui?”
— Veio nos ver? Por quê? — exclamava Iliá Petróvitch. (Ao que parecia, estava num estado de espírito excelentíssimo e até um pouquinho exaltado.) — Se é por algum assunto, chegou cedo demais. Eu mesmo estou aqui por acaso… Mas, enfim, no que eu puder… Confesso ao senhor… como? como? Desculpe…
— Raskólnikov.
— Ora essa: Raskólnikov! Como o senhor pôde supor que eu tivesse esquecido! Por favor, não me tome por um sujeito desses… Rodion Ro… Ro… Rodiónitch, não é isso?
— Rodion Románitch.
— Sim, sim, sim! Rodion Románitch, Rodion Románitch! Era isso mesmo que eu queria. Até me informei várias vezes. Confesso ao senhor que desde então fiquei sinceramente desgostoso por termos naquela vez, nós dois… depois me explicaram, fiquei sabendo que era um jovem literato e até um erudito… e, por assim dizer, os primeiros passos… Oh, Senhor! Mas qual dos literatos e eruditos não deu, no começo, passos originais! Eu e minha mulher, nós dois respeitamos a literatura, e a minha mulher então, até a paixão!… A literatura e as coisas artísticas! Basta ser nobre, o resto tudo se pode adquirir com talento, saber, juízo, gênio! O chapéu… ora, o que significa, por exemplo, um chapéu? Um chapéu é um trapo achatado, compro um na loja do Zimmermann; mas o que se guarda debaixo do chapéu e o chapéu cobre, isso eu já não compro, senhor!… Confesso que eu queria até ir procurá-lo para me explicar, mas pensei que talvez o senhor… Mas nem pergunto: o senhor precisa mesmo de alguma coisa? Dizem que vieram uns parentes seus?
— Sim, minha mãe e minha irmã.
— Tive até a honra e a felicidade de encontrar a sua irmã: uma pessoa instruída e encantadora. Confesso que lamentei termos nos exaltado tanto naquela vez. Que caso! E aquele olhar que lancei naquela vez sobre o senhor, por causa do seu desmaio… depois tudo se explicou da maneira mais brilhante! Fanatismo e barbárie! Compreendo a sua indignação. Talvez, por causa da chegada da família, o senhor esteja mudando de casa?
— N-não, eu só… Passei para perguntar… pensei que fosse encontrar o Zamiótov aqui.
— Ah, sim! Os senhores ficaram amigos; ouvi dizer, senhor. Pois o Zamiótov não está, o senhor não o encontrou. Sim, senhor, perdemos o Aleksandr Grigórievitch! Desde ontem não se acha mais entre nós; foi transferido… e, ao sair, ainda brigou com todo mundo… de um jeito até grosseiro… Um moleque cabeça de vento, nada mais; até podia prometer alguma coisa; mas vá lidar com eles, com essa nossa brilhante juventude! Parece que quer prestar algum exame, mas entre nós é só falar e contar vantagem, e o exame acaba aí. Não é como, por exemplo, o senhor, ou aquele senhor Razumíkhin, seu amigo! A sua carreira é a parte científica, e os fracassos já não vão desviá-lo! Para o senhor todas essas belezas da vida, pode-se dizer, nihil est: um asceta, um monge, um eremita!… Para o senhor, o livro, a pena atrás da orelha, as pesquisas eruditas: é aí que o seu espírito voa! Eu mesmo, em parte… o senhor teve a bondade de ler as memórias de Livingstone?3nada (latim).4David Livingstone (1813–1873), missionário e explorador escocês da África, cujos relatos de viagem foram muito lidos na época.
— Não.
— Pois eu li. Hoje em dia, aliás, apareceram muitíssimos niilistas; bem, isso até se entende; que tempos são estes, eu lhe pergunto? Mas, enfim, eu com o senhor… o senhor, claro, não é niilista! Responda com franqueza, com franqueza!
— N-não…
— Não, sabe, seja franco comigo, não se acanhe, como se estivesse a sós consigo mesmo! Uma coisa é a função, outra coisa é… o senhor pensou que eu fosse dizer afeição; não, senhor, não acertou! Não afeição, mas o sentimento de cidadão e de homem, o sentimento de humanidade e de amor ao Altíssimo. Posso ser uma figura oficial e estar no exercício do cargo, mas o cidadão e o homem sou obrigado a sentir sempre em mim e a prestar contas… O senhor teve a bondade de falar do Zamiótov. O Zamiótov, esse vai aprontar algum escândalo à francesa num estabelecimento indecente, com um copo de champanhe ou de vinho do Don: é isso o que é o seu Zamiótov! Ao passo que eu, talvez, por assim dizer, ardi de devoção e de sentimentos elevados, e além disso tenho importância, posto, ocupo um cargo! Sou casado e tenho filhos. Cumpro o dever de cidadão e de homem, e ele, permita-me perguntar, quem é? Trato o senhor como um homem enobrecido pela instrução. E também essas parteiras se multiplicaram demais.
Raskólnikov ergueu as sobrancelhas, interrogativo. As palavras de Iliá Petróvitch, que pelo visto tinha acabado de se levantar da mesa, batiam e se despejavam diante dele, na maior parte, como sons vazios. Mas uma parte ele ainda assim entendia de algum modo; olhava interrogativo e não sabia como aquilo tudo ia terminar.
— Falo dessas moças de cabelo curto — continuou o loquaz Iliá Petróvitch. — Fui eu mesmo que as apelidei de parteiras, e acho o apelido perfeitamente satisfatório. He-he! Enfiam-se na academia, estudam anatomia; ora, me diga, se eu ficar doente, vou chamar uma mocinha para me tratar? He-he!5Nos anos 1860, o cabelo curto era uma das marcas das moças chamadas “niilistas”, que defendiam a emancipação da mulher e queriam estudar. Algumas chegaram a assistir, sem direito a diploma, a aulas na Academia Médico-Cirúrgica de Petersburgo, até serem proibidas.
Iliá Petróvitch gargalhava, plenamente satisfeito com as próprias tiradas.
— Vá lá que a sede de instrução seja desmedida; mas, uma vez instruído, basta. Para que abusar? Para que ofender pessoas nobres, como faz o patife do Zamiótov? Por que ele me ofendeu, eu lhe pergunto? E também esses suicídios se multiplicaram tanto que o senhor nem imagina. Gastam o último dinheiro e se matam. Mocinhas, rapazolas, velhos… Ainda hoje de manhã chegou um comunicado sobre um senhor recém-chegado. Nil Pávlitch, ô, Nil Pávlitch! Como é o nome daquele gentleman, de quem vieram comunicar há pouco, que se matou com um tiro no Lado de Petersburgo?
— Svidrigáilov — respondeu alguém da outra sala, com voz rouca e indiferente.
Raskólnikov estremeceu.
— Svidrigáilov! Svidrigáilov se matou com um tiro! — exclamou ele.
— Como! O senhor conhece Svidrigáilov?
— Sim… conheço… Ele chegou faz pouco tempo…
— Pois é, chegou faz pouco tempo, tinha perdido a mulher, um homem de conduta desregrada, e de repente se matou com um tiro, e de um jeito tão escandaloso que nem dá para imaginar… deixou no caderninho de anotações umas palavras dizendo que morria em perfeito juízo e que pedia que não culpassem ninguém pela sua morte. Dizem que tinha dinheiro. E como é que o senhor o conhece?
— Eu… conhecia… minha irmã morou na casa deles como governanta…
— Ora, ora, ora… Então o senhor pode nos informar sobre ele. E não desconfiava de nada?
— Eu o vi ontem… ele… estava bebendo vinho… eu não sabia de nada.
Raskólnikov sentia como se alguma coisa tivesse caído sobre ele e o esmagasse.
— O senhor parece que empalideceu de novo. O ar aqui é tão abafado…
— Sim, preciso ir, senhor — murmurou Raskólnikov. — Desculpe o incômodo…
— Oh, ora essa, quando quiser! Foi um prazer, e tenho a satisfação de declarar…
Iliá Petróvitch chegou a lhe estender a mão.
— Eu só queria… vim pelo Zamiótov…
— Entendo, entendo, e foi um prazer.
— Eu… fico muito contente… até logo, senhor… — sorria Raskólnikov.
Saiu; cambaleava. A cabeça girava. Não sentia se estava de pé. Começou a descer a escada, apoiando a mão direita na parede. Pareceu-lhe que um porteiro, com uma caderneta na mão, esbarrou nele, subindo em sentido contrário rumo à delegacia; que algum cachorrinho latia sem parar em algum lugar do andar de baixo e que uma mulher atirou nele um rolo de massa e gritou. Desceu e saiu para o pátio. Ali no pátio, não longe da saída, estava Sônia, pálida, toda lívida, e olhou para ele de um jeito desvairado, desvairado. Ele parou diante dela. Algo doente e exausto se expressou no rosto dela, algo desesperado. Ela ergueu as mãos e as juntou. Um sorriso disforme e perdido se espremeu nos lábios dele. Ficou parado um pouco, deu um sorriso torto e virou para cima, de volta à delegacia.
Iliá Petróvitch estava sentado, remexendo uns papéis. Diante dele estava aquele mesmo mujique que acabara de esbarrar em Raskólnikov ao subir a escada.
— A-a-ah? O senhor de novo! Esqueceu alguma coisa?… Mas o que o senhor tem?
Raskólnikov, de lábios empalidecidos e olhar imóvel, aproximou-se dele devagar, chegou até a própria mesa, apoiou a mão nela, quis dizer alguma coisa, mas não conseguiu; ouviam-se apenas uns sons desconexos.
— O senhor está passando mal, uma cadeira! Aqui, sente-se na cadeira, sente-se! Água!
Raskólnikov deixou-se cair na cadeira, mas não tirava os olhos do rosto de Iliá Petróvitch, surpreendido de modo muito desagradável. Os dois ficaram cerca de um minuto se olhando e esperando. Trouxeram água.
— Fui eu… — começou Raskólnikov.
— Beba um pouco de água.
Raskólnikov afastou a água com a mão e disse baixo, pausadamente, mas de forma clara:
Fui eu que matei naquela vez a velha viúva de funcionário e a irmã dela, Lizavieta, a machadadas, e roubei.
Iliá Petróvitch abriu a boca. Acudiram de todos os lados.
Raskólnikov repetiu o seu depoimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .